Reduced-scale Building Model
March 9 - Second Set
5.1.2 Results from Model
A partir das reflexões expostas anteriormente, optamos, neste trabalho, por considerar as características da profissionalidade docente como base para caracterização
da profissionalidade do regente de coros, compreendendo-o, também, como um educador. . Isto se dá, em primeiro lugar, pelas pesquisas em torno da profissionalidade docente se mostrarem bastante sólidas, possibilitando que sejam tomadas teórico e metodologicamente como referências para a realização deste trabalho. Além disso, esta possibilidade também se justifica pelo fato de já existir, na literatura, aproximações das funções destes profissionais com o ato de ensinar, como apresentado pelos autores Clemente (2014), D’Assumpção (2011), Figueiredo (1990), Franchini (2014), Ramos (2003), Junker (2013), Rasslan (2013), entre outros.
Price e Byo dão força a este argumento ao afirmar que “(...) tudo o que está envolvido com ensaio e regência pode ser caracterizado através de um paradigma de ensino” (PRICE; BYO apud FIGUEIREDO, 2005, p. 367). Nesta direção, também Rasslan (2013), em sua tese de doutorado, apresenta a importância que os Painéis Funarte de Regência Coral7 deram à questão educativa inerente a esta atividade, principalmente por, em suas últimas edições, terem sido incluídas discussões sobre a relação canto coral e educação musical. Além de ressaltar, no âmbito dos Painéis, da necessidade de formação de regentes com perfil para atuarem frente como educadores nos coros do país (RASSLAN, 2013, p.58).
Com relação à formação musical Rocha (2004) atenta para importância do desenvolvimento do regente desde sua infância. O contato com a música desde a infância possibilitaria uma vivência musical podendo contribuir diretamente na musicalidade. Para o autor, isso fará diferença na atuação do regente enquanto profissional. Outro item apresentado por ele é com relação ao conhecimento de instrumentos de tecla, sendo considerado extremamente necessário juntamente aos aspectos teóricos da música. A percepção musical é considerada importante como meio de treinamento auditivo. O autor também apresenta que o regente deve contar com uma sólida formação cultural, envolvendo aspectos históricos, filosóficos e éticos (ROCHA, 2004, p. 21).
Junker (2013) corrobora ampliando a discussão sobre os conhecimentos necessários ao educador musical, onde os considera como sendo algo implícito na atividade do regente. Ao ter a função de promover o desenvolvimento da percepção musical, os conhecimentos de teoria musical, história da música, harmonia, análise,
7 Os Painéis Corais tem por objetivo aperfeiçoar e difundir a prática do canto coral; Estimular a criação de obras para coros, beneficiando diretamente os compositores e os corais e, indiretamente, o público; Difundir o repertório coral brasileiro, no país e no exterior.
formas musicais e contraponto, não cabe ao regente ter domínio sobre as temáticas educativas também? (JUNKER, 2013, p. 23).
Ou seja, a articulação de todos estes conhecimentos, apresentados pelos autores, com a realidade de seus coros, fará com que seja caracterizada a profissionalidade do regente, ao passo que sua busca contínua por conhecimento e sua maneira de atuar nos mostrará os caminhos de sua profissionalização. Rocha (2014), ao relatar sobre a atuação do regente em coros amadores, acrescenta que (...) “cabe ao regente adequar seus métodos à realidade e aos anseios do grupo” (ROCHA, 2004, p. 99), e, desta necessidade de adaptação serão encontradas diferentes formas de profissionalização.
Então, ao observar os conceitos em torno da profissionalização e da profissionalidade docente encontramos alguns aspectos que são facilmente identificados na ação do regente coral. Para Junker (2013) “(...) todo regente carrega consigo a tarefa de agir como educador musical nas diversas atividades que desempenha enquanto profissional, sejam ensaios, apresentações, concertos, seminários, festivais, etc” (JUNKER, 2013, p. 21).
O contexto pedagógico se faz presente durante a atividade coral, uma vez que o papel do regente assemelha-se ao papel de um professor. Ao analisar os aspectos apresentados por Teixeira e Leal (2012) com relação à profissionalidade docente e comparar com a literatura sobre a atividade de regência podemos notar algumas semelhanças com relação às ações educativas desempenhadas pelo regente coral. Segundo Junker (2013), o regente frequentemente assume o papel de professor, e para que o processo de ensino aconteça adequadamente é necessário que ele tenha conhecimento profundo sobre processo de ensino-aprendizagem e didática de ensino (JUNKER, 2013, p. 99). Moreira (2015) corrobora do fato de o regente ter a função educativa. Em sua tese de doutorado, apresenta o conceito de regente-educador: um profissional que necessita ter “o conhecimento técnico-musical do regente e paralelamente, suas ações enquanto líder de um processo educacional cujos resultados são obtidos em grupo” (MOREIRA, 2015, p. 91).
Entendemos que é essencial para a realização de um bom trabalho de ensaio coral que o regente pesquise sempre, planeje bem e avalie suas ações assim como levantado por Figueiredo (1990) quando diz: “(...) cada etapa de um ensaio deve ser cuidadosamente planejada e avaliada”. Também encontramos semelhanças entre a profissionalidade docente e a profissionalidade do regente no aspecto de gerência de um grupo. O regente precisa ter a capacidade de gerir seu grupo e interagir verbalmente,
para que assim possa mediar didaticamente o ensino musical (FIGUEIREDO,1990, p. 13). Estes aspectos são semelhantes na ação de um docente.
Ao tratar sobre a categoria “regente educador” o autor D’Assumpção (2011) evidencia com maior veemência a proximidade entre a ação educativa e o ato da regência. Para ele, esse é o perfil do regente que atua em escolas que atendem crianças e adolescentes, responsável por mediar o processo de aprendizagem do conteúdo musical aliado a uma formação de cidadãos críticos e éticos (D’Assumpção, 2011, p. 4). Ainda tratando das funções educativas do regente, este autor afirma ser necessária a articulação dos conhecimentos musicais às práticas pedagógicas:
O regente-educador precisa estar consciente da sua condição de liderança visando o crescimento do coral, das pessoas individualmente e de si próprio. Ao se valer de habilidades e competências técnicas relacionadas à questão musical, propriamente dita, ao seu preparo pedagógico e à sua capacidade de gerenciamento, não somente consolida tal liderança, mas, sobretudo, estabelece recursos para produzir uma atividade baseada na qualidade técnico-musical associada às preocupações pedagógicas que todo educador deve possuir em relação aos seus educandos. (D’ASSUMPÇÃO, 2011, p. 7)
Considerando a relevância da atividade coral como atividade educativa é evidente que, para sua realização, haja a necessidade de um profissional qualificado. Figueiredo (1990) já levantava a questão sobre a realização de tal atividade por profissionais sem formação na área: “(...) há regentes cuja única formação é a experiência de cantar em coral: após alguns anos de prática como cantor, assumem a liderança do grupo”. Para o autor, o fato de existir certa diversidade no perfil do regente pode trazer uma ideia errada sobre a prática coral. Segundo ele, o fato dos grupos corais apresentarem uma heterogeneidade de integrantes deveria estimular a formação mais cuidadosa dos regentes, porém não é o que se constata (FIGUEIREDO, 1990, p. 2).
O alerta do pesquisador foi feito nos anos 1990 e, no entanto, podemos notar na pesquisa de Clemente (2014) que tal situação ainda é atual. Alguns dos entrevistados por ela apontaram ter iniciado suas atividades como regentes sem mesmo ter formação específica em regência, onde, da experiência prática surgiu a necessidade de ampliação dos estudos na área da música. Vale ressaltar que os entrevistados por ela já possuíam algum contato com a música, ou como cantores de corais, ou como estudantes de instrumentos (CLEMENTE, 2014, p. 65). Ou seja, é comum observar regentes iniciando sua experiência profissional antes de ter uma habilitação na área e, de acordo com as
necessidades de sua prática, eles têm buscado uma formação ou complementação de seus conhecimentos.
Nesta direção Junker (2013), comenta o porquê da realização da atividade por profissionais sem qualificação:
Em várias localidades brasileiras, se veem casos de regentes que atuam porque “em terra de cego quem tem um olho é rei”. Sabe-se que não é culpa da pessoa que está nessa situação. Porém, ela precisa frequentar cursos e atividades para reciclar-se e conscientizar-se de outros pontos de referência sonoros em relação às áreas trabalhadas em coral, através de uma metodologia devidamente estruturada.
Frequentemente, são vistos em festivais de coros pelo Brasil afora, regentes que possuem apenas a chamada “formação empírica” e o auto-didatismo. Nessas situações, a aprendizagem do regente acontece junto com a dos cantores, sem a mínima preparação acadêmica. Assim, dificilmente acontece um planejamento de atividades, seja longo termo, visando o crescimento musical e geral dos cantores, ou mesmo para as atividades proeminentes. Todos sofrem com esta situação. É imperativo trabalhar a consciência profissional quanto à formação acadêmica adequada para atuar como regente e educador musical em nossa sociedade hoje em dia. (JUNKER, 2013, p. 94)
Junker aponta em seu discurso um problema com relação à falta de formação acadêmica de muitos regentes atuantes no país. Independentemente da formação do regente estar vinculada a cursos de graduação ou não, é necessário ao profissional uma busca por qualificação e conhecimento em torno da atividade coral, para que assim, sua ação seja a mais adequada e cuidadosa possível enquanto educador musical.
Ao apontar a função do regente coral semelhante à de um professor, Figueiredo (1990) reforça a importância de conhecimento do processo de ensino e aprendizagem musical, onde a necessidade de um profissional habilitado ao exercício da profissão torna-se essencial. Este preparo permite que o regente esteja pronto para agir em
qualquer tipo de adversidade que possa surgir durante suas aulas/ensaios: “(...) uma preparação cuidadosa do ensaio promoverá maior segurança, mesmo diante de situações imprevistas” (FIGUEIREDO, 1990, p. 6). E ainda contribui:
Não importa se o coral quer ser profissional ou amador, se quer cantar na Igreja ou na indústria. O importante é tornar a atividade coral algo mais produtivo qualitativamente, que possa ser desenvolvida em vários níveis atendendo a diferentes objetivos, cumprindo uma função educacional. (FIGUEIREDO, 1990, p. 17).
Compreendendo que a essência do trabalho do regente coral envolve, também, um processo educativo, independente de seu contexto (coral amador ou profissional),
pretende-se aqui levantar quais aspectos têm caracterizado a construção da profissionalidade do regente coral em Campo Grande, MS, visto que a inserção inicial em qualquer carreira traz consigo certas inseguranças. Para Junker (2013), no caso do regente coral, uma das dificuldades se deve ao fato dos profissionais “(...) não terem resolvido, no início de suas carreiras, o medo no exercício da regência. Medo este que pode ter causa numa preparação insuficiente para estar à frente de um coro, tanto de ponto de vista musical quanto administrativo” (JUNKER, 2013, p. 102).
No Brasil, o perfil dos profissionais atuantes como regentes é bem variado, contando com profissionais com formação superior específica em regência, profissionais formados em graduações em música com habilitação em instrumento ou canto, profissionais licenciados em música e, ainda, alguns profissionais atuando com formação em outros contextos além da universidade, como cursos técnicos e conservatórios de música, por exemplo.
Considerando a atividade coral como um excelente meio de proporcionar o acesso a processos de educação musical, é de extrema importância a ampliação de um olhar sobre as necessidades dos regentes de coros, aqui em especial os regentes de coros infanto-juvenis, evidenciando aspectos de sua profissionalidade, para assim, fortalecer ações que possam contribuir para a formação de novos regentes estruturando e preparando-os para sua atuação.
No capítulo II que se segue, apresentaremos os recursos metodológicos utilizados para a realização desta pesquisa, na tentativa de compreender a profissionalidade do regente de coros infanto-juvenis e sua relação com seus contextos de atuação em Campo Grande - MS.