As consequências do AVC são diversas para a pessoa doente, contudo ultrapassam o âmbito individual, afetando também a família (Royal College of Physicians, 2004). Moreira (2001) confirma que quando uma pessoa sofre um AVC toda a dinâmica familiar pode ser alterada pelo grau de dependência que geralmente esta doença acarreta.
Segundo a CIPE (1999, versão β2, p.65), a família é “ (…) um conjunto de seres humanos considerado como unidade social ou o todo coletivo composto de membros unidos por consanguinidade, afinidades emocionais ou relações legais, incluindo as pessoas significativas.”.
A família é um pilar fundamental para qualquer pessoa, a primeira unidade social onde ela se insere e também a primeira instituição que contribui para o seu desenvolvimento e socialização (Martins, 2002)
Andrade (1996) sugere um emergir de uma reorganização familiar após AVC, havendo uma redefinição de papéis entre os elementos da família, com a eleição de alguém que assuma a responsabilidade de cuidador. Embora toda a família partilhe tarefas, a função de cuidar da pessoa dependente, tende a ser assumida por uma única pessoa (Campos, 2008). O cuidador informal ou prestador de cuidados, geralmente obedece a quatro fatores, relacionados com o parentesco: ser cônjuge, ser do género feminino, já viver com a pessoa doente e ter relação afetiva, principalmente conjugal e de filhos (Fonseca; Penna, 2008).
Cuidar de alguém é muito mais do que as tarefas observáveis pois requer um esforço contínuo chegando mesmo a levá-lo à doença (Paúl, 1997). O cuidador no domicílio enfrenta a necessidade de adaptação às mudanças e, os Enfermeiros, por se encontrarem numa posição privilegiada para satisfazer as necessidades dos doentes e família, devem compreender a realidade que envolve o cuidar no domicílio (Mok; Faye; Vivian; Ellen, 2002).
Todo este novo contexto pode reformular a própria estrutura familiar. A estrutura familiar é o conjunto ordenado de relações entre as partes da família e entre a família e outros sistemas sociais. Para se identificar a estrutura, identificam- se os indivíduos que a constituem, as relações entre eles, e as relações entre a família e os outros sistemas sociais onde está inserida (Hanson, 2005). A pessoa por vezes é obrigada a abandonar o seu lar e a relação com a sua família, por estar dependente e necessitar de alguém que cuide de si (Martins, 2002).
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Andrade (1996) acrescenta também que a família é considerada a fonte mais habitual de assistência nos cuidados, e a procura da institucionalização dá-se apenas quando a própria família não consegue ter capacidade e recursos de apoio.
Hanson (2005) refere que a sociedade espera que a família ajude no equilíbrio psicológico em momentos de crise acidental, como é o caso de uma doença. Dinis (2007, p. 125) acrescenta que “a família dá apoio e resposta às necessidades básicas em situações de doença”.
Uma doença repentina e incapacitante, como é o caso do AVC exige várias adaptações quer por parte da pessoa doente, quer por parte da família. A vivência desta crise irá ser influenciada pelos recursos que a família dispõe (estrutura da família, tipo de relações desenvolvidas, natureza individual dos seus elementos), bem como pela forma otimista e positiva como a crise é encarada. As famílias com fracas fontes de suporte são mais susceptíveis à rutura (Martins, 2004).
Perante esta situação exige-se a necessidade de reorganização da família, de modo a encontrar respostas ao sucedido, aliado à adaptação, coesão e comunicação entre os diferentes elementos da família (Imaginário, 2004).
Martins (2002) acrescenta que perante a doença, os membros da família abandonam as suas atividades normais, os seus projetos e dedicam-se a restaurar o equilíbrio da unidade. Os papéis e as responsabilidades previamente assumidas pelo doente delegam-se a outros membros ou então deixam de ser cumpridas. De acordo com o momento do ciclo vital da família, a doença e dependência tem diferentes impactos na reorganização familiar.
A reestruturação torna-se mais complexa quando o chefe de família é acometido pelo AVC, visto que ocorrem mudanças na gestão do orçamento doméstico e na tomada de decisões (Perlini; Faro, 2005).
A família sofre um marcado processo de ansiedade, devido às responsabilidades adicionais e para minimizar o risco de entrar em rutura física, emocional e mesmo financeira é fundamental que a família seja flexível. As famílias que toleram situações emocionais fortes, que são flexíveis na mudança de papéis, que resolvem problemas de forma eficaz e utilizam recursos externos têm vantagens quando se depararem com situações agudas. A família pode ter dificuldades em tomar decisões, cuidar-se mutuamente ou solucionar problemas, o que demonstra que os problemas individuais não se centram apenas na pessoa, mas afetam toda a família (Sánchez; Sánchez, 2004).
A adaptação inicial ocorre logo na hospitalização do familiar devido ao afastamento físico do doente, ao medo de perder a pessoa querida e também devido aos problemas financeiros que a hospitalização acarreta (Urizzi et al., 2008).
Contudo, segundo Hafsteinsdóttir e Grypdonck (1997) o maior impacto ocorre após a alta hospitalar, uma vez que é o momento que o doente retorna ao lar e se depara com as sequelas físicas e emocionais, que comprometem a autonomia e a independência. Mendonça, Garanhani e Martins (2008) confirmam que durante esta fase, sentimentos de revolta e desânimo podem surgir, causando stress quer ao doente quer à sua família.
As dificuldades fazem a família repensar a vida e as relações interpessoais. Contudo, enquanto uns face aos problemas reencontram laços que pareciam não existir, unindo-se e gerando força para superar o sofrimento desta vivência, outros vivenciam conflitos e crises que desestruturam o dia-a-dia das pessoas envolvidas (Knihs; Franco, 2005)
A incapacidade após AVC provoca sofrimento e angústia na vida das pessoas. A atenção quer do doente, quer da família volta-se para o que se perdeu, pelo que ocorrem sentimentos de inutilidade, inadequação, inferioridade e até mesmo um quadro de depressão. As atitudes e comportamentos da família perante o grau incapacitante da doença variam com as expectativas que o doente e a família têm, quer em relação à evolução da incapacidade, quer às suas próprias consequências. Uma dessas consequências é o estigma social, muitas vezes negligenciado, mas com impacto profundo nas relações familiares, sociais e profissionais (Sousa; Relvas; Mendes, 2007).
O Enfermeiro deve integrar a família no processo de cuidados, mantendo-a informada sobre a doença e as suas implicações, ensinando sobre como dar resposta às necessidades e dificuldades do doente e ajudando-a na vivência desta transição. Marques, Rodrigues e Kusumota (2006) salientam que o esforço e o potencial de cada família devem ser reconhecidos e valorizados pelo Enfermeiro que utilizará o que é positivo nela para fornecer o suporte necessário a cada uma, encorajando-as e auxiliando-as para a reorganização e o equilíbrio do sistema familiar. O conhecimento das atividades desenvolvidas no domicílio e das sobrecargas enfrentadas pelos cuidadores é fundamental para amenizar a tensão intrafamiliar.
Em síntese, a família altera a dinâmica da sua vida após o AVC e a
dependência do seu ente querido. Cada família vivencia este processo de transição de modo único, de acordo com a sua capacidade auto-organizativa. A capacidade de adaptação da família à situação de doença e dependência e a sensação de competência para cuidar do seu familiar são influenciadas pelos profissionais de saúde, principalmente os Enfermeiros.
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