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Mas há sempre uma candeia dentro da própria desgraça há sempre alguém que semeia canções no vento que passa. Mesmo na noite mais triste em tempo de servidão há sempre alguém que resiste há sempre alguém que diz não. (poeta Manuel Alegre)56. Para muitos autores Paulo Freire foi, e suas palavras permanetemente o farão sempre ser, alguém que diz não. Não sendo possível elencar aqui todas as razões pelas quais ele se negou a calar, todavia, duas situações, dentre tantas, se

55 Fonte: https://www.flickr.com/photos/59760939@N07/albums/72157630396799372. Acesso em jul/2015.

fizeram fortemente presente em seus escritos, e a respeito delas ele empenhou sua consciência e energia intelectual para desvelar, em diferentes contextos, o por quê, como e para quê se deve lutar contra a opressão e a alienação. Suas ideias, inegavelmente, influenciaram a prática educativa de muitos educadores, tanto aqui no Brasil como em diversas partes do mundo.

Do trabalho assistencialista, no Departamento de Serviço Social do SESI de Pernambuco, às primeiras experiências pedagógicas que deram origem ao método de alfabetização de adultos, Freire (1979) se revela em constante diálogo com o povo. Suas experiências-piloto aconteceram em 1962, inicialmente no Centro de Cultura Dona Olegarinha, localizado na comunidade Poço da Panela na capital pernambucana (FREIRE, 1979), passando às atividades nos círculos de cultura do MCP de Recife e em João Pessoa – PB na Campanha de Educação Popular da Paraíba – CEPLAR57 e chegando a Angicos. Todavia, segundo Souza

(2009), a sistematização do método ocorreu no Serviço de Extensão Cultural – SEC, da Universidade de Recife, onde Freire e sua equipe assessoravam a implantação de movimentos de educação popular.

Como autor de um método específico para alfabetização de adultos, em um contexto em que estes eram desrespeitosamente alfabetizados no modelo da educação infantil, de acordo com Gadotti (2009a), tal temática ganha destaque na obra de Paulo Freire. Partindo de experiências desenvolvidas no início da década de 60 para tornar-se uma proposta a nível nacional58, em seu método, ou melhor

em sua “teoria educacional” (GADOTTI, 2009), Freire apresenta a ideia de „leitura da palavra‟ e „leitura de mundo‟ como eixos indissociáveis na prática educativa com os sujeitos analfabetos.

Não por acaso palavras como „tijolo‟, „trabalho‟, „moradia‟, constavam nas fichas de cultura que compunham o material de seu método. Eram palavras que faziam parte do contexto do seu educando, obtidas a partir do levantamento do universo vocabular deste e por meio da interação e do diálogo com os mesmos, como explica o próprio Freire (1967, p. 113), “as palavras geradoras deveriam sair

57 Fórum de EJA Brasil. Disponível em: http://forumeja.org.br/brasil. Último acesso abril de 2015. 58 De acordo com Brandão (1981, p. 18-19) a experiência de Angicos – RN fez com que o Governo Federal decidisse aplicar o método de Paulo Freire em todo o território nacional. “E foi assim que, entre junho de 1963 e março de 1964 foram realizados cursos de formação de coordenadores na maior parte das Capitais dos Estados brasileiros”. Contudo, com o Golpe Militar em 64 “não houve tempo para passar das primeiras experiências para os trabalhos de amplo fôlego com a alfabetização de adultos”.

destes levantamentos e não de uma seleção que fizéssemos nós mesmos, em nosso gabinete, por mais tecnicamente bem escolhidas que fossem”.

Sem a intenção de apresentar uma descrição acurada do método de Freire, o objetivo desta seção é discutir acerca de aspectos operacionais e práticos de suas experiências, colocando destaque nos recursos audiovisuais utilizados no processo de alfabetização de adultos. Uma tarefa um tanto laboriosa, pois, como afirma Guerra (2013), grande parte da literatura sobre o trabalho de Paulo Freire limita-se a valorizar os aspectos teóricos e os fundamentos filosóficos do seu método, em detrimento de uma discussão mais detalhada em torno mesmo dos seus procedimentos metodológicos, sobre suas práticas. Diante de um projeto revolucionário como foi a proposta de Freire, certamente que todos os seus aspectos fazem jus ao debate de inúmeras questões, todavia, aqui a atenção será dada aos “atos concretos da alfabetização” (FREIRE, 1979).

A começar pelos trabalhos de Carvalho (2004) e Souza (2009), que apresentam análises acerca do uso de imagens, como importante recurso pedagógico, no projeto de alfabetização de adultos proposto por Paulo Freire. A pesquisa de Souza (2009) teve como objeto de estudo as fichas de cultura, elaboradas por Francisco Brennand notável artista plástico e conterrâneo de Freire, que seriam utilizadas no Programa Nacional de Alfabetização – PNA, explanado mais adiante. Conforme a autora, o método de Freire ganhou grande projeção a partir mesmo das atividades realizadas em Angicos no início de 1963, “representando um salto qualitativo em relação ao material utilizado na alfabetização de adultos até o final dos anos de 1950”. (SOUZA, 2009, p.62).

Estruturado em cinco fases Freire descreve seu sistema de alfabetização em várias de suas obras. Nas duas primeiras fases do sistema, mencionadas inicialmente, acontece o levantamento do universo vocabular dos alfabetizandos, registrando-se palavras e expressões utilizadas por estes; posterior a este escolha das “palavras geradoras” que, conforme o autor, “decompostas em seus elementos silábicos, propiciam, pela combinação desses elementos, a criação de novas palavras”. (FREIRE, 1967, p. 111). Na terceira fase ocorre a criação de “situações existenciais” características do grupo onde o método será aplicado. “São situações locais que abrem perspectivas, porém, para a análise de problemas nacionais e regionais. Nelas vão se colocando então os vocábulos

geradores escolhidos, na gradação de suas dificuldades fonêmicas”. (FREIRE, 1967, p. 114).

Na quarta fase do sistema sucede a elaboração de “fichas roteiro”, que auxiliam os coordenadores no debate com os grupos de alunos. Como etapa final nesse esquema de sistematização do método freriano tem-se a confecção de fichas contendo a decomposição das famílias fonêmicas correspondentes aos vocábulos geradores. Chega-se então ao aspecto alvo de observação deste estudo, a produção e reprodução do referido material, utilizado nos círculos de cultura. De acordo com Maciel (1963, p. 53) o método de alfabetização de Freire utiliza o aprendizado da informação através de múltiplos canais de comunicação, sendo eles “o pictórico (visual), o auditivo verbal ou simplesmente áudio e o gráfico”.

Para Maciel (1963, p.53) a técnica do aprendizado pela associação, relacionando a imagem à palavra, foi um recurso que propiciou grande sucesso ao método de Freire, no esquema em que “a imagem [vem] primeiro, com toda uma situação antropológica e sociológica. Depois é que se faz a associação da palavra à situação, ou detalhe da situação”. Citando Lumsdaine (1949), o autor esclarece que existem quatro maneiras distintas de se associar palavras (faladas ou escritas) e imagens: 1) palavra – imagem; 2) palavra – palavra; 3) imagem – palavra e 4) imagem – imagem. Conforme este autor, “a experiência na manipulação das ajudas audiovisuais tende a indicar que a adição de imagens aumenta a adição de aprendizado”. (MACIEL, 1963, p. 54). Por este ponto de vista,

[...] podemos dizer que os processos atuais de leitura são de natureza áudio-visual. As ajudas visuais propiciam maior fixação. Uma vez desafiados com a ficha projetada, os analfabetos descrevem o que vêem e geralmente empregam palavras soltas ao se iniciarem. Cabe ao coordenador levá-los a fundamentar suas opiniões em bases mais críticas, quando lançam os "porque", “para que", “onde", "como". A ficha engloba aspectos diversos da realidade. (CARDOSO, 1963, p. 74).

Nessa mesma direção, apresentando um estudo de “base iconológica”, Carvalho (2004) examina os dispositivos visuais e as imagens utilizadas em Angicos e apropriando-se do conceito de “pedagogia pela imagem” o autor delineia aspectos que caracterizam o método de Freire. De acordo com Carvalho,

na metodologia freriana, “a análise das imagens transcende os aspectos estritamente artísticos, para escrutinar sua funcionalidade pedagógica (CARVALHO, 2004, p. 100), isso acontecendo tanto no processo de ensino da escrita e da leitura como no processo de conscientização política objetivado pelo método, explica o autor.

Consonante à discussão de Maciel (1963), Carvalho (2004, p. 104) afirma que o uso de imagens associadas aos temas discutidos ou às palavras geradoras, “cumpre a função de principiar uma cadeia de analogias, semelhanças e continuidades de significado (ECO, 1999), desde estas imagens até sua representação gráfica verbal, cadeia esta ligada por confiáveis elos mnemônicos”. Nesse sentido, continua o autor, como as imagens consistiam em representações de coisas familiares ao alfabetizando, que faziam parte do seu universo cultural, elas passavam a assumir “um nível suficientemente “extremo” de significação ou de concretude, capaz de levar de modo eficiente aos símbolos fonéticos gráficos e à conseqüente concretização destes” (CARVALHO, 2004, p. 104). Assim,

O método da alfabetização gráfica constitui uma síntese das metodologias sintética (aprendizagem do abecedário, silabação, palavração, fraseado) e analítica (fraseado, palavração, etc.). Uma atenção maior à abordagem analítica responde ao princípio gestaltista de que a percepção ocorre de forma globalizada, assim como à compreensão da leitura como processo ideovisual. (CARVALHO, 2004, p. 104).

Visto a participação dos meios visuais no tempo integral das aulas, segundo este autor, o caráter audiovisual da metodologia empregada mostrou-se de uma importância básica para os envolvidos na experiência de Angicos. Por esse aspecto, Carvalho (2004, p. 105) afirma que, feita uma primeira análise, percebe-se que a “ênfase dada ao projetor pode levar à compreensão de que o “Método Paulo Freire” [...] incorporava características tecnicistas”, dando indícios a uma tendência pedagógica que, nos anos setenta teria seu ápice, mediante a forte utilização de novas tecnologias no ensino, em que “os recursos audiovisuais, tornaram-se prioritários entre as competências do professor e solidamente integrados aos processos de ensino-aprendizagem”. (CARVALHO, 2004, p. 107).

Todavia, a aplicação de recursos visuais na metodologia de Freire, como parte de sua estratégia de ensino-aprendizagem, não reportava ao tecnicismo pedagógico, pois, destaca o autor, o processo freriano de alfabetização,

fundamentalmente dialógico, acontecia com a efetiva participação das figuras do professor e do aluno, partindo da troca de seus saberes culturais e “intercambiáveis”. “Nesta relação de base é que se acreditava estar a raiz da eficiência, estando as imagens e os aparatos para a sua exibição funcionando apenas como suportes auxiliares”. (CARVALHO, 2004, p. 108).

Destarte, certamente que o texto imagético foi um recurso bastante explorado por Freire, sem a utilização de cartilhas, principal expediente de alfabetização utilizado até então, todo o material do seu método foi confeccionado no formato de slides, strip-films ou cartazes (FREIRE, 1967), como mostra a figura que se segue. Em Angicos, num contexto em que a televisão não havia chegado, explica Lyra (1996), a imagem reproduzida pelos projetores de slides era um “deslumbramento”, logo que iniciada a projeção o barulho cessava e todos os alunos voltavam sua atenção à imagem projetada, relata o ex-coordenador. Era uma verdadeira “produção cinematográfica” diz Callado (1964).

Figura 5 – Recursos visuais no método de Paulo Freire