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se admite de bom grado a existência de fontes utilizadas mais particularmente para a história africana: geologia e paleontologia, pré -história e arqueologia, paleobotânica, palinologia, medidas de radiatividade de isótopos capazes de fornecer dados cronológicos absolutos, geografia física, observação e análise etno -sociológicas, tradição oral, linguística histórica ou comparada, documentos escritos europeus, árabes, hindus e chineses, documentos econômicos ou demográficos que podem ser processados eletronicamente.

A variedade das fontes da história africana permanece extraordinária. Dessa

forma, devem -se buscar de forma sistemática novas relações intelectuais que estabeleçam ligações imprevistas entre setores anteriormente distintos. A

utilização cruzada de fontes aparece como uma inovação qualitativa. Uma certa

profundidade temporal só pode ser assegurada pela intervenção simultânea de diversos tipos de fontes, pois um fato isolado permanece, por assim dizer, à margem do movimento de conjunto. A integração global dos métodos e o cruzamento das fontes constituem desde já uma eficaz contribuição da África à ciência e mesmo à consciência historiográfica contemporânea.

A curiosidade do historiador deve seguir várias trajetórias ao mesmo tempo. Seu trabalho não se limita a estabelecer fontes. Trata -se de se apropriar, através de uma sólida cultura pluridimensional, do passado humano. Porque a história é uma visão do homem atual sobre a totalidade dos tempos.

A maioria dessas fontes e técnicas específicas da história africana extraídas das ciências matemáticas, da física dos átomos, da geologia, das ciências naturais, das ciências humanas e sociais, estão amplamente descritas no presente volume. Desse modo, insistiremos aqui nos aspectos e problemas não desenvolvidos em outras partes.

Sem dúvida, o fato metodológico mais decisivo desses últimos anos foi a intervenção das ciências físicas modernas no estudo do passado humano, com as medidas de radiatividade dos isótopos, que asseguram a apreensão cronológica do passado até os primeiros tempos do aparecimento do Homo sapiens (teste do carbono 14) e das épocas anteriores a 1 milhão de anos (método do potássio -argônio).

Atualmente, esses métodos de datação absoluta abreviam de modo considerável as discussões no campo da paleontologia humana e da pré ‑história1. Na África, os

hominídeos mais antigos datam de -5.300.000 anos pelo método K/Ar. Essa é a idade de um fragmento de maxilar inferior com um molar intacto de um

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Fontes e técnicas específicas da história da África – Panorama Geral

hominídeo encontrado pelo professor Bryan Patterson, em 1971, em Lothagam no Quênia. Por outro lado, os dentes de hominídeos encontrados nas camadas villafranchianas do vale do Omo, na Etiópia meridional, pelas equipes francesas (Camille Arambourg, Yves Coppens) e americana (F. Clark -Howell) têm 2 a 4 milhões de anos. O nível do Zinjanthropus (nível I) do célebre depósito de Olduvai, na Tanzânia, data de 1.750.000 anos, sempre através do método do potássio -argônio.

Assim, graças ao isótopo potássio -argônio, a gênese humana do leste africano, a mais antiga de todas no estágio atual dos conhecimentos, constitui a gênese humana propriamente dita, tanto mais que o monofiletismo é uma tese cada vez mais amplamente admitida hoje na paleontologia geral. Em consequência, os restos fósseis africanos conhecidos atualmente fornecem elementos decisivos para responder a esta questão primordial das origens humanas, colocada de mil maneiras ao longo da história da humanidade: “Onde nasceu o homem? Há quanto tempo?”.

As velhas ideias estereotipadas, que colocavam a África praticamente à margem do Império de Clio, estão agora completamente modificadas. Os fatos, postos em evidência através de várias fontes e métodos – desde a paleontologia humana até a física nuclear – mostram claramente, ao contrário, toda a profundidade da história africana, cujas origens se confundem precisamente com as próprias origens da humanidade.

As informações obtidas de outras fontes – as ciências da Terra, por exemplo – iluminam igualmente a história da África, independentemente de qualquer documento escrito. A vida e a história da população da bacia lacustre do Chade, por exemplo, seriam dificilmente compreensíveis sem a intervenção da geografia física. É conveniente ressaltar o valor metodológico desse enfoque.

Com efeito, a vida e os homens não se distribuem ao acaso na bacia do lago Chade, que apresenta de forma esquemática o seguinte quadro hipsométrico: uma planície central de acumulação situada entre 185 e 300 m de altitude; em torno, um anel bastante descontínuo de velhos planaltos desgastados, cuja peneplanização foi às vezes camuflada por atividades vulcânicas recentes; unindo esses planaltos de, em média, 1000 m de altitude, e as zonas baixas de acumulação, há encostas geralmente íngremes afetadas por uma erosão ativa num clima úmido. É precisamente a zona de solos detríticos bastante leves que recebe a chuva a que apresenta a maior densidade demográfica, ou seja, de 6 a 15 hab/km2. Sob o clima

do Sahel ocorre ainda boa densidade nos aluviões fertilizados pelas infiltrações ou inundações do Chade. Nos altos planaltos do leste e do sul, Darfur e Adamaua, de onde descem os tributários do lago, a população reduz -se a 1 hab/km2. No

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norte, já saariano, a densidade diminui ainda mais. O aspecto humano da bacia é, por consequência, estreitamente ligado a um problema de geografia física, de geomorfologia, que condiciona o desenvolvimento humano.

Dessa forma, a civilização recuou diante do deserto. Ela retrocedeu até o limite da área em que o milho -miúdo e o sorgo podem ser cultivados sem irrigação, na latitude aproximada do Neo -Chade (as culturas irrigadas de legumes, tabaco, trigo duro, são feitas às margens do Logone e do Chari). Agricultores, pastores e pescadores vivem na zona meridional, onde as águas flúvio -lacustres fecundam as terras, tornam verdes os pastos, atraem periodicamente uma multidão de pescadores. Ao contrário, a erosão nas zonas desérticas setentrionais torna o solo instável e a vegetação precária, caracterizada por arbustos espinhosos xerófilos. Mas tais estruturas geomorfológicas condicionaram ainda outras atividades humanas. Por exemplo, as invasões dos conquistadores expulsaram várias vezes os agricultores autóctones dos planaltos salubres e das planícies férteis, fazendo- -os recuar para as zonas (inclinações ou cumes) impróprias para a criação de gado. Desse modo, os Fulbé empurraram os Bum e os Duru para os terrenos menos férteis da Adamaua, e os Kiroi do norte de Camarões para os terrenos graníticos do maciço montanhoso do Mandara. Ora, o trabalho nas terras dos declives outrora submersos é certamente rude e ingrato para estes povos; mas é o que melhor corresponde a suas ferramentas precárias. Por fim, a presença periódica ou permanente de áreas palustres na zona de aluvião cria condições para a existência de imensa quantidade de mosquitos (Anopheles gambiae). Existem, por outro lado, focos da mosca tsé -tsé (Glossina palpalis) às margens do Logone e do Chari, nas formações higrófilas baixas de Salix e Mimosa asperata que cercam os depósitos recentes. A malária e a doença do sono, transmitidas por tais insetos, transformam essas áreas em locais extremamente adversos.

Em resumo, para ter uma visão concreta da vida humana na bacia do Chade, que conheceu antes várias flutuações quaternárias devidas a alterações de clima, o historiador deve necessariamente valer -se de uma série de fontes e técnicas particulares, extraídas das ciências da Terra e das ciências da vida, já que a atual distribuição das populações, seus movimentos migratórios passados, suas atividades agrícolas, pastoris, etc., são estreitamente condicionadas pelo meio ambiente.

O caso da bacia lacustre do Chade é apenas um exemplo entre outros. Todas as vezes que a curiosidade científica se libertou de certos esquemas restritivos, os resultados foram igualmente esclarecedores. Entre os Nyangatom ou Bumi do vale do Omo, próximos dos Turkana do noroeste do Quênia, existe uma diferença imunológica notável manifesta nos exames de sangue dos homens testados

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Fontes e técnicas específicas da história da África – Panorama Geral

(300 indivíduos em 1971 e 359 em 1972). Tal diferença não era observável entre os sexos, mas entre as aldeias (que reúnem de 20 a 300 habitantes). Essas aldeias, cuja população vive de criação, agricultura, coleta, caça e pesca, obedecem a uma organização clânica rígida, acentuada por uma distribuição em setores territoriais. Mas não existe nessa sociedade nenhum chefe acima do membro mais velho. Desse modo, as diferenças originárias da organização social territorial dos Nyangatom projetam -se na sorologia: o mapa das reações dos soros aos antígenos arbovirais reproduz exatamente a distribuição territorial das populações testadas2.

Esse exemplo de colaboração dinâmica entre o parasitólogo e o antropólogo pode ser de grande utilidade para o historiador. É importante que ele saiba da existência desse material documental, que pode revelar -se “pertinente” na análise de comportamentos sexuais e no estudo do crescimento demográfico dos Nyangatom.

O problema heurístico e epistemológico fundamental permanece sempre o mesmo: na África, o historiador deve estar absolutamente atento a todos os tipos de procedimentos de análise, para articular seu próprio discurso, fundamentando- -se num vasto conjunto de conhecimentos.

Esta “abertura de espírito” é particularmente necessária quando se estudam períodos antigos, sobre os quais não se dispõe nem de documentos escritos nem mesmo de tradições orais diretas. Sabemos, por exemplo, que a base da agricultura para os homens do Neolítico era o trigo, a cevada e o milhete, na Ásia, na Europa e na África, e o milho, na América. Mas como identificar os sistemas agrícolas iniciais, que surgiram há tanto tempo? O que permitiria distinguir uma população de predadores sedentários de uma de agricultores? Como e quando a domesticação das plantas se difundiu nos diversos continentes? Quanto a isso, a tradição oral e a mitologia prestam apenas uma pequena ajuda. Unicamente a arqueologia e os métodos paleobotânicos podem dar uma resposta válida a tais questões importantes, relativas a essa inestimável herança neolítica que é a agricultura.

A película externa do pólen é muito resistente ao tempo num solo favorável, não ácido. A paleopalinologia fornece uma análise microscópica de tais vestígios botânicos. Os grãos de pólen fósseis podem ser recolhidos dissolvendo progressivamente uma amostra de terra com o emprego de ácidos quentes (ácido fluorídrico ou clorídrico), que eliminam o silício e o calcário sem atacar o pólen,

2 Trabalhos de François RODHAIN, entomologista, e de Serge TORNAY, etnólogo, membros da missão francesa do Omo, dirigida por M. Yves COPPENS (1971, 1972).

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e em seguida os húmus orgânicos (potássio). O resíduo, centrifugado e colorido, é então colocado em gelatina, restando ao operador apenas reconhecer e contar cada grão para construir uma tabela de porcen tagem. Esta fornece o perfil polínico do sedimento estudado. Dessa forma, pode -se detectar a presença da agricultura num sítio, precisar a evolução da paisagem, diagnosticar o clima através das variações da vegetação e determinar a eventual ação do homem e dos animais sobre a cobertura vegetal.

Tais análises permitiram revelar atividades de domesticação de plantas alimentícias na África, atividades essas centralizadas em vários pontos e difundidas por diversas regiões. O sorgo (inicialmente domesticado na savana que se estende do lago Chade à fronteira entre o Sudão e a Etiópia), o milho -miúdo, o arroz africano, a voandzeia, a ervilha forrageira, o dendezeiro (domesticado na orla das florestas), o finger millet, o quiabo e o inhame africano eram as principais plantas cultivadas na época.

As plantas americanas foram introduzidas há relativamente pouco tempo, como atestam desta vez certas fontes escritas. A mandioca, por exemplo, hoje o alimento básico de vários povos da África central, penetrou o reino do Kongo pela costa atlântica só depois do século XVI. Com efeito, entre as plantas cultivadas no planalto de Mbanza Congo, capital do reino, a Relação de Pigafetta -Lopez (1591) menciona apenas o luko, isto é, a Eleusine coracana, cuja “semente é originária das margens do Nilo, na região em que este rio desemboca no segundo lago”3; o masa ma Kongo, uma gramínea que é uma espécie de sorgo;

o milho, masangu ou ainda masa ma Mputu, “que é o menos apreciado e com o qual se alimentam os porcos”4; o arroz, loso, que “também não tem muito valor”5;

enfim, a bananeira, dikondo, e o dendezeiro, ba.

Fato menos conhecido, as plantas africanas também se difundiriam para fora do continente. É certo que algumas espécies africanas se expandiram para a Índia, por exemplo, e para outras regiões asiáticas, embora em época tardia. Com efeito, as duas espécies de milho -miúdo (milhete e finger millet) são comprovadas arqueologicamente na Índia por volta do ano 1000 antes da Era Cristã. O sorgo só seria conhecido nessa região posteriormente, porque o sânscrito não possui uma palavra para designá -lo.

3 PIGALETTA -LOPEZ. 1591, p. 40: “Venendo sementa dal fiume Nilo, in quella parte dove empie il secondo lago”.

4 PIGAFETTA -LOPEZ. ibid.: “Ed il maiz che è il più vile de tutti, che dassi à porci”. 5 PIGAFETTA -LOPEZ. ibid.: “il roso e in pocco prezzo”.

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Na ausência de qualquer documento escrito ou tradição oral, essas informações da arqueologia e da paleobotânica podem informar o historiador sobre a série de etapas que fizeram nossos ancestrais neolíticos passarem de uma economia de coleta a uma economia de produção. Além disso, esses fatos evidenciam por si mesmos um fluxo de relações entre as civilizações neolíticas, e não um difusionismo.

Restos de cães, porcos, carneiros e cabras sugerem que a domesticação de animais começou, nos centros neolíticos do Oriente Próximo, mais ou menos na mesma época que a cultura das plantas, entre 9000 e 8000 antes da Era Cristã. A partir disso, foi proposta uma cronologia teórica da domesticação dos diferentes grupos de animais. De início, os necrófagos, como o cão; em seguida, os animais nômades, como a rena; a cabra e o carneiro; e por fim os animais para os quais se impõe uma vida sedentária: o gado grosso e os porcos. Os animais que podem servir de meio de transporte, como o cavalo, o asno e a lhama, teriam sido domesticados em último lugar. Esta cronologia geral, porém, não se refere sempre à África.

O cavalo, que, como o boi e o asno, desempenhou um papel de “motor da história” através dos tempos, só aparece na África, precisamente no Egito, no fim da invasão dos hicsos, cerca de 1600 antes da Era Cristã; como atestam fontes iconográficas e da Sagrada Escritura. Por volta do século XIII antes da Era Cristã, ele foi transmitido, como animal de guerra, aos líbios e mais tarde, no início do primeiro milênio, aos núbios. Com exceção das áreas atingidas pela civilização romana, o resto da África só utilizaria amplamente o cavalo a partir das conquistas árabes na Idade Média. Dois cavalos selados e arreados, ladeados por dois carneiros, faziam parte dos emblemas do rei do Mali, de acordo com o relato do escritor Ibn Battuta (1304 -1377).

Quanto ao dromedário, o camelo de uma corcova, sua chegada à civilização africana também não é tardia. Esse animal aparece de forma suficientemente clara numa pintura rupestre, no Saara chadiano, no século III antes da Era Cristã. Os homens de Cambises o introduziram em 525 antes da Era Cristã no Egito, onde ele desempenharia importante papel nas comunicações entre o Nilo e o mar Vermelho. Sua penetração no Saara Ocidental ocorreu mais tarde. De fato, o camelo, que é essencialmente um animal do deserto, onde substitui com frequência o boi e o asno, foi difundido no Magreb ao que parece pelas tropas romanas de origem síria. Os berberes, refratários à paz romana e a sua forma de organizar a posse da terra, emanciparam -se graças ao camelo. Ele permitiu- -lhes estabelecerem -se além do limes, nas estepes e nos desertos. Os negros

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sedentários dos oásis foram imediatamente repelidos para o sul ou reduzidos à escravidão.

Tendo em vista tudo o que foi exposto acima, chega -se a uma conclusão que constitui um avanço metodológico decisivo: um vasto material documental, rico e variado, pode ser obtido a partir das fontes e técnicas baseadas nas ciências exatas e nas ciências naturais. O historiador se vê obrigado a desenvolver esforços de investigação por vezes audaciosos. Todos os caminhos que se abrem estão doravante entrelaçados. O conceito de “ciências auxiliares” perde cada vez mais terreno nesta nova metodologia, exceto se entendermos por “ciências auxiliares da história”, as técnicas fundamentais da pesquisa histórica, originárias de qualquer campo científico e que, de resto, não foram ainda totalmente descobertas. De agora em diante, as técnicas de investigação são parte da prática histórica e fazem com que a história se incline de forma concreta para o lado da ciência.

Dessa forma, a história se beneficia das conquistas das ciências da Terra e das ciências da vida. Todavia, seu aparato de pesquisa e de crítica se enriquece sobretudo com a contribuição das outras ciências humanas e sociais: egiptologia, linguística, tradição oral, ciências econômicas e políticas.

Até hoje a egiptologia permanece uma fonte insuficientemente utilizada pela história da África. É conveniente, portanto, insistir no assunto. A egiptologia compreende a arqueologia histórica e a decifração dos textos. Nos dois casos, o conhecimento da língua egípcia é um pré -requisito indispensável. Esse idioma, que permaneceu vivo durante cerca de 5000 anos (se levarmos em consideração o copta), apresenta -se materialmente sob três escritas distintas:

• Escrita hieroglífica, cujos signos se dividem em duas grandes classes: os

ideogramas ou signos -palavras (por exemplo, o desenho de um cesto de vime para designar a palavra “cesto”, cujos principais componentes fonéticos são

nb) e os fonogramas ou signos -sons (por exemplo, o desenho de um cesto, do

qual só se retém o valor fonético nb e que serve para escrever outras palavras diferentes de “cesto” mas que têm o mesmo valor fonético: nb, “senhor”; nb, “tudo”). Os fonogramas, por sua vez, classificam -se em: trilíteros, signos que combinam três consoantes; bilíteros, signos que combinam duas consoantes; unilíteros, signos que contêm uma só vogal ou consoante: trata -se, nesse caso, do alfabeto fonético egípcio.

• Escrita hierática, ou seja, a escrita cursiva dos hieróglifos, que apareceu em

torno da III dinastia ( -2778 a -2423); é sempre orientada da direita para a esquerda e traçada com um cálamo sobre folhas de papiro ou fragmentos de

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cerâmica e de calcário. Teve uma duração tão longa quanto a dos hieróglifos (o texto hieroglífico mais recente data de +394).

• Escrita demótica, uma simplificação da escrita hierática, surgiu em torno

da XXV dinastia ( -751 a -656), deixando de ser usada no século V. No plano estrito dos grafemas, reconhece -se uma origem comum entre a escrita demótica egípcia e a escrita meroítica núbia (que veicula uma língua ainda não decifrada).

Considerando apenas esse nível do sistema gráfico egípcio, já se colocam interessantes questões metodológicas. Isso porque, através de uma tal convenção gráfica, dotada de fisionomia própria, o historiador – que se torna um pouco decifrador – capta por assim dizer a consciência e a vontade dos homens de outrora, já que o ato material de escrever traduz sempre um valor profundamente humano. Com efeito, decifrar é dialogar, graças a um esforço constante de rigor e de objetividade. Além disso, a diversidade, as complicações e as simplificações sucessivas do sistema gráfico egípcio constituem em si mesmas parte da história: a história das decifrações, uma das fontes essenciais de toda historicidade. Assim, com o sistema gráfico egípcio a África toma um lugar importante nos estudos gerais sobre a escrita, vista como um sistema de signos e de intercomunicação humana6.

O problema da difusão da escrita egípcia na África negra amplia ainda mais o aparato metodológico do historiador, abrindo perspectivas totalmente novas à pesquisa histórica africana. Os fatos que se seguem referem -se a esse aspecto. Os gicandi constituem um sistema ideográfico utilizado outrora pelos Kikuyu do Quênia. Os pictogramas desse sistema oferecem notáveis analogias com os