3 Experimental Method and Results
3.5 Results
A ZCRP é um exemplo de cisalhamento transcorrente implantado durante o Ciclo Brasiliano no Maciço São José de Campestre, porção oriental da Faixa Seridó. Esta estrutura retrabalha rochas mais antigas, metassedimentos do Grupo Seridó e o substrato gnáissico-migmatítico de idade Paleoproterozóico ou mais antiga. A ZCRP apresenta uma geometria em meia flor negativa, observada através da continuidade cinemática entre um movimento extensional a norte e um movimento transcorrente dextral a sul. Na porção norte, a foliação apresenta mergulho variável porém suave, predominantemente para E-SE, os critérios cinemáticos indicam movimento extensional com topo para sul. Na porção sul, a foliação é de direção NE-SW, com forte mergulho para SE e lineação de estiramento sub-horizontal; os critérios cinemáticos indicam transcorrência dextral. A passagem de um movimento a outro é feita pela progressiva verticalização da foliação, deflexão da lineação de estiramento e um aumento de temperatura de norte para sul. As paragêneses metamórficas e mobilizados anatéticos indicam uma deformação em alta temperatura e baixa pressão, variando do fácies anfibolito ao fácies granulito, este último, restrito ao setor transcorrente (Souza et al. 1993). Souza et al. (1998) situam o pico do metamorfismo na ZCRP há aproximadamente 575 Ma.
Acompanhando a estruturação do domínio transcorrente, são encontrados diversos corpos granitóides, alojados sincronicamente à atuação do cisalhamento. Na área estudada ocorrem titanita-biotita granitos porfiríticos (granitos de Serra da Boa Vista e Jandaíra), biotita granitos de textura grossa (Granito Olivedos), granitos alcalinos (Serra do Algodão e Serra do Boqueirão), sheets de microgranitos e leucogranitos aluminosos (tipo S). Os granitos porfiríticos apresentam
afinidade geoquímica subalcalina e são claramente correlacionados aos granitos tipo I. O Granito de Olivedos e microgranitos são rochas muito evoluídas, o que dificulta sua classificação tipológica; todavia, os mesmos guardam maior semelhança aos tipo I. Os granitos alcalinos são correlacionados ao tipo A.
O termo granitos tipo A foi introduzido por Loiselle e Wones (1979) para descrever granitos gerados em zonas de riftes continentais. O sincronismo entre o alojamento/cristalização dos granitos estudados e a atuação da ZCRP é corroborado através de critérios estruturais e dados geocronológicos (Caps. 4 e 5). Portanto, a correlação direta, muitas vezes encontrada na literatura, entre granitos desta tipologia e ambientes anorogênicos carece de revisão. A designação de tipo A deve ser utilizada no sentido de fornecer informações genéricas sobre a fonte, e não para caracterizar ambientes. Todavia, alguns autores têm procurado diferenciar, com base nas características químicas, granitos alcalinos sin-orogênicos de granitos alcalinos anorogênicos (Sylvester 1989, Bonin 1990, Eby 1992, entre outros).
Os dados isotópicos Rb-Sr para as rochas graníticas indicam uma idade mínima de cristalização de 554 Ma para os granitos porfiríticos. Os corpos de Serra do Algodão e Olivedos fornecem idades ca. 530 Ma; estas idades, muito jovens, provavelmente representam o fechamento do sistema isotópico Rb-Sr após a deformação das rochas e durante o resfriamento regional.
O conjunto de dados geoquímicos e isotópicos sugere uma fonte na crosta inferior granulítica, para os granitos porfiríticos e alcalinos. No caso deste último, pode ter a participação em percentagens subordinadas de material mantélico mesclado ou presente na fonte do magma alcalino. Uma fonte crustal com contribuição metassedimentar subordinada pode ser proposta para as rochas de Olivedos.
paralelamente ao trend da ZCRP com sua forma indicando uma cinemática dextral. A disposição destes, acompanhando sistematicamente o plano de foliação (plano XY) ao longo da zona de cisalhamento, implica num mecanismo de intrusão forçada ou no aproveitamento de sinuosidades e outros sítios de transtração. Trindade et al. (1995b, unpubl.) explica o alojamento dos corpos alcalinos e subalcalino, pela ascenção de múltiplos pulsos de magmas, na forma de diques ou sheets subverticais (Clemens e Mawer 1992, Hutton e Reavy 1992) concomitante à movimentação da ZCRP. A presença de pontos tríplices nas extremidades dos granitos porfiríticos denotaria a interferência entre expansão, provocada pelo acúmulo de vários pulsos de magmas em um determinado nível crustal, e a deformação regional. O acúmulo dos pulsos ocorreria em respostas a condições de neutral
bouyancy, barreira reológica ou pela sucessiva cristalização de
sheets (Trindade et al. 1995a).
O quadro geológico exposto, envolvendo o retrabalhamento de rochas antigas, é compatível com um ambiente colisional ou de arco magmático, para a intrusão dos granitóides.
A inferência de ambiente tectônico utilizando rochas graníticas é feita com base em dados geoquímicos, através de diagramas discriminantes e comparação de espectros multielementares. Contudo, face à complexidade de fontes e processos envolvidos na geração de rochas graníticas, esta metodologia tem dado melhor resultado para magmas básicos. O banco de dados utilizado para definição destes diagramas também deve ser analisado com cuidado, e confrontado com as características geoquímicas das rochas investigadas. Atentando para estas restrições, as amostras dos granitóides brasilianos da ZCRP foram plotadas nos diagramas discriminantes de Pearce et
al. (1984) e Thiéblemont e Tégyev (1994).
No diagrama de Pearce et al. (1984) as rochas porfiríticas, alcalinas e microgranitos plotam no campo de arco magmático próximo ao campo sin-colisional, e o granito de Olivedos plota
no campo intra-placa (Fig. 9.1). Contudo, o campo dos granitos colisionais foi definido com base em exemplos de granitos peraluminosos (fonte tipo S); como conseqüência, rochas originadas a partir de fontes mais primitivas, meta-ígneas, no mesmo contexto tectônico, tendem a ser deslocadas em direção ao campo de arco magmático. Do mesmo modo, granitos de arco, com maior participação crustal, tendem a migrar em direção ao campo sin-colisional, visto que o campo de arco foi delimitado a partir de granitos derivados de fonte mantélica, mesclados a componentes crustais (Jardim de Sá 1994). De acordo com estas limitações, fica difícil definir se os granitos da ZCRP estão relacionado a um ambiente de arco magmático ou colisional.
Figura 9.1 – Diagrama discriminante de Pearce et al. (1984) para os granitóides brasilianos da ZCRP.
No diagrama de Thiéblemont e Tégyev (1994), um ambiente de colisão continental é evidenciado pelas rochas alcalinas e pelo granito de Olivedos, enquanto os granitóides porfiríticos e microgranitos plotam no limite dos campos colisão continental - arco magmático (Fig. 9.2).
Analisando o conjunto de diagramas, fica claro a necessidade de um conhecimento geológico prévio das rochas investigadas (estrutural e petrológico), no sentido de utilizar este tipo de abordagem para fornecer indicações que corroborem hipóteses previamente formuladas. Os resultados aqui obtidos
indicam que este tipo de ferramenta pode fornecer resultados ambíguos quando utilizados isoladamente, e evidencia a complexidade em estabelecer uma correspondência precisa entre fonte e ambiente tectônico.
0,01 0,1 1 10 10 100 1000 100 G. Colisão Continental peralum. alcal.+ transic. calc.+alc. G. Arco magmático G. Intra-placa G. Colis. Contin. (N b/Z r)N Zr (ppm) Granitos Porfiríticos Granito Olivedos Granitóides Alcalinos Microgranitos Figura 9.2 – Diagrama discriminante de Thiéblemont e Tégyev (1994) para os granitóides brasilianos da ZCRP.
O contexto geotectônico proposto por Jardim de Sá (1994) para a Faixa Seridó, durante o Ciclo Brasiliano, corresponde a um evento de retrabalhamento da crosta continental através de transcorrências, no estilo de extrusão lateral de blocos na placa cavalgante, associado a um processo colisional distal. Deste modo, os granitóides brasilianos da ZCRP estariam associados a um ambiente tardi-colisional. Bonin (1990) relaciona os granitos alcalinos peraluminosos, com elevados teores de Sr e Ba, como é o caso das rochas alcalinas da ZCRP, aos estágios finais de uma colisão continente-continente.
A diversidade geoquímica de corpos graníticos observado na ZCRP, intrudidos sincronicamente à deformação, é explicada pelo enraizamento profundo desta estrutura e o seu elevado gradiente geotérmico, que permitiu a coleta de magmas a partir de diferentes níveis litosféricos. A presença de rochas de composição diorítica (encraves), associadas aos corpos porfiríticos, traduz a participação de componentes mantélicos no sistema de extração e coleta de magmas.
Essas feições adicionadas a um importante eixo de anomalias gravimétricas negativas (Lins et al. 1993), caracterizam a ZCRP como um cisalhamento de escala litosférica, com afinamento crustal associado. A subida do manto, em especial a astenosfera aquecida atuando como fonte de calor, e o papel da ZCRP facilitando o fluxo de voláteis e de magmas, são fatores essenciais na petrogênese das rochas estudadas. Isto demonstra uma forte interação entre tectônica e magmatismo, incluindo a fusão, transporte e alojamento dos corpos granitóides.