Pautadas no argumento da formação do leitor da literatura infantil e preocupadas com a ineficiência no uso da língua portuguesa pela maioria dos professores, muitas instituições de educação infantil brasileiras têm demonstrado um crescente interesse e conseqüente procura pelo livro infantil, com o objetivo de incrementar suas práticas. Ao investigar o papel do professor, tendo a literatura como facilitadora no processo de aprendizagem, foi compreendido como esse interesse é determinado e materializado numa proposta pedagógica a partir do interesse no núcleo gestor da instituição da educação infantil.
A partir da análise produzida nessa investigação, foi constatado que o lugar ocupado atualmente pela leitura da literatura infantil dentro da creche e da pré-escola é o de um recurso textual utilizado para a adaptação das crianças às exigências de um mundo globalizado. Nessa medida, seu conteúdo formativo é desfeito para possibilitar às crianças a conquista de um estado pontual de informação. Através das exigências ditadas pela organização de um mundo sujeitado às exigências da tecnologia, não só a literatura, mas todos os conteúdos verdadeiramente formativos são danificados para atender à submissão imposta pela razão instrumental.
Durante o transcurso desta pesquisa, baseada em experiências, em visitas às instituições de educação infantil em diversos municípios cearenses e em pesquisa bibliográfica, percebeu-se que a contação de história é sempre o ponto de partida para o início das aulas na educação infantil. Para que isso aconteça, é necessário que o professor tenha o conhecimento prévio do texto para não ficar só lendo, tornando a exposição cansativa e desmotivadora.
Acreditamos assim, que a obra literária, ao ser selecionada por nós, educadores, para ser contada e representada pelas crianças, deve distanciar-se do mero entretenimento e ser descoberta como uma aventura que engaje o eu em uma experiência rica de Vida, Inteligência e Emoção. Afinal, ler/ouvir e representar as obras literárias completa um ato de aprendizagem, porque ao mesmo tempo em que diverte dá prazer, emociona, ensina novos modos de ver o mundo, de viver, pensar, agir e criar.
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Portanto, a obra literária, em particular a literatura infantil, destaca-se por promover a formação da consciência de mundo, a partir da propagação de idéias e de padrões de comportamento e valores. Por isto, é importante que o professor conheça bem a obra literária que irá trabalhar com as crianças para melhor contribuir com o aprendizado e o desenvolvimento delas.
Procurou-se mostrar como a partir da obra literária transforma-se não só o universo das crianças, mas também o fazer pedagógico do professor. Este deverá passar a ver a criança como um ser ativo, educável, que assimila o mundo por meio das relações sociais através do adulto e / ou crianças e não somente pelo desenvolvimento de suas capacidades inatas, pois a evolução social condiciona a evolução da criança. Neste contexto, a aprendizagem é um processo contínuo, construído através de trocas recíprocas entre o indivíduo e o meio, entre o biológico, o social e o cultural. Cada aspecto influenciando dialeticamente um no outro.
Dessa forma, esta pesquisa contribuiu para a formação de professores leitores, para que tomem consciência da necessidade de sempre buscar o que existe de melhor para as crianças. Outro aspecto a ser considerado nesse trabalho é a preservação das histórias, lendas, folclore, poesias dentre outras formas de expressão da linguagem literária, enfim, nossas raízes sempre presentes.
Por ser tão importante para a formação de qualquer criança, a creche e a pré-escola têm o compromisso de buscar a leitura de fruição de prazer. O professor deve envolver o grupo num clima de parceria e cumplicidade; quando alguém lê, outros ouvem, os personagens atuam; todos interagindo, dialogando, cria-se um espaço para que as emoções sejam tocadas. Alegria, tristeza, raiva e irritação, são investigadas pelo fio da narrativa, que se desenrola de um carretel mágico de histórias inventadas, recriadas, repetidas ao longo do tempo. A criança, por ter uma imensidão na sua criatividade, é capaz de chegar ao reconhecimento de tesouros ocultos que os professores muitas vezes desconhecem. Na creche e na pré-escola, ler é muitas vezes apenas pretexto para a realização de tarefas. Deve-se quebrar essa rotina e fazer com que a leitura seja motivo de enriquecimento, de diversão, de prazer.
O narrador-professor deve vivenciar o enredo, estabelecendo sintonia com as crianças em seu redor. As emoções se transmitem pela voz, principal instrumento do narrador, contador de histórias: sussurrar, levantar a voz, dar pausas e acelerar o ritmo de leitura são atitudes simples e capazes de aguçar o envolvimento com a narrativa. O Ministério da Educação também tem dado sua contribuição ao trabalho com literatura, promovendo a campanha “Tempo de Leitura”, com o objetivo de incentivar a leitura dentro e fora das salas de aula.
Com este projeto a creche e pré-escola contam com mais livros de história (literatura infantil), pois uma prática constante de leitura não significa a repetição infindável de atividades escolares. A creche e a pré-escola têm a função, principalmente nos primeiros anos, de formar leitores proficientes, e, mais do que isso, leitores que leiam com prazer e passem a encontrar na leitura uma rica fonte de conhecimento e enriquecimento interior.
Contudo, tal prática deve ser viabilizada além dos muros escolares, uma vez que ouvir a leitura de alguém propicia uma relação de afeto e desenvolvimento entre o texto/ouvinte/leitor, que facilita o desenvolvimento da atitude de “gostar de ler”. E assim, através deste caminho imaginário, infinito de descoberta e compreensão do mundo, as crianças se tornarão leitores proficientes.
Diante deste estudo, é preciso assumir um novo sentido / significado para a creche e a pré–escola, entendendo-as como um lugar privilegiado, no qual devem ser colocados alicerces do processo de auto-realização vital/cultural, isto é, estas instituições não podem mais ser vistas como depósito de crianças, mas como um espaço privilegiado de educação e formação de indivíduos, que se inicia na infância e se prolonga até a velhice.
Para tanto, a prática pedagógica do educador de creches e pré-escolas deverá nascer a partir de reflexões teóricas sobre sua prática e as possíveis transformações necessárias para torná-la uma práxis consciente que não se limite a uma mera exigência de vida em sociedade, mas que também se estenda ao processo de prover os indivíduos de conhecimento e experiências culturais que os tornem aptos a atuar no meio social e a transformá-lo em função de necessidades econômicas, sociais e políticas da coletividade.