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Os primeiros relatos da expedição de James Cook sobre a enorme quantidade de animais na região antártica, com destaque para as baleias e as focas, marcaram o início do interesse de aventureiros e comerciantes em explorar economicamente a Antártica.

O pólo sul foi alvo de uma série de expedições que tinham como objetivo desvendar o continente e obter lucro com a exploração dos recursos naturais, como as focas e baleias, entre o século XVIII e XIX. As primeiras reivindicações na Antártica foram provocadas pelo interesse econômico de explorar os recursos naturais da região, principalmente dos governos inglês e norueguês, que viam na exploração econômica uma forma de conquistar novos territórios (Schellmann e Kozel, 2005).

Segundo Montalban y Capdevila (2005) existe uma teoria que o descobrimento da Antártica foi realizado por pescadores que procuravam retirar a fauna marinha, como focas, lobos marinhos e baleias, do oceano atlântico ocidental sul e glacial antártico para vender o óleo ao mercado europeu e a pele ao mercado chinês. O óleo era usado para lubrificar máquinas, acender as lamparinas das casas e iluminar ruas de vilas e cidades e a pele era utilizada para a confecção de roupas. A migração dos animais para o sul fez com os pescadores do Rio de La Plata se locomovessem até as zonas antárticas. Os registros de dois barcos argentinos com 14 mil peles de focas no porto de Buenos Aires, em 1820, indicavam que era grande o número desses animais no continente. Na temporada do ano de 1822 foram extraídas 1.200.000 peles, o que quase levou à extinção desses animais. O retorno financeiro proporcionado pelo comércio de pele, carne e óleo de animais da região favoreceu a caça indiscriminada.

O lucro gerado por esta atividade era grande, e fábricas de processamento de carne nas ilhas sub-antárticas foram construídas, com destaque para a Companhia Argentina de Pesca, fundada em 1904, sob a administração de Carl Larsen, explorador e pescador norueguês que investiu na captura de baleias e instalou nas ilhas Geórgias do Sul uma base chamada Grytviken. Esta se destacava por ser um grande centro de caça e beneficiamento de focas e baleias, com uma infra-estrutura industrial e adaptada ao tipo de trabalho que era desenvolvido na região (Alexander, 2002). A empresa de pesca

possuía uma licença do Reino Unido para explorar a caça e pagava uma taxa para atuar na região. Nesta época a indústria baleeira estava atuando de forma intensa e com isso novas fábricas baleeiras foram instaladas, não só nas ilhas Geórgias do Sul, mas também na Ilha Decepção que fazia parte do grupo das ilhas de Shetland do Sul.

Até 1914, dois terços da produção mundial de óleo de baleia eram retirados das águas do sul para a fabricação de sabão, margarina e lubrificantes. Segundo Beck (1988), a pesca da baleia se tornou estratégica, quando se descobriu que a partir de um derivado do óleo se produzia a nitroglicerina, utilizada nos explosivos para a guerra.

O Reino Unido desenvolveu um projeto oceanográfico denominado de Discovery Committee com o objetivo de investigar a vida marinha e coletar o máximo de informação possível para subsidiar uma legislação apropriada para o controle da caça das baleias e focas (Howkins, 2008).

A indústria baleeira era operada por diferentes países como a Argentina, Chile, Alemanha, Noruega, Reino Unido e Japão. A crise econômica de 1929 e a excessiva caça, com um total de 43.129 baleias capturadas no período, causaram uma saturação dos produtos no mercado e conseqüentemente a queda no preço da tonelada de azeite. Os reflexos foram sentidos no ano seguinte com diminuição na taxa de captura, atingindo os 12.988 exemplares (Genest, 2001). Além disso, a invenção do navio fábrica também afetou as fábricas que localizavam no continente, pois os pescadores podiam caçar e economizar os deslocamentos até as fábricas.

No final da década de 1930 ocorreu a primeira Conferência Internacional sobre Baleias com a participação de representantes da Argentina, África do Sul, Austrália, Alemanha, Reino Unido, Irlanda, Nova Zelândia, Estados Unidos e Noruega, com o objetivo de fixar o inicio e o término da temporada de caça da baleia, limite máximo de captura por tamanho de acordo com cada espécie e proteção ao filhotes. Nesta ocasião a Argentina reivindicou novamente seus direitos sobre as ilhas Malvinas e as adjacentes. Segundo Santos (2004), com o quase extermínio das baleias e focas na região sul, a pesca, de maneira ampla, envolvendo todo o tipo de animal marinho, substituiu a caça à

baleia e às focas. Esses recursos biológicos são abundantes nas águas da região, em função da rica oxigenação da água.

As pesquisas geológicas subsidiaram a elaboração de teorias, como a da Deriva Continental, que indicava que continente antártico fazia parte de um super continente do hemisfério sul, denominado de Gondwana. Este continente era formado por parte atuais da América do Sul, da África, Madagascar, Índia peninsular, Antártica, Austrália e Nova Zelândia. Uma ampla distribuição de minerais e pedras preciosas nestes locais indicava que depósitos similares poderiam existir na Antártica também. Outros pesquisadores questionaram a hipótese de Gondwana e especularam que o processo físico de produção de óleo em alguns locais, pode ter ocorrido após a separação do super continente, não afetando a constituição atual da Antártica (Klotz, 1990).

Apesar da descoberta dos minerais, gás e petróleo, a possibilidade de exploração era remota. As dificuldades com a falta de tecnologia adequada e de recursos logísticos e financeiros para a extração, tais como profundidade da plataforma continental, barreiras de gelo, intenso e tormentas no mar inviabilizaram a exploração. A Argentina pretendia superar suas limitações de recursos com a elaboração de projetos em conjunto com outros países (Gendre y Raballo, 2005, p. 196). Este assunto voltou a ser discutido na década de 1980, durante a crise energética que afetou os países.

A Argentina possuía interesse em explorar os minerais e as prioridades seriam: a) Realizar a exploração na terra e em zonas marinhas mais acessíveis;

b) Desenvolver um programa para exploração da costa ao longo da plataforma continental argentina;

c) Iniciar atividades de prospecção e de exploração no Mar Antártico (Gendre y Raballo, 2005, p. 199)

As atividades brasileiras no continente antártico até a década de 1940 foram insipientes, pois o país não enviou nenhuma expedição à região e não participou de nenhum fórum, congresso ou reunião internacional que discutiu temas antárticos relativos à ciência e exploração de recursos. O interesse do Brasil na região só foi iniciado na década de 1950 com a publicação de artigos que justificavam a presença do

país na Antártica, por meio da exploração econômica (Castro, 1957, 1976, Santos, 2004, p. 56).