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Sobral fica em área da caatinga com vegetação do semiárido (sertão cearense no vale do Acaraú), no noroeste cearense, a 240 quilômetros da capital Fortaleza. Segundo dados do IBGE, sua população estimada em 2013 é de 197.663 habitantes. Possui 97% das crianças alfabetizadas aos 7 anos com IDEB registrado em 2011 de 7,346. Suas origens se relacionam à Fazenda Caiçara, instalada por Antônio Rodrigues Magalhães, emigrante do Rio Grande do Norte por volta de 1728, de onde surgiram também as terras, em 1756, para edificação da igreja matriz de N. S.da Conceição do Caiçara. O município Sobral se constitui hoje de 13 distritos: Aprazível, Aracatiaçu, Bombim, Caioca, Caracará, Jaibaras, Jordão, Patos, Patriarca, Rafael Arruda, São José do Torto, Sobral (sede municipal) e Taperuaba.

A charqueada trouxe o desenvolvimento econômico para Sobral, considerando que esta se estabeleceu e se desenvolveu no princípio através de famílias que se dedicavam à criação de gado, deixando a cidade, na segunda metade do século XVIII, superior economicamente à cidade de Fortaleza. Isso ocorreu porque

após várias experiências, os habitantes do Vale do Acaraú concluíram que seria mais inteligente transportar a carne seca para as cidades consumidoras ao invés do gado vivo. Tinha inicio uma prática que geraria muitas divisas para a região. As charqueadas difundem-se no Vale do Acaraú constituindo-se a principal riqueza da região. Posteriormente um cearense dissemina esta tecnologia no Rio Grande do Sul que passa também a desenvolver as charqueadas. Dentre as fazendas florescentes do Acaraú destacava-se a da Caiçara pertencente ao Capitão Antônio Rodrigues Magalhães. Este próspero fazendeiro recebeu em sua casa, em 1742, o padre Visitador Lino Gomes Correia que o convenceu a doar um terreno para a construção de uma matriz. Seria a sede do Curado do Acaraú. O catolicismo muito forte trazido pelos povoadores da região facilitou as negociações, até porque seria muito importante para o local sediar o Curato de toda esta região. 47

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Para mais informações, ver ANEXO B.

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In: Brasil arqueológico: Laboratório de Arqueologia da UFPE. Disponível em http://www.brasilarqueologico.com.br/arq_igrejansasraconceicaocaicara.php. Acesso em 3 de setembro de 2013.

Frota (1953, apud CARVALHO, 2005, p. 78), faz referência à existência da brincadeira do Boi em Sobral desde o tempo colonial e o interliga à Fazenda Caiçara e ao ciclo do gado enquanto motor da economia local. O fato de a Fazenda Caiçara, possuir localização inserida nas rotas das boiadas na época do charque, favorece a compreensão da forma como a brincadeira do Boi (como se referem os sobralenses), proliferou, e ainda prolifera, mantendo-se espalhada entre crianças, jovens e adultos nos mais diversos bairros e distritos de Sobral.

Mesmo sem conseguir saber exatamente por meio de dados históricos concretos o elemento fundante (criador e criatura) do Boi de Sobral, é certo que ele se difundiu de forma conjunta e paralela ao desenvolvimento do município e que sempre teve uma aceitação enorme nas comunidades, mesmo no período em que foi perseguido e denegrido pela elite e pela imprensa.

Apesar de ter conhecimento da existência de várias dessas brincadeiras circulando na vida do povo sobralense ao longo de sua história, foi o título de

Tesouro Vivo da Cultura concedida ao Mestre Panteca, em 2004, que trouxe

dignidade, alteridade e reconhecimento a essa DD na cidade.

Fig. 15. Mestre Panteca, Sobral/CE Fig. 15.1. Boi Ideal (1970), Sobral/CE – acervo MIS Francisco Pedrosa de Sousa (Francisco de Pedro Alves de Sousa?)48 nasceu no pé da Serra da Meruoca, em 1920. Ficou conhecido com o apelido de Panteca devido ao grande apreço que tinha desde criança ao jogo de peteca. O acréscimo da palavra Mestre veio com o título recebido, pois esses passaram a ser chamados

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Registro do Mestre na SECULT/CE foi feito com o nome de Francisco Pedrosa de Sousa como consta também na obra de Gilmar de Carvalho (2005, p. 78). Entretanto, em entrevista para monografia de Tafarel Teixeira Farias do Curso de História – INTA – Sobral em 2012, esposa, viúva do Mestre declarou seu nome como sendo Francisco de Pedro Alves de Sousa.

sempre com a palavra à frente do nome com o qual já eram conhecidos, daí Mestre Panteca, desde junho de 2004.

Foi no reisado Boi Coração, de Inácio Melo, que Mestre Panteca começou como brincante aos oito anos. É importante esclarecer que, no Ceará, Reisado e Boi, Boi e Reisado se misturam e se distinguem. Quando se pergunta: “Mas, afinal, é boi ou é reisado?” A resposta vem rápida: “Ora, é boi, mas é reisado, fazemos um

boi pros reis... nos dias de reis, brincamos assim” (Sr. João Mendes, filho do Mestre,

informação verbal)49. Não podemos de forma alguma, com isso, dizer que assim boi

e reisado são a mesma coisa, pois no universo dessas brincadeiras nada e ninguém

são a mesma coisa. Cada um se refere somente àquilo ali; mesmo que possua semelhanças com outros, não pode ser universalizado. Herdamos de nossa formação acadêmica a prática de querer colocar tudo em um único lugar, num recorte que julgamos certo, buscando uma compreensão definitiva. No entanto, no estudo da cultura folclórica, fica dífícil compreender essas tramas, pois, na maioria das vezes, não se sabe exatamente onde algo começa ou termina, ou seja, até onde uma manisfestação é reisado e até onde é boi. Convém, no entanto, chamar a atenção de novo de que as DD Boi ou Bumba-meu-boi e DD Reisado, ora são um corpo único naquilo que é singular, ora são distintas nas formas em que não são comuns na trama que apresentam, nos personagens, figurinos ou partes musicais.50

O Boi Ideal de Mestre Panteca tem como data de surgimento os anos de 194051, fundado por Raimundo Cassimiro (Raimundo Ferreira de Sousa), pai de D. Terezinha, esposa de Mestre Panteca. Raimundo Cassimiro comandou o Boi Ideal até 1955 (CARVALHO, 2005, p. 78). Consta nos estudos de Carvalho e também nos relatos da família do Mestre Panteca que Casimiro montou o boi após retornar do Maranhão, tendo sido influenciado pelas toadas e pela forma como essa brincadeira era forte na cultura maranhense. Convém notar, no entanto, que, esteticamente, não

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, João Batista Mendes de. Entrevista I. [18 setembro 2012]. Entrevistador: Lourdes Macena, Bairro do Junco, casa do Luciano, neto Mestre Panteca, Sobral, 2012. (Doc. 1)

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Detalhes da classificação dos reisados nos estudos de Oswald Barroso (1996, 2007).

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Os familiares dizem 1940 em nossos registros, mas nos informes para Gilmar de Carvalho (2005) apontam 1942 como a data de início do Boi Ideal.

existem proximidades entre os Bois do ceará a forma como a brincadeira é feita no Maranhão. Enredos, personagens, musicalidades, figurinos, nada se assemelha a qualquer dos diversos sotaques ou estilos (Boi de Zabumba, Boi de Matraca, Boi de Orquestra etc) do Bumba Boi do Maranhão.

Após casar com D. Terezinha, Mestre Panteca assumiu a lida diária e a construção da família. O encantamento e a afetividade em torno da brincadeira do boi circularam pela cidade e os filhos do Mestre começaram a fazer boizinhos de balaio de cipó e caixas de papelão. Foi quando Mestre Panteca reuniu os saberes aprendidos enquanto brincante do Boi Coração e as relações familiares com o fundador do Ideal e resolveu reerguer essa brincadeira em 1986/1987. Mesmo que a vida tenha exigido do Mestre algumas pausas na brincadeira, ela se consolidou na família e na cultura sobralense.

Após a morte do Mestre Panteca, os dois netos, Luciano Mendes e João Batista Mendes, retomaram a brincadeira e batizaram com o nome de Boi Paz no

Mundo.

Fig. 16. Mestre Panteca, Cazuza e Donana (2005), Sobral/CE Fig.17. Luciano e João – Boi, Sobral/CE Primeiro, a brincadeira se organizou no bairro da Expectativa e depois no Junco, juntando brincantes e familiares dos dois bairros. Luciano é pintor e trabalha prestando serviços em empresas de construção civil, é casado com Ana Maria, com quem tem uma filha. O Sr. João é cozinheiro, trabalhou no ramo de panificação e alimentação e quando foi entrevistado estava desempregado, prestando serviços

avulsos na área. Constituem-se de uma família simples, residindo na periferia de Sobral.

Para eles o Boi Paz no Mundo é uma continuidade do Boi Ideal, cujo saber faz parte da vida cultural do povo de Sobral. Após a morte do avô, o desejo de garantir a memória e a preservação da felicidade do brincar trouxe a decisão de dar continuidade ao boi. Por respeito a um entendimento de que o Boi Ideal pertence a todos os filhos, decidiram batizar com outro nome o boi que seria deles dois, assim poderiam dar continuidade ao criar, assegurando, no entanto, a memória festiva e os saberes do Mestre Panteca.

Sobre o que significa para o grupo o Boi Paz no Mundo, Luciano declara:

É uma continuação da cultura, sabe? Tradição é tradição de família. Rapaz é uma lenda viva, vem trazendo, tem que manter essa lenda viva. Depois, após, quando a gente tiver uma certa idade que o boi já tiver envernizado, os nossos meninos aqui vão continuar...a nossa condição é essa, manter o boi sempre e é uma alegria pra todo mundo (Informação verbal)52.

Para preencher o Edital das Culturas Populares 2013 do Governo Federal, em resposta ao porquê faziam o Boi Paz no Mundo, Luciano e o Sr. João declararam:

Somos brincante desde menino, pois nosso vô Mestre Panteca, sempre envolveu a família toda na brincadeira do Boi Ideal. Depois que ele morreu decidimo continuar brincando e repassando o que aprendemo pros nossos filhos e sobrinhos. Adoramo brincar de boi, nossa diversão e alegria mantém a família e os amigo junto. Tem umas briguinha, umas besteira, mas tudo coisa pequena, é assim, até irmão briga, né? Por meio do Boi Paz no Mundo também nos realizamo com artista, naquilo que vamo criando e recriano a cada ano para deixar o Boi mais bonito. Achamo que assim meu vô fica feliz também (Informação verbal)53.

Podemos verificar que o Boi Paz no Mundo existe com muita dificuldade, garra e determinação, dando continuidade à memória festiva do avô. A cada Natal e Dia de Reis, por meio da família e de amigos do bairro, eles continuam com seus cantos, danças e representações vivas: não conseguimos delimitar até onde é

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MENDES, Luciano Sousa. Luciano Sousa Mendes: Depoimento [24/02/2012]. Entrevistadores: Bruno, Leonardo, Felipe e Edilberto, da Casa do Capitão Mor, com curadoria da autora. Sobral: Casa do Capitão Mor, arquivo selo UNICEF, 2012. Arquivo MPG, vídeo – 903 MB – 22min. 35 seg. (Doc. 2)

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Em resposta para preenchimento do formulário do Edital das Culturas Populares 2013, preenchido pela autora desta tese em 18 de junho de 2013, em colaboração com o grupo, na casa do Sr. Luciano, dono do Boi Paz no Mundo, no bairro do Junco, Sobral/CE. (Doc. 4)

representação e até onde se É. Sua espetacularidade se mostra no instante em que o SER como se FOSSE se torna ímpar e se revela principalmente para cada um que FAZ, mesmo que percebamos a necessidade deles de também mostrar-se ao outro, àquele que somente vê.