Optimisation and Position Uncertainty for Laboratory
7.8 Results and Discussion
Acompanhar o processo de fabricação dos heróis, identificar os sujeitos históricos nele envolvidos, bem como investigar a polissemia característica dessas figuras mitológicas através de tempo são questões que têm mobilizado historiadores interessados no que, se convencionou chamar, de nova história política. Uma das principais referências nesse campo, Raoul Girardet (1987), afirma que apesar de sua origem remota, os mitos não se mantém presos ao passado, muito ao contrário, conservam-se atuantes no presente. Sendo assim, as narrativas mitológicas, ao ordenarem o mundo em que vivemos, revelam sua função explicativa e, fazendo isso, criam chaves para a compreensão do presente. Apesar da dimensão explicativa, não se pode esquecer, como Girardet nos alerta, a força mobilizadora do mito. Ela é capaz de promover efeitos que se fazem presentes de várias maneiras na sociedade. Se é possível, como afirmou Valensi (1994), que a ação de uma guerra produza mitos, é também verdade que a ritualização desses mitos nos conduz de volta à ação. Não somente por conta da dramatização que encerra, mas, também, por resultar, muitas vezes, numa mobilização que “alimenta” o mito.
Esse é, por exemplo, o caso das inúmeras propagandas de empresas e lojas, a maioria situada na cidade do Rio de Janeiro, que saúdam a FEB por ocasião do desfile. Publicadas em muitos jornais que circularam no dia do desfile, mas, sobretudo, concentradas no periódico A
Noite, as propagandas reforçavam claramente o culto aos “heróis da FEB”. A variedade de
anúncios é grande, envolvendo desde pequenos estabelecimentos até bancos como a Caixa Econômica Federal do estado do Rio de Janeiro. Variam também de tamanho e diagramação, alguns chegando a ocupar toda a página do jornal com desenhos e mensagens aos combatentes, enquanto outros se limitam a pequenos boxes com alguma felicitação e o nome do anunciante. É o caso das propagandas da Casa Herman, da Casa Adrianino e da Rádio Internacional do Brasil apresentam saudações breves como as que se seguem:
Aos bravos da FEB as boas vindas da Casa Herman que dispõe do maior depósito de meias de seda natural.96
Chegada da Força … manifeste sua alegria queimado fogos Adrianino à
venda em toda a parte do RJ.97
Glória aos bravos expedicionários! Anúncio da Radio Internacional do Brasil.98
Existem anúncios que trazem mensagens mais longas e elaboradas que poderiam, ou não, estar acompanhadas de desenhos de soldados marchando e empunhando a bandeira do Brasil. Como, por exemplo, as saudações das Casas Pernambucanas e da Caixa Econômica Federal do Rio de Janeiro.
Quando, cobertos de glórias tão altas e puras, alcançadas nos campos de batalha da Itália, o 1º escalão da FEB retorna à Pátria que o recebe em festas, as grandes empresas Lundgren, proprietárias das conhecidas Casas Pernambucanas apresentam suas homenagens e saudações aos bravos oficiais e soldados que o integram.99
Homenagem da Caixa Econômica Federal do Rio de Janeiro
Aos bravos soldados brasileiros, (...) recebam, pois, os queridos expedicionários brasileiros, neste dia tão cheio de glórias e de contentamento para todos nós, regozijados com sua volta as seio da Pátria estremecida e ao convívio de seus lares, as mais justas, calorosas e patrióticas homenagens de admiração, reconhecimento e imorredoura saudade.100
Era também possível encontrar, entre tantos anúncios,101 aqueles que comemoravam a
FEB prestigiando seus funcionários que participaram da campanha na Itália. Como este, por exemplo:
A Compensadora, saúda a FEB por intermédio de seu auxiliar 2º sargento Accacio Ferreira dos Anjos.102
Colocando em prática seu poder de mobilização, o culto aos “heróis da FEB” mostra sua força ao produzir efeitos que resultaram na transformação do mito em produto comercial ou, na terminologia de Huyssen (2000), na espetacularização e mercantilização da memória. Em especial, nas últimas décadas, a emergência da memória tem revelado todo seu potencial
97
A Noite, Rio de Janeiro, 18 de julho de 1945. p. 4. 98
Id.
99 A Noite, Rio de Janeiro, 18 de julho de 1945. p. 7. 100
A Noite, Rio de Janeiro, 18 de julho de 1945. p. 9. 101
Dentre eles, destaco: Associação dos empregados no comércio do RJ, Alfaiataria Oriente, A Confiança, Fábrica de Móveis Marege, Galeria das lonas Ltda, Companhia Cervejaria Portubrás, Sindicato dos trabalhadores das indústrias de produtos químicos para fins industriais, Serviços Hollerith S.A., Tapeçaria Sol, Serviços aéreos Cruzeiro do Sul, Magazine Monte Castelo e Companhia Fabril Brasileira de Lonas.
como um meio eficaz de vender produtos e ideias. Nesse contexto, pensar a memória é relacioná-la, inevitavelmente, a esse moderno fenômeno de uso do passado. No entanto, como nos alerta Huyssen (2000), é preciso resistir à sedução da memória para não se correr o risco de sua banalização. E, nesse sentido, cuidar para que a exacerbação da memória e, sua consequente banalização, não acabe produzindo perigosos julgamentos do que é importante ser preservado e do que deve ser excluído. Diante disso, o exemplo dos pracinhas, guardada sua especificidade, é muito interessante, sobretudo pelo momento em que ocorre, ou seja, ainda em meados dos anos 1940. A grande repercussão da participação do Brasil na guerra leva algumas empresas a lançarem produtos comemorando a FEB. Foi assim que, no dia do desfile, a Empresa Nacional de Correios pôs em circulação, em vários pontos do país, a Série da Vitória composta por cinco selos comemorativos que ressaltam a atuação da FEB na guerra. Nos selos podemos identificar além do V da vitória, os emblemas da FEB e do 5º Exército norte-americano, ao qual a FEB foi incorporada e, ainda, as bandeiras do Brasil e dos EUA (Figura 7). Outra série comemorativa da FEB foi a das estampas do sabonete Eucalol. As estampas Eucalol foram criadas, em 1930, como estratégia de marketing pela perfumaria Myrta S/A. A iniciativa foi muito bem sucedida, e rapidamente as vendas da empresa foram alavancadas. Colecionar as estampas, feitas em cartão, que traziam na frente uma imagem e no verso um texto explicativo103, virou mania entre adultos e crianças. Em geral, os temas
retratados nas séries giravam em torno de questões nacionais – Histórias do Brasil, Lendas do Brasil, Viajando pelo Brasil, Aves do Brasil, Episódios Nacionais – embora, também fosse possível encontrar, temas mais universais, como foi o caso das séries Dom Quixote e Compositores Célebres. Entre os anos de 1944 e 1945, a série História do Brasil foi dedicada a contar os principais episódios da jornada da FEB. Foram ao todo 42 estampas, narrando desde a declaração de guerra do governo brasileiro ao Eixo, passando pela criação da FEB, assinalando as principais batalhas na campanha da Itália, até chegar ao regresso dos combatentes, e eleição do presidente Eurico Gaspar Dutra. Em função de seu caráter didático e, também, por ter feito sucesso entre as crianças, as estampas da Eucalol eram muitas vezes utilizadas como material de apoio em sala de aula. Os textos que acompanhavam as estampas em homenagem à FEB eram pequenos e explicavam em tom patriótico, como convinha, seus feitos (Figura 8).
A coragem, e o sangue frio dos brasileiros.
Enfrentando os mais poderosos e modernos engenhos de guerra, por ocasião da tomada de Monte Castelo, os nossos pracinhas mostraram ao Mundo a coragem, o sangue frio e o patriotismo tão peculiares aos brasileiros e que nos foram legados por Caxias, Barroso e "outros heróis que honram a nossa historia".
Os pracinhas cheios de glorias voltam ao Brasil.
A maior manifestação publica já registrada no país, teve lugar quando os nossos pracinhas voltaram da Europa. Massa compacta de povo acudiu as ruas centrais da cidade para dar as boas vindas aos heróis que regressavam vitoriosos, inscrevendo outro episódio glorioso, na já gloriosa "Historia do Brasil". 104
Apesar das mazelas vivenciadas pelos veteranos no pós-guerra, assunto silenciado nas estampas e propagandas e que ainda abordaremos, o culto aos “heróis da FEB” sobreviveu, ainda que em amplitude infinitamente menor do que a alcançada na segunda metade dos anos 1940, anos mais tarde. Em 1957, foi lançada pela Editora Garimar uma coleção de histórias em quadrinhos contando a epopeia da FEB. A narrativa e as imagens reforçam a transformação do combatente em herói, o que também pode ser constatado no sugestivo título da publicação: Coleção de Aventuras (Figuras 9 e 10).
Foram ao todo dezenove edições, publicadas entre 1957 e 1958, que tinham como tema as principais vitórias na Itália, com episódios como as batalhas em Montese e Monte Castelo. O curto período de publicação105 da revista não deve ser avaliado, precipitadamente,
como um sinal de impopularidade e insucesso. Há de se levar em conta também, que o mercado consumidor e editorial deste gênero de publicação ainda estava se consolidando no Brasil e, como essa, muitas outras histórias em quadrinhos nacionais tiveram poucas edições. Os quadrinhos que tiveram vida mais longa no Brasil, alguns ainda hoje editados, foram os norte-americanas, como Super-Homem, Batman, Tarzan e Zorro, com um público já mais expressivo. A Coleção de Aventuras da FEB, que também narravam episódios envolvendo a FAB, seguia a mesma linha editorial de outras histórias em quadrinhos que faziam sucesso na década de 1950 e 1960. Nessa época, os quadrinhos de guerra – Os Falcões, Combate,
Homens em Guerra e Ataque – eram tão ou mais populares que os de super-heróis. Um dos
fatores que estimulou esse sucesso foi o nascimento de um mercado consumidor formado por
104
Extraído, respectivamente, das estampas da série 252, nº5 e 255, nº3.
105 O número de edições e o tempo de existência da Coleção de Aventuras da FEB é o mesmo, por exemplo, do Falcão Negro – também com dezenove publicações entre os anos de 1958 e 1959 – título de maior sucesso do
um público, em sua maioria, jovem e masculino, que começa a ser explorado com o gênero da aventura, nas histórias de Flash Gordon, Spirit, Príncipe Valente, Fantasma entre outros106.
Várias histórias em quadrinhos da FEB eram de autoria do veterano Paulo Vidal e com arte de Flávio Colin, quadrinista de O Anjo e Vigilante Rodoviário107, entre outros artistas reconhecidos nesse universo como, por exemplo, o ilustrador norte-americano Frank Frazetta, responsável pelo traço dos icônicos Conan e Tarzan. Apesar do evidente apelo visual dessas histórias, um dos principais atrativos do gênero quadrinhos, seus heróis não são produto, apenas, do que se vê ou lê nas páginas de tais revistas. Além da imagem e do texto, outro elemento define, singularmente, a emergência dos heróis: o contexto da sociedade em que são produzidos. Como alertou José Murilo de Carvalho (1991:14), “por ser parte real, parte
construído, por ser fruto de um processo de elaboração coletiva, o herói nos diz menos sobre si mesmo do que sobre a sociedade que o produz.” A luz dessa perspectiva, é possível explicar
como a mesma página do jornal estampa, ao lado de uma matéria intitulada “Heróis na
guerra e criminosos na paz”108 – na nona reportagem da série “O outro lado da glória” que
acompanha a lutas dos veteranos pela reintegração social –, o anúncio publicitário da revista em quadrinhos com as aventuras da FEB.
Força Expedicionária Brasileira!
Leia os heroicos feitos da FEB em “Coleção de Aventuras”109
A ambiguidade – herói/criminoso – é, em grande parte, fruto do contexto político social que se apresenta no pós-guerra para os veteranos. Assim, ao deslocarmos o olhar do herói para a sociedade encontramos a chave para o entendimento dessa ambiguidade. É preciso levar em conta que a ausência de políticas públicas eficazes na reintegração dos veteranos possa ter sido responsável por desajustes sociais que, em casos mais extremos, tiveram como resultado a transformação do herói em protagonista de episódios infames que figuravam nas páginas policiais. É evidente que não se esperava que os 25 mil homens que fizeram parte do efetivo da FEB tivessem conduta semelhante em suas vidas no pós-guerra e que não se pode tomar casos isolados como um padrão de comportamento da maioria. Mas, por outro lado, é certo que as denúncias de crimes envolvendo veteranos, embora se limitassem a um grupo reduzido, atingia, em cheio, a reputação do herói, que, por definição é
106 Sobre esse assunto ver mais em SILVA (2004).
107 Adaptados de séries policiais que fizeram grande sucesso no rádio e na televisão. 108 O Globo, Rio de Janeiro, 19 de setembro de 1957. p. 15.
alguém sem máculas.
Apesar disso, há que se considerar a publicação das aventuras da FEB como um indicativo de que o culto a esses heróis sobrevivia e estava sendo reforçado, de alguma maneira, na sociedade brasileira. O investimento nessa publicação, contando inclusive com a participação de nomes reconhecidamente competentes nessa área, revela que havia, naquele contexto, uma demanda de público para os quadrinhos da FEB. Mais que isso, que eles podem ser entendidos como um protesto e/ou uma resistência contra o esquecimento desses heróis. Essa intenção fica evidente em algumas edições, como na de nº 8, onde se lê na capa a inscrição “Heróis Esquecidos”, e, também, em várias outras, que trazem, em meio aos quadrinhos, um texto não ficcional, portanto uma narrativa histórica “real”, que se integra ao conjunto para explicar, de maneira didática as batalhas narradas naquele episódio. O expediente pode indicar uma tentativa de conferir aos quadrinhos ares de registro histórico, legitimando seu propósito de lembrar a memória da FEB. Nesse sentido, guardam, em grande medida, um caráter de denúncia, motivo pelo qual sua propaganda figurava, não paradoxalmente, ao lado da série de reportagens “o outro lado da glória”.
Enfim, seja produzindo resultados concretos, como coleções de selos, figurinhas ou histórias em quadrinhos, seja em um nível mais abstrato das ideias, a história nos dá provas de que não se deve duvidar da capacidade de mobilização do mito do herói. Investigar os sujeitos históricos responsáveis por essa mobilização, e a sociedade em que atuam, possibilita identificar as metamorfoses sofridas pelo culto ao herói através do tempo. Isso não significa dizer que essas variações impliquem, necessariamente, numa radical transformação do herói, mas, certamente, dos usos políticos que a sociedade que o consagrou, faz dele. Tal como aconteceu com Ulisses, na mais conhecida história da literatura mundial de retorno ao lar – a
Odisseia – os “heróis da FEB” ao completarem sua jornada de volta à pátria não encontram
mais a realidade que deixaram. É necessário, portanto, aprender a lidar com essa nova sociedade, readaptar-se e fazê-lo continuamente, pois ela não cessará de mudar. O regresso ao lar, última etapa da jornada do herói, e a que representa sua consagração, precisa levar em conta que o lar não é o mesmo e que o retorno pode ser o início de um novo percurso, de uma nova provação, para o herói, mais uma vez, mostrar sua excepcionalidade (SCHUTZ, 1979).
(Figura 1) Arco do Triunfo na avenida Rio Branco (RJ) sob a guarda de honra formada pelas alunas do
Instituto de Educação, empunhando bandeiras nacionais. O pórtico trazia a seguinte inscrição: Sede
bem vindos irmãos queridos e gloriosos. Fonte: Banco de Imagens do Exército. Disponível em:
http://www.exercito.gov.br/01inst/feb/imagens/banco/index1.htm. Acesso em: setembro de 2010.
(Figura 2) Recordação de um combatente para sua madrinha. Extraído do livro de Giovanni Sulla
e Ezio Trota. Gli eroi venuti dal Brasile: storia fotografica del Corpo di Spedizione brasiliano in
(Figura 3) Ação da LBA no desembarque da FEB. Fonte: Banco de Imagens do Exército. Disponível em: http://www.exercito.gov.br/01inst/feb/imagens/banco/index1.htm. Acesso em: setembro de 2010.
(Figura 4) Em clima de festa a população se aglomera nas ruas para comemorar o retorno da FEB.
Fonte: Banco de Imagens do Exército. Disponível em
http://www.exercito.gov.br/01inst/feb/imagens/banco/index1.htm. Acesso em setembro de 2010.
(Figura 5) A multidão saudando a passagem dos expedicionários da FEB nas ruas e nas janelas dos prédios do
(Figura 6) Tribuna oficial reservada às autoridades presentes no Desfile da Vitória, no Rio de Janeiro. Da esquerda
para a direita: o arcebispo metropolitano Dom Jaime de Barros Câmara, o presidente Getúlio Vargas, o general Mark Clark , o presidente do STF, José Linhares, e o general Mascarenhas de Moraes. Fonte: Banco de Imagens do Exército. Disponível em :http://www.exercito.gov.br/01inst/feb/imagens/banco/index1.htm. Acesso em: setembro de 2010.
(Figura 7) Série de selos comemorativos da vitória da FEB. Extraído do livro de
Giovanni Sulla e Ezio Trota. Gli eroi venuti dal Brasile: storia fotografica del Corpo di
Spedizione brasiliano in Italia (1944-1945). Roma, Edizione il Fiorino, 2005.
(Figura 8) Estampas Eucalol em série que homenageia a FEB. Disponível em:
http://www.brasilcult.pro.br/historia/feb/hist07.html. Acesso em: setembro de 2010.
(Figura 9) Coleção de aventuras da FEB. Respectivamente, capas das edições nº 9, 8 e 11. Na
edição de nº 8 é possível ler no box amarelo abaixo do título da coleção a seguinte inscrição: heróis esquecidos.
(Figura 10) Aviso aos leitores na edição de nº 9 sobre os próximos números da
Capítulo 3
Desmobilizando a FEB:
a ameaça da invisibilidade do herói
O esquecimento é uma das formas de memória, seu impreciso porão, o outro lado secreto da moeda.110
Jorge Luis Borges
Muito popular nas histórias de ficção científica desde fins do século XIX, o tema da invisibilidade deu origem a heróis que povoaram a literatura e, mais tarde, os quadrinhos e as telas do cinema e da televisão. Tornar-se invisível com a ajuda de porções mágicas, anéis ou capas é, sem dúvida, poder almejado por muitos. A possibilidade de estar ocultamente presente em episódios públicos ou privados, de espionar sem ser notado e de participar, independente de autorização, da intimidade alheia, seduz porque acarreta uma noção de extrema liberdade aliada a perigosa ideia da impunidade. Assim, o invisível se furtaria não apenas aos olhos dos outros como aos da justiça. Mas, em alguns casos, essa liberdade é ilusória. Em obra pioneira111 de H. G. Wells – O Homem Invisível – a invisibilidade se revela
ao contrário em uma verdadeira prisão. Jack Griffin, personagem principal da história de Wells, é um físico que inventa uma maneira de se tornar invisível e, no exercício desse poder, descobre suas limitações. Se por um lado, para não ser notado precisa andar despido, ainda que em pleno inverno europeu, fincando vulnerável a tosses e espirros que denunciam sua presença. Por outro, se vê obrigado a usar, permanentemente, roupas, óculos e chapéus que encubram totalmente seu corpo para se tornar visível e “existir” no mundo. Em certo sentido, o vestuário para Griffin cumpre, de modo análogo, a função simbólica da farda para os heróis da FEB: assegurar, ainda que momentaneamente, visibilidade e reconhecimento. Sempre com o rosto enfaixado e dono de um temperamento bastante instável, o físico causava grande estranheza entre os habitantes da pacata cidade em que morava. Como todo ser de exceção, Griffin despertava o medo e a desconfiança. Sozinho e amargurado, vivia à margem da sociedade que o via como uma aberração, o que frustrava sua ambição de alcançar a glória ao ser reconhecido pela incrível descoberta. Perseguido como inimigo público de primeira grandeza, acabou morto em conflito com as autoridades locais. Aos poucos, seu corpo já sem vida vai ganhando forma e consistência diante dos olhos. Assim, de maneira trágica e involuntária, a morte se torna uma estratégia para adquirir visibilidade.
Ao contrário de outras histórias nas quais os protagonistas detentores do poder da invisibilidade são reconhecidos como heróis – é o caso dos quadrinhos do Sombra e da série
110 Trecho extraído do poema de Borges (2001:47) intitulado Um leitor.