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RESULTS, DISCUSSION AND CONCLUSION

Até o presente momento evidenciamos a questão das diferenças suscitadas pela possibilidade de acesso a formas alternativas de reforço escolar. Formas estas presentes mais marcadamente dentro de um contexto socioeconômico mais favorecido. As aulas suplementares são pagas e, na realidade brasileira, são poucas as famílias que possuem as condições de financiar um ensino regular privado, quanto menos aulas suplementares ao ensino regular. Assim sendo, a atividade passa a ser restrita a um grupo da elite socioeconômica do país. No entanto, algumas alternativas começam a surgir e passam a ser investigadas por pesquisadores em educação.

Um dos trabalhos que segue esta linha, evidenciando formas alternativas, é a pesquisa realizada por Andréa Silva do Nascimento (2007), na qual a autora faz uma análise do trabalho realizado pelos explicadores, dentro do espaço doméstico, na cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente na Zona Oeste do município – região que apresenta a maior desigualdade de níveis de desenvolvimento humano entre os bairros do Rio de Janeiro . A autora aborda uma possível interpretação acerca da dinâmica dos problemas localizados na Educação Básica, mais especificadamente no Ensino Fundamental, principalmente com relação às recentes mudanças no mercado de trabalho, que têm causado uma certa inserção marginal de profissionais.

Nascimento investiga estas formas de explicação realizadas na “favela” e salienta que é possível encontrar sites da internet que oferecem atividades de explicadores em espaços como as favelas e subúrbios cariocas. As explicadoras dentro deste contexto, são pessoas que

ministram as aulas nas suas próprias casas e cobram pelos serviços. Ela ainda enfatiza que, para a maioria dos entrevistados, a decisão de vir a ser um explicador decorreu das experiências frustradas em outras atividades ligadas ao setor formal de trabalho.

O importante neste estudo é o fato das explicações realizadas no espaço doméstico possuírem significações muito semelhantes com aquelas de escolas especializadas em aulas de reforço, como aquelas dos explicadores que vão até as casas das famílias mais ricas. Ou seja, a função principal das aulas seria o auxílio aos alunos que apresentam alguma dificuldade em alguma matéria da escola, a explicação como reforço escolar para a obtenção de melhores resultados. No entanto, um fator distinto se apresenta neste contexto, a questão das famílias optarem pelos explicadores como uma forma de manter os seus filhos longe da rua e da criminalidade. Uma alternativa para aquelas famílias cujos pais trabalham e que não têm onde deixar os filhos no turno inverso ao da escola regular. Assim sendo, o papel do explicador se torna mais complexo. Nascimento esclarece:

O explicador é um ouvinte da família no que diz respeito às opiniões que tem sobre situações que envolvem o comportamento do filho tanto na escola quanto em casa. Na verdade, os explicadores considerados explicitaram em entrevista que a opinião deles é bastante relevante para as famílias. (NASCIMENTO, 2007, p. 91)

Em certo ponto da investigação Nascimento ressalta que os explicadores entrevistados não pretendiam assumir um papel além de auxiliadores de aprendizagens escolares, mas ao fazer uma observação mais detalhada a pesquisadora conclui que o tempo que as crianças permanecem na escola mais aquele na casa do explicador faz com que ela tenha o dia todo ocupado (um turno na escola e no turno inverso com o explicador). Assim sendo, o explicador acaba cumprindo a tarefa de cuidar e proteger a criança de forma que ela não fique na rua, sem atividade, enquanto os pais estão fora de casa trabalhando. Uma alternativa muito significativa para as famílias de baixa renda. Pois, dessa forma elas conseguem manter os seus filhos distantes do tráfico de drogas e da violência constante nas ruas do Rio de Janeiro (e das grandes metrópoles).

No entanto, a autora, por meio da análise das entrevistas feitas, constata que os alunos demonstram motivos distintos para a contratação das aulas particulares. Segundo Nascimento:

1) Os alunos da escola privada são atendidos por nossos entrevistados porque suas famílias não têm tempo de ajudá-los a fazer o dever de casa excessivo e que suas dificuldades são pontuais, ou seja, carecem de mais esclarecimentos em relação a algum tipo de conteúdo escolar; além de o auxílio do explicador representar melhor desempenho acadêmico para o estudante e evitar a sua reprovação – em geral, mecanismo fortemente presente nas instituições privadas de ensino, ao menos como ameaça.

2) Os alunos da escola pública frequentam as explicações porque seus pais reconhecem que o ensino é fraco, pouco ou nada as famílias podem esperar da escola pública, e que não constitui novidade afirmar que as crianças que chegam ao final da 8ª série do Ensino Fundamental não sabem, de fato, ler e escrever (NASCIMENTO, 2007, p. 97)

As motivações dos alunos – ou das famílias deles – aparentam ser distintas. Enquanto os alunos das instituições privadas buscam uma forma de reforço escolar, para superar dificuldades pontuais no percurso de aprendizagens da escola formal, os alunos provenientes das instituições públicas, no contexto da “periferia” carioca, frequentam as explicações como forma de qualificar as aprendizagens, pois consideram que o rendimento da escola é insuficiente. Para estes as aulas com um professor particular servem para suprir a imensa defasagem do ensino público. Enquanto os primeiros procuram uma forma de complementação das aprendizagens, estes últimos procuram aquilo que muitas vezes a escola deveria estar oferecendo, em termos de qualidade na educação. Inclusive, em aulas com alunos dos dois tipos de instituições – públicas e privadas – o explicador adapta o funcionamentos da aula para que seja produtiva para os dois. Nascimento afirma:

Na prática pedagógica, estes explicadores criam mecanismos para facilitar o seu trabalho como misturar os alunos do ensino público e do ensino privado. Dessa forma, o estudante deste último, ao terminar sua atividade diária proposta pelo explicador – que por diversas vezes é o seu próprio dever de casa – auxilia-o como monitor dos alunos da escola pública. Para os explicadores, o aluno da escola da rede pública não tem autonomia para executar as tarefas propostas. Seu ritmo de estudo está distante da vontade de aprender, e não apresenta a disciplina e postura necessárias para desempenhar de modo eficiente o que lhe é solicitado (NASCIMENTO, 2007, p. 98).

Segundo dados obtidos pela pesquisadora, alguns explicadores argumentam que o ritmo do aluno de escola pública é diferente do ritmo do aluno de escola privada. O “ritmo do cotidiano escolar” em que estão inseridos é muito diverso. Um dos explicadores entrevistado por Nascimento chega a afirmar que essa diferença de comportamento tem relação com o tipo de avaliação utilizado nas duas realidades. Enquanto o escola privada se mantém mais rigorosa com relação às avaliações, a pública estabelece uma média muito baixa, o que não incentiva o aluno a buscar melhores notas. Inclusive, em determinado momento das entrevistas, um dos participantes – explicador – afirma ter conhecimento de que os alunos das escolas privadas tem medo da reprovação e da possibilidade de estudar em escola pública, por causa disso:

Percebe-se uma coação e o medo que os alunos da escola privada têm de estudar em escola pública. Esta é uma das imagens encontradas no universo dos explicadores, mas que é amplamente difundida na sociedade como um todo (NASCIMENTO, 2007, p. 99).

Essa afirmação suscita desconforto em quem a lê e faz reforçar a necessidade da discussão sobre a imagem da escola pública. É preciso refletir sobre quais são as representações feitas e transmitidas sobre a atual escola pública. No entanto é uma discussão a ser feita no futuro, não proposta nesse momento. Mas como emergiu do material da autora, não pode ser descartada sem ser referenciada.

Por fim, sobre os explicadores do Rio de Janeiro o estudo é de extrema importância, pois mostra que a prática das aulas particulares não se restringe a uma prática das elites econômicas do país. Alternativas estão sendo delineadas e um movimento em direção à ampliação do acesso a esse tipo de atividade está se modificando. Outros trabalhos fazem a investigação dos cursinhos populares (MENDES, 2011 e PEREIRA, 2007), como as explicadoras da favela, os cursinhos populares surgem como alternativa para aqueles que não possuem tantos recursos financeiros, mas que visam a continuação dos estudos e a possibilidade de acesso ao ensino superior.

Entretanto para que seja possível compreender de forma mais profunda os questionamentos aqui postos, se faz necessário um estudo mais atento a partir da

sociologia da educação, como estratégia para a compreensão mais reflexiva das implicações sociais que essa prática pode estar estimulando no contexto a ser estudado. Uma discussão pontual emergente está relacionada com a possibilidade de mobilidade social e a ligação com a formação dos sujeitos. Para isto é preciso discutir a “teoria dos herdeiros” (noção de campo, formas de capital e habitus) construída por Pierre Bourdieu com a colaboração de Jean- Claude Passeron. Assim, o próximo capítulo está centrado na análise de algumas obras dos autores, com o objetivo de esclarecer alguns conceitos construídos por eles e que podem servir para o esclarecimento de alguns questionamentos propostos.