Do poeta ao romancista: textos e contextos
Gravura 1- caricaturista tcheco Adolf Hoffmeister (1968).
le romancier naît sur les ruines de son monde lyrique13
Milan Kundera
No final dos anos sessenta do século XX, envolto por um conturbado contexto político e social, em âmbito mundial e local, Milan Kundera chegou ao romance e aí se instalou, exigindo ser reconhecido como romancista e nada mais além. Embora já tivesse esboçado os primeiros gestos enquanto prosador nos contos de Risibles Amours, publicado pela primeira vez em 1963, primordialmente, Milan Kundera é reconhecido como escritor de ficção a partir de La plaisanterie, seu primeiro romance, escrito e publicado na então Tchecoslóváquia14 em 1967.
Para a maioria dos leitores, o passado do escritor se apresenta como uma incógnita. Poucos têm conhecimento de que, antes de se tornar um dos romancistas mais célebres do final do século XX, Kundera já tinha uma carreira de literato consolidada na então Tchecoslováquia. Mesmo que antes de assumir a prosa romanesca tenha transitado pela
13 O romancista nasce sobre as ruínas de seu mundo lírico –
dramaturgia, foi como poeta que iniciou a carreira literária e foi também como poeta que se tornou conhecido no país natal.
A atividade poética de Kundera teve início ainda no final dos anos quarenta. O trabalho de pesquisa nos permite afirmar que, um dos motivos que levou Kundera a optar pela poesia passa pela notoriedade adquirida por esse gênero literário no contexto das artes tchecas. Tanto no campo teórico, quanto no âmbito da criação artística, a poesia ganhou destaque nos espaços da cultura tcheca desde os anos iniciais do século XX. Os estudos do teórico da literatura Terry Eagleton nos permitem algumas percepções e acepções sobre o assunto.
Segundo Eagleton, Praga foi um importante celeiro para o desenvolvimento de correntes da teoria literária no século passado. Precisamente, ele nos informa que,
Jakobson foi o líder do Círculo Linguístico de Moscou, grupo formalista fundado em 1915, e em 1920 emigrou para Praga, tornando-se um dos principais teóricos do estruturalismo tcheco. O Círculo Linguístico de Praga foi fundado em 1926 e sobreviveu até a deflagração da Segunda Guerra Mundial. (EAGLETON, 2001. p. 134)
Além dessas informações pontuais, o estudioso prossegue salientado que, em razão da utilização da linguagem, os integrantes do Círculo de Praga demonstraram predileção pela poesia. Conforme Eagleton, Jacobson se notabilizou no âmbito dessa discussão destacando que, em poesia,
as palavras não são reunidas pelos pensamentos que transmitem, como na fala comum, mas tendo em vista padrões de semelhança, oposição, paralelismo, etc., criado pelo seu som, significado, ritmo e conotações (EAGLETON, 2001, p. 136)
Os estudos de Eagleton permitem enxergar a relevância teórica desenvolvida particularmente no campo poético desde a primeira metade do século XX na Tchecoslováquia. Já no campo da produção poética foi em François Ricard – um dos mais respeitados comentadores da obra kunderiana – que buscamos compreender a notoriedade da poesia tcheca e a influência que ela exerceu sobre o jovem Milan Kundera. De acordo com Ricard,
Son amour juvénille pour la poésie et la musique était lié à son admiration passioné de l’art moderne, qu’illustraient dans son pays natal des figures d’une grandeur exceptionnelle, surtout parmi les poètes : Vitezslav Nezval, le fondateur du premier groupe surréaliste tchèque (que Kundera a connu personellement et qu’il a beaucoup aimé) ; Kostantin Biebl (qui s’est suicidé
en 1951 en se jetant d’une fenêtre) ;Jaroslav Seifert (lauréat du prix Nobel de littérature en 1984) ; Frantisek Halas(l’ami de son cousin, le poète Ludvik Kundera, membre du groupe surréaliste Ra, fondé en 1946) ; Vladimir Holan (dont la poésie sera publiée chez Gallimard avec une préface d’Aragon)15.
(RICARD, 2011a, p. 1401)
Esses poetas, sobre os quais nos fala Ricard, ganharam reconhecimento fora dos territórios tchecos, tornando-se glamorosos representantes da cultura local.
Em resumo, as considerações de Ricard e de Eagleton são relevantes na medida em que, associadas a outras leituras no curso da pesquisa, nos conduzem à percepção de que, tendo nascido em 1929, Kundera não só fora estimulado pelo debate em torno da poesia, como também foi embalado pela linguagem e pelo ritmo de seus versos.
Sobretudo, as considerações tecidas por Ricard demonstram que Kundera iniciou suas experiências literárias inserido em um contexto glorioso para a poesia tcheca. Além das orientações desse estudioso, as muitas leituras da fortuna crítica de Kundera nos levam a percepção de que o jovem escritor conviveu e participou ativamente desse contexto. Sendo assim, deduz-se que, para este artista, a poesia não chegou a ser uma escolha consciente. Em razão do contexto cultural no qual estava inserido, estamos convencidos de que a opção pelo gênero a ser desenvolvido dificilmente poderia ser outra senão o poético. Essa quase imposição do contexto talvez tenha sido um dos motivos da inconstância e do incômodo demonstrado por Kundera em relação aos seus escritos do passado.
1.1- O deslocamento no universo da poesia
Em Le livre du rire et de l’oubli, por meio da voz do narrador-autor-personagem desenvolve-se uma ampla reflexão sobre o sentimento de não pertencimento daqueles que se encontram fora do círculo16. Mesclada ao sentimento do exílio – já que este é o primeiro livro escrito no exílio –, ao citar André Breton e Paul Éluard como integrantes do círculo, naquele
15 Seu amor juvenil para com a poesia e a música estava ligado a sua paixão pela arte moderna, que
ilustravam em seu país natal figuras de uma grandeza excepcional , sobretudo entre os poetas: Vitezlav Nezval, o fundador do primeiro grupo surrealista tcheco (que Kundera conheceu pessoalmente e a quem ele muito amou); Kostantin Biebl (que suicidou-se em 1951se jogando de uma janela); Jaroslav Seifert (vencedor do prêmio Nobel de literatura em 1984);Frantisek Halas (amigo de seu primo, o poeta Ludvik Kundera, membro do grupo surrealista Ra, fundado em 1946); Vladimir Holan (cuja poesia será publicada na Gallimard com um prefácio de Aragon.
16 Nesse livro Kundera nos diz que diferentemente da fila, o círculo é uma formação fechada e aquele
que se desprende dessa formação jamais pode a ele retornar. Nesse livro – o primeiro escrito no exílio – notadamente, a nostalgia contida na voz do narrador faz eco com o a voz que escreve, mas a pesquisa nos revela que esse sentimento de não pertencimento é algo que acompanhou o autor desde a juventude e ela se faz notar nas ações e escritas do jovem poeta.
momento as reflexões ainda reportam a outro sentimento de deslocamento, aquele que acompanhou o jovem poeta Milan Kundera.
A pesquisa nos mostra que Kundera nunca mantevera uma relação harmônica com a poesia. Visivelmente a trajetória poética é marcada por mudanças quase bruscas em curtos espaços de tempo. Kundera inicia sua atividade literária nos anos quarenta, mas conforme François Ricard (2011a), as produções poéticas de Kundera que ganharam maior destaque são as produzidas entre os vinte e quatro e os vinte oito anos, ou seja, nos anos cinquenta – logo depois da primeira expulsão do partido comunista em 1948. Mas de modo geral é possível notar nos três livros dessa época – L’Homme vast jardin17 (Clovek zabrada sira) editado em 1953, Le Dernier Mai18 (Posledni maj) publicado em 1955 e finalmente, Monologues19 (Monology) de 1957 – significativas mudanças tanto do ponto de vista da escolha dos conteúdos quanto do ponto de vista da escrita do poeta20.
No primeiro livro, L’homme vast jardin, os versos denotam uma aproximação direta da poesia com as questões políticas e sociais. Em alguns deles, ainda se percebe a filiação do autor aos aspectos político-ideológicos. Todavia, em outros, o dogmatismo do comunismo contemporâneo é o ponto para onde convergem as críticas do escritor. Conservando ainda o aspecto político, denotando menos enfrentamento e mais nostalgia, os versos contidos em Le Dernier Mai – seu segundo livro de poemas – serão dedicados à memória de um herói antinazista: Julius Fucik21. Já em sua terceira coletânea de poemas, Kundera se afasta dos resquícios políticos e busca o erotismo como tema de sua escrita.
Em Monologues, a intimidade erótica começa a dar o tom do que virá posteriormente. Nos poemas desse livro, Kundera já aponta para a importância do patrimônio natural e autêntico pautado na experiência humana. Os versos transcritos abaixo podem figurar como um bom exemplo disso:
Cette rose voulait se donner à tous
Traverser comme un parfum tous les hommes
17 O homem vasto jardim. – Para a mesma obra, no livro Comment Devient-on Kundera?, Martin
Rizek (2001) utiliza a tradução L’homme, ce vast jardin.
18 O último maio 19 Monólogos
20 Dos três livros citados, só não tivemos acesso aos originais do primeiro (Clovek zabrada sira) O
homem vasto jardim. Ainda assim, pudemos ler alguns poemas dele, os quais foram colhidos pelos estudos de Martin Rizek (2001) no livro Comment Devient-on Kundera? .
21 Segundo fontes de Françoir Ricard, Julius Fucik foi executado em 1943, mas antes redigiu na prisão
Reportage écrit sous la potence, (Reportagem escrita sobre a potência) obra que restou bastante famosa. (2011a, p.1402)
Et à travers les hommes savourer tout la terre.22
(KUNDERA apud RIZEK, 2001, p. 76)
Por meio de prenúncios eróticos, esse fragmento textual aponta para a tensão entre a emoção e o intelecto que se verá com frequência e de modo bem mais complexo na escrita ficcional de Kundera. Não é por acaso então que mais de quarenta anos depois esses versos serão retomados na narrativa de L’indentité, livro publicado em 1997. No romance, os versos se mesclam aos conflitos com os quais se depara a personagem Chantal diante da consciência da decrepitude do corpo e da iminente consciência da perda da juventude.
Quand elle avait seize, dix-sept ans, elle chérissait une métaphore ; l’avait- elle inventée elle-même, l’avait-elle entendue, lue ? peu importe : elle
voulait être un parfum de rose, un parfum expansif et conquérant, elle voulait traverser ainsin tous les hommes et, par les hommes, embrasser la terre entière23.(grifo nosso para evidenciar as semelhanças com os versos do
passado) (KUNDERA apud RIZEK, 2001. p. 77)
Em entrevista concedida a Antonin Liehm em 1966, o próprio Kundera diz que
Monologues continha resquícios do sentimentalismo próprio do poeta lírico que fora, e que agora rejeita (1970, p. 99). Nesse sentido, não se pode ignorar o caráter irônico contido nesse retorno que, em L’indetité, faz Kundera.
É evidente que aqui existe um meio riso dirigido primeiro ao poeta que um dia fora e segundo aos leitores de seus romances. Do poeta, ele ri da pretensão lírica que parece se manifestar nos desejos do eu-lírico. Já em relação ao leitor, o riso advém da ingenuidade. Desconhecendo seu passado de poeta, inocentemente esse tende a compartilhar com Chantal o sentimentalismo “idiota” – como certamente diria Kundera – diante da perda da juventude.
22Tanto no francês quanto no tcheco os textos foram transcritos do livro de Martin Rizek citado no corpo do texto.
Esta rosa queria se dar a todos
Como um perfume, atravessar todos os homens E, ao atravessar os homens, saborear toda a terra. Ta růže dát se chtěla všem.
Táhnout jak vůně všemi muži A v mužích chutnat celou zem.
23 O trecho do romance foi transcrito do livro de Martin Rizek, o qual utiliza a mesma edição francesa
por nós adotada como referência bibliográfica.
Quando tinha dezesseis dezessete anos, ela gostava de uma metáfora; teria sido inventada por ela mesma, teria ouvido, lido? pouco importa: queria ser um perfume que se difundisse, que
Para grande parte da crítica kunderiana, inclusive para nós, esse último livro de poemas já é um prenúncio claro do Kundera romancista. François Ricard (2011), por exemplo, chega a dizer que Monologues é a pré-história do romance kunderiano.
Aproximando os dois fragmentos textuais, pretende-se reforçar o argumento de que o projeto romanesco de Kundera se constrói gradativamente e em permanente dialogicidade. O cotejo dos versos com a prosa permite uma dimensão maior a respeito da proposição segundo a qual a obra romanesca de Kundera não nasce nos anos sessenta como comumente se imagina. De acordo com nosso entendimento, ela é fruto das relações do autor com o mundo a sua volta e consigo mesmo.
O percurso que procuramos traçar do poeta ao romancista nos mostra que a travessia efetuada pelo literato é prenhe de conflitos e inadequações os quais se revelam dentro e fora dos textos artísticos. O sentimento de deslocamento no universo da poesia é certamente o mais comum entre eles e, como podemos observar já se ecoava nos versos escritos ainda no anos quarenta. O fragmento transcrito abaixo figura como um bom exemplo disso.
Mes chers amis au pays où je suis né ! Quell distance me séparait de vous !
Où m’égarais-je, dites-moi où ? Je sais à présent que c’est trahir que de vivre replié sur soi seul.24
(KUNDERA apud RIZEK, 2001, p. 66)
24 Tanto no francês quanto no tcheco os textos foram transcritos do livro de Martin Rizek, Comment
devient-on Kundera? Ed. L’Harmattan, 2001, p. 66. A sugestão de leitura em língua portuguesa foi pautada na tradução do tcheco para o francês apresentada por Rizek.
Mí rodní! Jak jsem vám byl stale Vzdálen!
Kam jsem se to jen ztrácel, kam? Dnes já už vím, že je to zrada, Žít v sobě jen a sám.
Meus caros amigos do país onde eu nasci! Qual distância me separava de vocês!
Onde me perdia, diga-me onde? Eu sei hoje que isto é trair
Aqui a voz do eu lírico se ressente do distanciamento em relação aos outros amigos poetas e aos seus compatriotas. Por diversas vezes, em variadas leituras, constatamos que esse sentimento de deslocamento presente na voz do eu lírico pode ser captado na trajetória e na fala de Kundera quando se refere ao passado de poeta.
Ainda que tenha iniciado o percurso literário na poesia, que nela tenha permanecido por vários anos, que por meio dela tenha recebido o reconhecimento do público e da crítica é o próprio autor que, nas poucas vezes em que se refere ao período, evidencia o desconforto em relação a ele. No trecho da entrevista que se segue, Kundera enfaticamente descreve o incômodo quanto ao seu passado de poeta,
Pour tout vous dire, je ne me suis jamais senti bien dans ma peau quand il m’arrivait de me voir affublé de ce titre un peu grotesque : « poète ». Si je rencontrais des copains avec qui j’avais fait de la boxe dans nos années d’adolescence, jeprenais bien soin de leur faire croire que ce poète Kundera était tout simplesment mon homonyme. A l’instant où je me suis rendu compte que je n’étais plus capable d’écrire un vers, j’ai fait ouf ! Quel soulagement, l’affaire était classé !25 (KUNDERA apud LIEHM, 1970. p.
99).
Das palavras do escritor depreende-se que nunca estivera à vontade no universo literário constituído pelos versos. O sentimento de deslocamento, de não pertencimento ao mundo da poesia gera o desconforto com a condição de poeta evidenciado em sua fala. Muito provavelmente, o distanciamento desse passado e o desejo de desvincular a imagem do romancista Milan Kundera daquilo que chama de seu homônimo, o “poeta Kundera”, muito se deve ao incômodo ali sentido.
1.2 Dialogando com a crítica kunderiana
O trabalho de pesquisa nos indica que em torno da postura do autor em negar seu passado de poeta circunda toda uma discussão da crítica. Essencialmente da crítica que aqui denominamos “crítica recepcional” – conforme exposto anteriormante.
Analisando o corpus documental fornecido pela “crítica recepcional” percebe-se que, em se tratando da relação de Kundera com seu passado de poeta, os debates hipotéticos desses estudos passam por três veios. O primeiro insinua uma suposta recusa identitária por
25Para ser honesto, eu nunca me senti bem vestido na pele um pouco grotesca de “poeta”. Quando eu
encontrava algum amigo com quem eu tinha praticado boxe na adolescência, cuidava logo de fazê-lo acreditar que o poeta Kundera era simplesmente meu homônimo. No momento em que percebi que não era mais capaz de escrever um verso eu fiz, ufa! Que alívio, o assunto estava encerrado!
parte do literato, que jamais fala ou deixa falar de sua vida pessoal. O segundo prossegue pela ideia de uma provável necessidade de afastamento do político-ideológico que caracterizou os escritos do passado.
Se tomarmos por referência os dois primeiros livros de poesia do escritor, veremos que tal como nos demais poetas da época, em Kundera as questões político-ideológicas caminhavam junto com a atividade literária. Sabendo da austeridade com a qual Kundera hoje se refere à filiação da literatura a tais questões, não seria prudente julgar sem valor a teoria de afastamento do político-ideológico sobre a qual se apoia a “crítica recepcional”.
Mas é o terceiro veio de discussões que engloba a hipótese mais comum levantada pela “crítica recepcional”: aquela que associa essa negação do passado de poeta ao desejo de Kundera em construir uma imagem que não só permitisse, mas também facilitasse a universalização do romancista frente a uma segregada “república mundial das letras26”.
De fato, existe uma pertinência inegável no debate da “crítica recepcional”; difícil, portanto, de ser ignorado por qualquer estudo que tenha por objeto a obra kunderiana. Participando dessa corrente crítica, no ensaio intitulado L’identité refusée: Milan Kundera, Nancy Huston (2004)27 salienta que Kundera não tem passado. Segundo ela, tal como suas
personagens as quais nascem de uma palavra, de um gesto ou de uma vontade estética, o romancista Milan Kundera, que se tornou conhecido fora dos limites territoriais tchecos no final dos anos sessenta, também nascera assim. Por sua vez – reforçando a ideia de uma ação direta de Kundera sobre a construção de uma imagem universal de romancista –, dirão Martine Boyer-Weinmann (2009) e Martin Rizek (2001), que a pergunta que motivou e impulsionou as ações desse escritor foi, “Como tornar-se Kundera?”
Rizek nos faz ver que, em suas discussões sobre os paratextos, Gérard Genette, diz que o texto lido é constituído dos muitos textos que sobre ele se manifestam (GENETTE apud RIZEK, 2001.p. 26). Nesse sentido, ciente da relevância das orientações, entre outros, de Huston, de Boyer-Weinmann e de Rizek as quais procuram compreender e fazer compreender a universalização do autor Milan Kundera e do romance kunderiano como algo construído também e principalmente fora dos textos, procura-se aqui não por uma assimilação ou por uma rejeição, mas pelo diálogo crítico com tais orientações.
26 E no contexto desta pesquisa, quem, mais adiante se proporá a pensar sobre A república mundial das
letras é a teórica da literatura Pascale Casanova (2002). No âmbito de suas reflexões Casanova discorre acerca das muitas, sutis e variadas leis que regem os espaços literários em âmbito mundial. Entre essas leis, ela destaca a língua, os espaços geográficos e econômicos.
27 A identidade recusada: Milan Kundera –
A discussão integra o livro de Huston intitulado Profeseurs de désespoir (Professores do desespero) 2004.
A posição dialogal se deve à perspectiva do presente trabalho de pesquisa que reconhece a importância dos estudos citados; entretanto, prefere analisar as exigências e determinações de Kundera de ser lido e reconhecido como romancista e somente como romancista, enquanto algo que transcende a ambição pessoal. De acordo com nossa compreensão, o desagrado para com o passado poético e o “esquecimento” desses textos tem menos a ver com a intenção de criar uma biografia sobre si mesmo e mais com o aperfeiçoamento estético perseguido por Kundera.
Quando nos sugere a busca pela compreensão da obra como um conjunto, nela procurando por elementos formais e regulares, as análises metodológicas a partir dos pressupostos da Epistemologia do Romance nos indicam que a atitude de Kundera em negar o passado não evidencia simplesmente um posicionamento pessoal, mas uma preocupação estético-criadora.
Tal como o pintor em busca do traço perfeito, da luz da sombra, Kundera trabalhou toda a vida sobre os mesmos temas. Observando a trajetória literária desse escritor, desde o poeta, fica evidente que o que o moveu não foi tão simplesmente a ambição pessoal. De