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A “nova” Catedral, como a edificação ainda é chamada pelos natalenses, foi construída no bairro do Tirol – divisa com os bairros de Cidade Alta e Petrópolis – para se tornar a nova sede da Arquidiocese de Natal, e sua igreja mais importante em substituição à antiga Matriz do século XVII (ver Fotografia 08).

Fotografia 08 – A “nova” Catedral de Natal

Autor: Julião Thadeu

Disponível em: <http://www.panoramio.com/photo/3233531> Acesso em: 20 maio 2014.

De acordo com o engenheiro José Pereira da Silva, que calculou suas estruturas, o templo “[...] destaca-se como a primeira obra de edificações com sistema estrutural em concreto protendido executada no Rio Grande do Norte”. (SILVA, J., 2009, p.99)

A construção do templo

A construção da igreja, durante os anos 1970 e 1980, mobilizou a sociedade natalense com vistas à arrecadação de fundos para sua implementação. Para se ter uma ideia, envelopes eram distribuídos em todas as escolas católicas da capital para que neles fossem depositadas contribuições em dinheiro. Uma ampla campanha, portanto, de envolvimento e convencimento quanto às obrigações dos fiéis em relação

ao clero e à manutenção da infraestrutura construída pela Igreja. De acordo com o site oficial da Arquidiocese de Natal (2014):

A construção definitiva da Catedral Metropolitana de Natal foi iniciada em 21 de junho de 1973. Foram 18 anos de intensas campanhas, a fim de conseguir recursos para construir o novo templo, cuja inauguração aconteceu em 21 de novembro de 1988, pelo então Arcebispo, Dom Alair Vilar Fernandes de Melo.

Segundo o projetista do templo, o arquiteto potiguar Marconi Grevi, entrevistado em março de 201448 e já devidamente apresentado no capítulo 4 deste estudo, a edificação da Catedral foi motivada pela necessidade, percebida pela Arquidiocese, da construção de um templo maior que abrigasse mais fiéis da paróquia de Natal. Havia também a necessidade de uma sede para as diversas atividades promovidas pela igreja como, por exemplo, as reuniões do Clube de Jovens Juventude Estudantil Católica, entre outras.

Além dessas necessidades, outras diretrizes foram definidas com vistas à construção da Catedral. A publicação Cadernos do Rio Grande do Norte, de outubro/novembro de 1972, apresentou matéria sob o título “Como construir uma igreja”, indicando as principais recomendações para a construção de um templo católico, dentre as quais, destacam-se: as mudanças promovidas pela renovação e reforma litúrgica aprovadas pelo Concílio Vaticano II; e um parecer da Comissão Arquidiocesana de Liturgia, Música e Arte Sacra de Natal sobre este mesmo tema. Diz o parecer que: “É uma reforma radical, que não se limita apenas à mudança de ritos mas atinge até mesmo à própria estrutura tradicional do edifício sagrado, que deve oferecer condições favoráveis à aplicação prática das reformas”. Diz ainda o parecer que o aspecto da funcionalidade é fundamental devendo os templos adaptarem-se à nova realidade que exige igrejas projetadas para estarem à serviço do culto e para permitirem a ativa participação dos fiéis, num espaço de “[...] beleza e intrínseca sacralidade”. Levadas em conta todas as necessidades, diretrizes e considerações, a Arquidiocese de Natal decidiu pela execução da construção da Catedral de Natal a partir da aprovação do estudo apresentado por Marconi Grevi.

48 Marconi Grevi já havia sido entrevistado em dezembro de 2012 com vistas à definição das

Ainda conforme os Cadernos do Rio Grande do Norte (1972), o arquiteto Marconi Grevi teria definido assim o partido e a solução adotados49:

Para o arquiteto não há inspiração e sim a idéia a qual poderá ser interpretada:

O homem na sua proporção é bastante pequeno às coisas de Deus, daí a entrada ser baixa, convidando ao mesmo para um aspecto humilde;

Na medida que se entra no templo, as linhas começam a subir; as linhas se elevam tendendo ao infinito; o infinito implica a Deus.

A Catedral é formada por um conjunto de linhas que elevam o homem a Deus.

Além destes princípios, de acordo com entrevista realizada com seu projetista, também nortearam a execução do projeto arquitetônico da Catedral: a necessidade de uma planta livre que contemplasse um amplo salão, o que, na sua opinião, diferenciou sua criação dos estudos que a precederam; a simplicidade nos acabamentos, o que resultou, por exemplo, no uso da pedra ardósia no piso da nave central e a utilização do tijolo aparente em outros ambientes do templo; e a baixa utilização ou ocupação do lote que foi determinada em 25% do total da área (ver quadro 02).

Quadro 02 – Áreas, afastamentos e medidas da Catedral de Natal

AMBIENTE/AFASTAMENTO ÁREAS/DISTÂNCIAS

Praça/lote 10.000,00 m²

Nave principal 2.500,00 m² (3.000 fiéis sentados) Subsolo 2.300,00 m²

Afastamento para a Av. Deodoro da Fonseca 36,00 m Afastamento para a Avenida Floriano Peixoto 12,00 m Afastamento lateral máximo 26,00 m Afastamento lateral mínimo 16,00 m Altura mínima 6,00 m Altura máxima 30,00 m

Fonte: Cadernos do Rio Grande do Norte (1972)

De acordo com os Cadernos do Rio Grande do Norte (1972), foi destinado à construção da Catedral um lote onde havia uma capela que foi demolida em função de determinadas prescrições urbanísticas, tendo sido substituída pela Praça Pio X. Afirma ainda que nos anos 1950 foi iniciada a construção de uma nova Catedral neste mesmo lote, em estilo neo-romântico, que não teve sua conclusão devido aos custos

49 Na entrevista realizada em março de 2014, o arquiteto ratificou suas palavras ditas e publicadas em

envolvidos e às reformas50 então promovidas pelo Vaticano. De acordo com Marconi Grevi, ainda na sua entrevista em março de 2014, a Arquidiocese de Natal aprovou o estudo preliminar do novo templo em 1972 e passou a mobilizar diversos setores da sociedade civil de Natal, acionados com vistas à composição de uma comissão objetivando a execução das obras. Dentre estes setores, podem ser citados o Clube de Diretores Lojistas, além do corpo técnico formado pelos profissionais envolvidos na construção.

Surge um novo templo Católico

Todas essas diretrizes e definições projetuais resultaram num templo de planta trapezoidal com grandes vigas curvas em concreto armado aparente, e numa volumetria impactante e marcante na paisagem do bairro do Tirol, onde está localizado. De acordo com Silva, J. (2009, p.99), a estrutura da cobertura da Catedral é constituída de “[...] nove vigas principais convergentes inclinadas com geometria de forma parabólica, que servem de suporte a painés de lajes planas de vãos variáveis”. Diz ainda que, em função da inexistência de pilares na área da nave principal, a opção pelo concreto armado convencional foi descartada. A solução adotada, visando respeitar o projeto arquitetônico, recaiu sobre uma solução de vigas em concreto protendido e o sistema utilizado foi o Freyssinet de pós-tensão. Devido a estas características e outras relativas aos apoios, a geometria e à estrutura arrojada proposta, a construção da Catedral foi “[...] na realidade, um dos grandes desafios enfrentados por mim [...]”. (SILVA, J., 2009, p.99)

O templo, entende-se, possui algumas características do que convencionou-se chamar de Brutalismo na produção arquitetônica internacional do século XX. Segundo Bruand (1981, p.295), o Brutalismo, nas suas vertentes Corbusiana e inglesa, revela um desejo dos arquitetos voltado para a valorização dos materiais brutos, sem subterfúgios, sem concessões estéticas que não exponham a essência dos materiais. A vertente associada a Le Corbusier tem forte correlação com o uso do concreto bruto “[...] na obra do mestre franco-suíço a partir da unidade habitacional de Marselha (1947-1952) [...]”. (BRUAND, 1991, p.295). É o que se percebe nas grandes vigas e pilares que constroem o desenho original, a perspectiva única, da Catedral de Natal. Sua austeridade, buscada desde o início pelo seu projetista, parece ser de uma

verdade puritana e desprovida de sofisticação. Por outro lado, essa sinceridade exposta na verdade do material revela uma grande sofisticação na execução da obra, desde o nascimento da ideia seminal, passando pelos cálculos feitos sem o auxílio de computadores, até o canteiro de obras e as técnicas empregadas na execução. Estas peculiaridades revelam que a edificação oferece à cidade algo mais que a satisfação funcional.

Esta característica da verdade do material bruto, onde o concreto é exposto sem revestimentos, e que é tão cara à arquitetura moderna brasileira, pode ser depreendida das palavras do entrevistado L, um dos profissionais da arquitetura entrevistados no presente estudo. É o que se percebe quando o entrevistado afirma que: “E de prédios mais antigos que eu sempre gostei muito, tem a Catedral de Marconi Grevi que lembra as coisas de Brasília, em concreto. [...] Acho que a Catedral teve um pensamento, uma estrutura ali [...]”.

Como dito, o templo tem planta trapezoidal e foi solucionado em dois pavimentos. No pavimento superior está a nave central com amplo salão em planta livre e piso inclinado em direção ao altar. O efeito buscado pelo arquiteto e revelado nas suas palavras como citado acima, é obtido a partir do momento em que os fiéis entram na igreja. Suas portas frontais e a laje curva no ponto mais baixo têm escala humana e representam o universo dos homens, mas, à medida que o visitante caminha longitudinalmente pelo templo, é tomado por uma impressão de imersão em outro universo, este muito maior e mais impactante, resultado da altura atingida pelas vigas curvas em concreto armado acima do altar e dos diversos elementos sacros que o compõem (ver Fotografia 09). É o universo divino revelado pela grande estrutura que, em contraste ao humano e de acordo com a sensibilidade de cada um, eleva o observador a Deus. Sobre a questão da escala do templo, F, um dos arquitetos também entrevistado neste estudo, revela sua opinião:

Eu acho que a Catedral de Natal, de Marconi Grevi, é um projeto interessante, apesar de ter problemas de manutenção e infiltração, ela vive alagando quando tem chuva, mas eu acho um projeto interessante para a gente estar dentro e observar a questão das escalas. Uma pessoa lá dentro não é nada em relação à altura, tanto é interessante o volume dela, apesar do interior ser totalmente livre. Essas relações são interessantes.

Fotografia 09 – Interior da Catedral de Natal

Autor: Luciano Barbosa, 2014

A nave central conta ainda com bancos de madeira dispostos em três blocos: um principal à frente do altar e dois nas suas laterais. Ao fundo do altar, há grandes janelas onde deveriam existir vitrais, conforme o projeto original da Catedral, mas que não foram executados devido ao alto custo da obra, de acordo com depoimento do seu projetista. No pavimento inferior, encontram-se a Capela do Santíssimo, o gabinete do Arcebispo de Natal e todos os outros ambientes de apoio ao funcionamento da sede da Arquidiocese. Em contraponto à planta livre do pavimento superior, o inferior tem planta dividida numa grande quantidade de ambientes que também apresentam austeridade nos materiais de acabamento. A comunicação entre os dois pavimentos é feita por uma escada localizada atrás do altar e o acesso externo ao pavimento inferior é feito pela fachada posterior ao nível da calçada pública.

A cruz, à entrada do templo, tem um desenho geométrico com pilares e vigas, em concreto armado, entrelaçados, o que lhe confere uma monumentalidade que foge ao padrão das figuras sacras, mesmo as contemporâneas (ver Fotografia 10). O campanário, ao contrário das igrejas tradicionais, fica no nível do térreo e tem os 03 sinos, de tamanhos diferentes, apoiados em suportes metálicos.

Fotografia 10 – a Cruz da Catedral de Natal

Autor: Luciano Barbosa, 2014

A consolidação do ícone

A Catedral Metropolitana de Natal é uma obra de caráter puramente modernista e não se enquadra na grande maioria das categorias analíticas elencadas como fios condutores das análises aqui estabelecidas. Não foi uma obra criada, propositadamente, com vistas à espetacularização da cidade – da forma como é entendida a espetacularização urbana no presente estudo – nem para a atração de turistas, mas sim de devotos. Entretanto, por ser um monumento eclesiástico, como os políticos ou os corporativos, é também um "monumento" da cidade. Hazan (2003, p.02) afirma que “O ícone é um símbolo, concebido como tal, ou transformado em tal. Ele se destaca na paisagem urbana, ajudando a valorizar seu entorno, e às vezes toda a cidade em que se encontra”. É o que se entende e é considerado no presente estudo em relação à Catedral.

Considera-se, também, que a localização das igrejas construídas nas cidades brasileiras ao longo dos séculos – como de resto em todas as cidades onde houve prevalência do Catolicismo e do poder político-eclesiástico católico – revela a força, o prestígio e a dominância do poder central do Vaticano. Revela, ainda, no Brasil, a importância que a Igreja Católica teve sobre as cidades coloniais lusitanas, e que se manteve mesmo após o fim do período colonial. Desta forma, os templos se tornaram referências urbanas pelas dimensões e estilos, e pela locação em relação aos demais prédios oficiais, aos logradouros públicos e às residências da elite. No caso de Natal, por exemplo, a igreja Matriz sempre foi referência da cidade mesmo nos primeiros tempos, quando a cidade tinha uma conformação de vila com poucos casebres e alguma estrutura jurídica e política. Essas construções formavam “[...] um retângulo, na atual Praça André de Albuquerque, tendo como referência a capela matriz, no local onde hoje está a antiga catedral de Natal”. (LIMA, P. 2002, p.33)

Considerados estes aspectos, ou seja, as escolhas quanto à localização e outras de caráter plástico-formal, a construção da Catedral de Natal está inserida no contexto da espetacularização urbana da cidade dentro da mais legítima tradição Católica.

Ressalte-se que a Catedral encontra-se localizada de tal forma que é possível observar uma perspectiva monumental, quase Barroca, a partir da Avenida João Pessoa. Com respaldo em Lynch (2005, p.18), pode-se afirmar que esta perspectiva permite ao observador uma visão que estabelece uma forte relação deste com o templo pela identidade que o mesmo a ele confere, que o diferencia das demais edificações do entorno, pela relação estrutural deste observador com a igreja na abordagem pretendida pelo seu projetista onde as vigas curvas elevam o pensamento a Deus, e pelo significado religioso intrínseco à Catedral, que captura o observador pela emoção resultado das suas crenças, tradições e experiências pessoais.

Destaque-se ainda que a Catedral foi construída em um dos primeiros bairros de Natal, o Tirol, de grande valorização e forte dinâmica imobiliária, e que está contido no EIVI (MEDEIROS, 2011). É também um bairro de “status” da cidade abrangido pela “onda do turismo”, conforme os estudos de Furtado (2008). Segue, portanto, a tradição católica de erguimento de templos em regiões centrais das cidades, numa demonstração de poder e influência, desta feita em terreno plano. Entende-se que estes templos tendem a ser focos polarizadores da expansão urbana com repercussões na produção do espaço no seu entorno. Entretanto, percebe-se que a

Catedral foi implantada num bairro já consolidado tanto pelo comércio estabelecido como também pelas infraestruturas urbanas existentes, numa época em que a expansão da cidade se dava em direção ao sul, na direção dos bairros de Lagoa Nova, Candelária e Ponta Negra, entre outros. Uma opção, portanto, pela centralidade tradicional e não pela periferia associada aos novos bairros. Uma opção que também levou em conta a mobilidade urbana já que, estando nas franjas do antigo e tradicional bairro da Cidade Alta, a Catedral era, na época – e ainda é nos dias de hoje – bem servida de transporte coletivo e de vias largas, que permitem o deslocamento de veículos sem maiores transtornos.

Percebe-se, pelo depoimento do seu projetista e pela documentação estudada, que a edificação não foi concebida para se tornar um ícone contemporâneo da forma como o ícone é abordado nesta pesquisa. Entretanto, pelas suas características, tornou-se um marco urbano da cidade de Natal, além de ser uma referência para todos os católicos do RN. Entende-se que devido à sua carga simbólica, sua localização no antigo bairro do Tirol, nos limites com o bairro da Cidade Alta, e suas dimensões e implantação em relação ao entorno, que ocupa todo um quarteirão, tornou-se um ícone incontrastável, não havendo, nas proximidades, nenhuma construção tão monumental.