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Na década de 1940, a relevância econômica do turismo em Natal era mínima, principalmente por causa da ausência de infraestrutura básica para comportar essa atividade. A iniciativa de fomento da atividade turística seguiu de forma inexpressiva até a década de 1980, ocasião em que a crise vivida pelos segmentos econômicos tradicionais desembocou na necessidade de uma maior articulação entre as políticas de turismo e as políticas econômicas em geral, proporcionando um salto importante nesse setor. Todavia, o período que precede a década de 1980, foi importante na construção das bases ideológicas, dos pensamentos e imaginários que envolviam o turismo. Foi o período em que se difundiu as primeiras concepções e incorporação de valores que traduziram-se nos germens da história do turismo em Natal.

A ausência de materialização e planejamento nas primeiras políticas de turismo não impediu o fotógrafo Jaeci Galvão, que iniciou o processo de registro da

cidade de Natal, de acreditar no turismo como atividade passível de trazer desenvolvimento para o local. E por esse motivo, iniciou em suas fotografias de cartão-postal o processo de divulgação de zonas estratégicas da capital. Assim como a cidade ampliava as suas artérias, nessa nova lógica econômica e material que Natal experienciava, era imprescindível marcar as transformações e colocá-las no mercado de imagens.

Com o alargamento da cidade favorecido pela construção de novos bairros, ruas e avenidas, não era mais possível ao morador e aos visitantes apreender a cidade com um simples olhar ou caminhar. Era necessária uma distância cada vez maior da cidade para referenciá-la, transportes mais velozes para circular na cidade e ver os espaços que se transformavam. Já, os novos espaços traçados que se abriam, passiveis de visualidade fotográfica foram sendo cuidadosamente selecionados e captados pelo jovem profissional.

Como afirma Susan Sontag (2006, p. 172) a máquina fotográfica estimulou novos desejos de visualidades, entre eles, incentivou o deslocamento, nesse período no qual as viagens já se organizavam profissionalmente em alguns pontos do país. A autora agora citada elucida também que por meio das fotografias temos uma relação de consumidores com os eventos, tanto com os que fazem parte da nossa experiência, como aqueles que dela não fazem parte. E essa relação de consumo com os espaços foi excitada por um segmento imagético, propenso e versátil para aportar às transformações e os desejos de viagem: os cartões-postais. Agora com novas mensagens implícitas, não mais essencialmente ligadas as expectativas de ordem, desenvolvimento e progresso, mas elencado a lógica capitalista de oferta dos espaços.

As marcas do progresso que circularam por todo o ocidente nesse meio de comunicação estavam desmascaradas pelos dois grandes conflitos mundiais. Contudo, as tecnologias de transporte e de comunicação que se desenvolveram trouxeram novas concepções, não só proporcionou o acúmulo de riquezas, como ordenou às horas livres com a prática de atividades segmentadas que instituíram novas e diversificadas relações, entre elas o turismo. Para profissionais, como foi o caso do Jaeci, cabia registrar da melhor maneira possível às paisagens que surgiam como novas opções de fruição e de desejo. Pode-se inclusive afirmar que se criou uma necessidade turística vinculada ao desenvolvimento capitalista de formação de mercados, associado às imagens que circulavam divulgando paisagens. Viajar

transformou-se em um ícone de status e de desejo entre as diferentes camadas sociais.

Em Natal, estabelecia-se o desejo econômico e político em organizar a atividade. E esta é sentida em 1969, na revista o RN Econômico que publicou a seguinte nota:

Quatrocentas pessoas reúnem-se de 4 a 6 de dezembro em Natal, no auditório do SESC, para falar de turismo como forma desenvolvimento. Mas Natal poderá perder esta oportunidade ímpar de mostrar a sua vocação turística aos participantes do II congresso nacional de turismo, de vez que quase nada vem sendo cumprido de todo um planejamento feito pela SERETE que descobriu a vocação da Capital do Rio Grande do Norte e recomendou à Prefeitura uma série de medidas que permanecem engavetadas. Estas medidas visam o aprimoramento das belezas naturais da cidade que servem como ponto de atração turística, mas que estão abandonadas67.

Em sua crítica o autor mostra-se perplexo ante o descaso dado a atividade que acredita-se ser passível de resolver os problemas econômicos mais urgentes da capital. Uma vez que para ele a cidade é dotada de uma “vocação” turística por sua natureza exuberante. Contudo, como já vimos anteriormente, com o exemplo das diferentes percepções que circunscrevem o mar, estudadas por Alain Corbin (1982), podemos afirmar que nenhum lugar tem efetivamente vocação turística. O discurso de vocação turística de Natal é construído junto com as novas relações econômicas, políticas e sociais da cidade elencados a suposta tradição internacional que foi construída em torno da cidade, principalmente por sua posição geográfica que favoreceu a vinda dos aviadores franceses antes da guerra e do papel importante que, espacialmente, exerceu durante o segundo conflito mundial.

O evento realizou-se. Os visitantes foram recebidos em Natal pelo historiador e folclorista Câmara Cascudo, juntamente com uma comitiva de treze embarcações navegando pelo Rio Potengi. O fato ocorrido expressa uma das ações para a construção da ideologia de “vocação” turística da cidade de Natal. São imagens e imaginários vivenciados e registrados por Jaeci, que a uma observação mais atenta, se mostram fundamentais para o entendimento dos espaços turísticos hoje vividos em Natal. Um processo que depende de toda uma construção que envolve o local e o global que se inter-relacionam a todo o momento nas imagens vivenciadas e registradas por Jaeci.

Viajar é antes de tudo criar um imaginário do que se vai viver, antes experimenta-se os espaços, principalmente, por meio das imagens pré-visualizadas. Para mostrar aos que desejam a experiência turística é preciso ter esses espaços idealizados, planejados e materializados. Construção que começa sendo internalizado primeiro por meio da cidade e nesses termos Jaeci organiza visualmente todos os espaços de Natal. Um roteiro, que em Natal começa antes na visualidade dada nos cartões-postais. Dessa maneira, Jaeci liga-se ao turismo, revelando a cidade para o olhar do outro, um convite temático e estruturado. Cada um dos seus postais numerados e elaborados sequencialmente, ao qual tivemos acesso é essencial para a ideal compreensão da absorção desses artefatos e de como estruturam uma visualidade em relação com a atividade turística.

5 CENTELHAS DE UMA CIDADE TURÍSTICA NOS CARTÕES-POSTAIS DE