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Ao serem questionados a respeito do sentimento de estabilidade de emprego na instituição em que trabalhava, o medo emerge das falas dos entrevistados como forma de sofrimento vivenciado. Constata-se a percepção do espaço privado gerando um emprego transitório, com vínculo empregatício frágil e sob constante ameaça de desemprego, conforme vemos a seguir:

Não, porque já foi verbalizado varias vezes que quem não estivesse satisfeito, não quisesse se moldar, então... Sinta-se a vontade! E1.

Não, porque é empresa privada você não pode dizer que tem estabilidade nunca. Porque na hora que eu começar a colocar atestado médico eu sei que vão me convidar a sair. E3

O medo é uma emoção que está presente em todos os tipos de ocupações profissionais. O problema do medo no trabalho, por vezes, está aliado à instabilidade de emprego e ameaça de demissão1.

O temor da demissão condicionado ao medo de adoecer é velado. Alguns trabalhadores já encarava a doença de forma vergonhosa, evocada por justificativas, como forma de desculpar-se por estar doente. A culpa se refletiria como um sentimento coletivo de vergonha e toda doença seria, de alguma forma, voluntária e o afastamento resultante da preguiça1.

Os trabalhadores se veem obrigados a elaborar defesas específicas dirigidas a este sentimento frente à situação constante de instabilidade e de ameaça que é vivenciada nos tempos modernos. Isso é o principal responsável por fazer com que os trabalhadores se submetam à alta carga de trabalho, à negação da doença, a modos de trabalho inflexíveis e as jornadas extenuantes.

b. Má remuneração

Ao analisar o contexto histórico no qual a categoria de professor se insere percebe-se que a falta de remuneração adequada pode estar atrelada a deficiência de

mobilização politica do educador, bem como a expressiva presença do gênero feminino nessa classe. Além disso, a difícil tarefa de equacionar o tempo mobilizado pelos docentes em atividades fora da sala de aula no exercício da sua profissão agrava tal injustiça13.

Como vemos a seguir, a carência de remuneração adequada é um fator que propicia sofrimento aos trabalhadores entrevistados:

Se eu não tivesse o outro emprego... quem é feliz com um salário desses?E3

Aos professores ditos “horistas”, ou seja, remunerados por hora-aula e não são de dedicação exclusiva, o emprego de professor é secundário, complementado pela renda em outro emprego na assistência ou em outra instituição de nível superior. Assim, os sujeitos tendem a se sobrecarregarem em outras atividades fora da instituição de ensino pesquisada para garantir uma melhor remuneração.

c. Tempo

Quando se analisa a jornada de trabalho docente, deve-se levar em consideração a aferição do tempo despendido para planejamento e preparação de aulas, atividades de coordenação coletiva, correção de trabalhos e provas13.

Diante das condições oferecidas na organização de trabalho, o trabalhador fica exposto a uma situação psicológica penosa, conflitantes com os valores do trabalho aprimorado, o senso de responsabilidade e a ética profissional. Dessa forma, fonte frequente de sofrimento no trabalho ocorre quando o trabalhador é constrangido a executar mal o seu trabalho. Portanto, há o sofrimento dos que temem não satisfazer, não serem capazes de atender às imposições da organização do trabalho10.

Fica explicito com as falas apresentadas que os entrevistados percebem a carência de tempo para realizar todas as tarefas inerentes a sua função de professor:

Sempre precisa levar trabalho pra casa porque a carga horária da gente é hora-aula. [...] Ela é suficiente para dar a aula, o conteúdo da disciplina. Mas o restante do trabalho do professor que é preparar aula, preparar prova, a gente faz isso numa carga horária extra trabalho, não-remunerado. E2

Estou dando aulas aos sábados, à tarde, que não é meu horário de aula, porque eu sei que eles vão precisar. E7

Ao se sentirem pressionados diante da demanda, das determinações de prazos e a necessidade de produção do trabalho com esmero, os trabalhadores se submetem a essa situação levando trabalho para casa. Dessa forma, evidencia-se a naturalização do sacrifício do seu mundo privado para a realização das atividades laborais.

d. Autonomia e Liberdade

Pode-se dizer que o sofrimento pode ocorrer quando há um bloqueio da flexibilização entre o homem e a organização do trabalho; quando o trabalhador usou o máximo de suas faculdades intelectuais, psicoafetivas, de aprendizagem e de adaptação. Assim sendo, a desapropriação do know-how coletivo pela organização científica do trabalho traz a desapropriação do saber e a restrição da liberdade de invenção. Essa invenção seria fundamental para o trabalhador adaptar intuitivamente a organização do trabalho às necessidades do organismo e às suas aptidões fisiológicas1.

Ao analisarmos a questão da autonomia e liberdade em desenvolver seu próprio modo de trabalho, percebemos que os sujeitos respondem de forma divergente:

A gente acaba tendo que se moldar a uma coisa que não é do perfil da gente, a forma de trabalhar, para poder satisfazer aos alunos que acham que tem o direito de reclamar porque estão pagando. E2

Aqui eu tenho liberdade para trabalhar naquilo que eu acredito [...] Aqui eu tenho carta branca pra trabalhar da forma que eu acho melhor. E5

Por um lado, as características inerentes à instituição pesquisada, um espaço privado, a qual alunos são na verdade consumidores de um produto. Por essa razão, o desempenho criativo da função do docente seria de alguma maneira restrito, uma vez

que, o trabalho dos docentes deve se moldar à satisfação da clientela, conforme afirma E2.

A consciência das instituições de educação superior da necessidade do incremento em seu quadro docente profissionais mais qualificados gera uma importância estratégica aos docentes-pesquisadores que alimentam estatísticas, concorrerem a editais e promovem visibilidade para sua pesquisa e seu departamento, com o fito de levantar fundos, para si ou para a própria instituição14.

Assim, tal liberdade seria concedida indiscriminadamente aos docentes mais qualificados, tal como E5, em função da carência desses profissionais no mercado de trabalho. Sua permanência na instituição seria mais valorizada, requisitada em função da exigência do Ministério da Educação para compor o quadro de docentes.

2. O prazer no trabalho do enfermeiro docente