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6 Geometry of faulting

6.4 Results and comparison

Luís Gomes Ferreira esteve no Brasil um pouco antes de 1710. Em 1735 lança a primeira edição – e ao que estudos preliminares indicam, a única – do Erário Mineral, por praticamente três séculos.2A partir deste

período ele circulou primeiro pela região da Bahia e, posteriormente, atuou na região mineradora da Comarca de Sabará. A partir da experiên- cia acumulada na arte de curar no Brasil – especialmente com aqueles que estavam envolvidos direta ou indiretamente na atividade mineradora – escreveu o seu manual que ganhou o sugestivo título Erário Mineral.

Este tipo de publicação foi comum, neste período, tanto na Europa como nos Estados Unidos e buscava tanto auxiliar os que se ocupavam da arte de curar como atividade profissional como aqueles que eventual- mente tomavam as vezes de médicos ou curadores, especialmente na au- sência de profissionais devidamente qualificados (Rosenberg 1998; Savitt 2002). Este tipo de publicação auxiliava, de um modo geral, a população leiga que, nos momentos de necessidade, buscava se orientar a partir des- tes tratados. Mas não só os leigos se apoiavam neste tipo de publicação. Há referência de profissionais, com as respectivas formações acadêmicas, utilizando-se desses guias, como também dos chamados curandeiros e

2 Há uma referência, ainda não devidamente explorada, de que houve uma edição

intermediária organizada pelo próprio Luís Gomes Ferreira. O Erário Mineral recebeu uma edição fac-similar em 2001, organizada pelo Centro de Memória da Medicina da Faculdade de Medicina da UFMG. Um comentário sobre esta edição encontra-se em Fi- gueiredo (2001, 149). Em 2002 foi lançada uma edição, em português atualizado, orga- nizado por Júnia Ferreira Furtado, com edição da Fundação João Pinheiro e Editora Fio- cruz (Furtado 2002). Após praticamente mais de dois séculos sem ser reeditado o Erário Mineral recebeu duas edições em menos de dois anos.

curiosos em busca de orientação e credibilidade para continuar o exercí- cio de suas atividades.

É interessante observar que havia uma proibição quanto às edições do Erário Mineral, solicitada pelo próprio autor, Luís Gomes Ferreira, junto às autoridades portuguesas. De acordo com o proponente, a soli- citação fazia-se necessária considerando os altos custos de produção da obra. Nesse caso, o próprio autor seria o responsável pela comercialização do texto podendo, deste modo, recuperar o investimento realizado. A «provisão de privilégio» foi concedida em 22-11-1735, por dez anos, e significava que nenhum livreiro, impressor ou qualquer outra pessoa po- deria, durante esse período, imprimir, vender ou mandar vir de fora do Reino o dito livro.

O Erário Mineral iniciou sua circulação em Lisboa em 1735 e a dedi- catória é encaminhada «À puríssima Virgem Maria Nossa Senhora da Conceição, Mãe e advogada de todos os pecadores». Mesmo confiante na sua formação, que lhe conferia o título de cirurgião-aprovado, o mé- dico do século XVIIIsolicitava sempre a ajuda do mundo transcendente.

Com Luís Gomes Ferreira não foi diferente, daí a dedicatória à puríssima Virgem, acompanhada do pedido implícito de proteção. Luís Gomes Fer- reira estudou cirurgia em Lisboa no Hospital Real de Todos os Santos, ob- tendo carta em 1705. Trinta anos depois, com experiência acumulada no Reino e no Brasil, divulga sua grande obra. Boa parte da sua experiência foi adquirida no cuidado ao corpo doente da população que habitava as minas nas primeiras décadas dos oitocentos. Chegou ao Brasil antes de 1710 atuando inicialmente na Bahia. Depois dessa data circulou por várias localidades de Minas Gerais. São vários os casos de pacientes mineiros tratados por Gomes Ferreira citados ao longo do Erário Mineral.3

O Erário Mineral, dividido em 12 tratados, aborda os temas variados que poderiam auxiliar os enfermos nas regiões onde a existência de pou- cos médicos era regra. Trata-se assim de um verdadeiro guia indicando as doenças e problemas de saúde mais comuns para a população, não apenas das Minas Gerais mas de qualquer localidade onde a frequência

3 A estrutura do Erário Mineral, organizado em 12 tratados, assemelha-se – não por

acaso – a um dos primeiros tratados de geologia da História da Ciência Moderna. Birin- guccio Georg Bauer (Agrícola), nascido em Glauchau, Saxônia, em 1494, estudou medi- cina e praticava-a em uma das maiores regiões de mineração da Europa, Joaquimstal (Boê- mia). Neste caso escreve não um tratado de medicina, mas de geologia. As obras De ortu e causis subterraneorum e De natura fossilium, apareceram entre os primeiros tratados siste- máticos de geologia e mineralogia. O tratado De re metallica, publicado em 1556, um ano após sua morte, continuou sendo por dois séculos a obra fundamental de técnica mineral (cf. Rossi 2001, 77-78).

de médicos era baixa. As informações de que dispomos não nos possibi- litam afirmar, mas podemos indicar que médicos com as qualificações de Luís Gomes Ferreira (cirurgião-aprovado) também utilizavam-se do manual de saúde, isto sem contar com os práticos na arte de curar que não eram poucos diante da ausência de médicos formados.

O Erário Mineral não está sozinho neste ramo de publicação. Eram comuns obras nesse estilo visando socorrer aqueles que enfrentavam pro- blemas de saúde e os práticos/profissionais ou, para utilizarmos expressão da época, os versados na arte de curar, responsáveis por aliviar a dor e os males do corpo adoentado. Ao longo dos doze tratados do Erário Mineral podemos encontrar as doenças mais comuns, os remédios mais indica- dos, com suas respectivas formulações, o tratamento das fraturas e des- locamento dos membros, aspectos positivos e negativos da alimentação, permitindo um amplo leque de investigação sobre o mundo da cura no século XVIII: reconstrução do quadro nosológico, entendimento de corpo,

doença e saúde, e percepção dos procedimentos para restabelecimento do equilíbrio da saúde. Toda esta trajetória está pautada nos pressupostos da teoria dos Humores, herdada de Hipócrates e adaptada por Galeno.

O Erário Mineral cita vários exemplos colhidos da prática e experiência do autor na região mineradora das Minas Gerais. Mais um ponto inte- ressante para os pesquisadores do tema é o facto de ter sido possível de- senvolver investigação das doenças e condições de saúde presentes entre a população trabalhadora, basicamente mão-de-obra escrava, nas minas do século XVIII.

A utilização da aguardente vai muito além do aperitivo para despertar o apetite, para embalar as conversas, ou a ação das famosas e conhecidas bebidas espirituosas, como eram chamadas as bebidas alcoólicas nos sé- culos XVIIIe XIX. Trata-se de uma bebida destilada que teve muitas utili-

dades para as artes de curar nos séculos passados.

Especialmente ao longo de todo o século XVIII(provavelmente nos

séculos anteriores), nas andanças pelo interior de Minas Gerais e pelo in- terior do Brasil, a aguardente será utilizada das mais deferentes formas para fins medicinais. Em alguns casos é o meio de preparo de medica- mentos, base para elaboração de xaropes, utilizado para borrifar emplas- tros junto a pele, e de mais a mais, indicado como fortificante, revigorante e para consumo regular em doses comedidas, pois se não fizer bem, mal também não fará. Nos textos do século XVIIIa aguardente é considerada

um excelente medicamento para os mais diversos fins. Para utilizar a ter- minologia da época nas aguardentes, da terra ou do Reino, encontravam- se «virtudes singulares» (Furtado 2002, 344).

A forma como a aguardente era prescrita e indicada para fins medici- nais, ao longo do século XVIII, indica não apenas o modo de preparar o

medicamento ou o gosto pela bebida em si. Essas receitas e prescrições indicam uma forma de compreender o organismo, o que causa as doen- ças e o que é possível fazer para restabelecer o corpo doente. Entre uma receita e outra surge uma descrição de problemas físicos e uma lista de sintomas desagradáveis, que permite compreender uma forma própria para se lidar com o corpo, muito diferente dos conceitos e preceitos do mundo contemporâneo. Trata-se de uma concepção de saúde e doença e que envolve, necessariamente, os medicamentos e os profissionais ou responsáveis por atender as pessoas com dificuldades de saúde.

A medicina caminha de acordo com a interpretação das doenças, o entendimento do corpo e a noção de saúde. Cada época apoia-se em um corpo de profissionais ou não, todos considerados aptos para exercer as atividades das artes de curar: boticários, médicos, herbaristas, rezadores, cirurgiões, benzedores e muitos outros.

Há algumas situações em que há uma distinção entre aguardente e aguardente do Reino. O fato de acrescentar a procedência da aguardente muda a qualidade da mesma. A aguardente do Reino é considerada, nos tratados de medicina do século XVIII, de melhor qualidade comparada a

que foi produzida e consumida no Brasil. Até a aguardente do Reino atravessar o Atlântico e chegar ao Brasil um longo percurso é trilhado e cada milha navegada em direção a Colônia acompanha o aumento da sua raridade e do seu valor. Para fins medicinais a aguardente do Reino é indicada em situações especiais, considerando seu preço e sua raridade. Para o cotidiano das artes de manipular e fazer os remédios a aguardente da terra é indicada com fartura. Em grandes ou pequenas quantidades, com as mais variadas indicações, prevalecendo a via oral.

Há um grande mistério para definir o que realizava a cura no século

XVIII. Na realidade os cientistas discutem até os dias hoje o que significava

então adoecer e, consequentemente, restabelecer o estado de saúde. As noções de medicina e biologia disponíveis nos século XXe XXIdiferem

em muito, sem dúvida, das noções vigentes no século XVIII. Trata-se de

uma época em que as crenças religiosas e a crença em forças sobrenaturais prevaleciam diante do conhecimento racional e do conhecimento expe- rimental. Há que se considerar as limitações do conhecimento do corpo, das doenças, dos sintomas, dos agentes patológicos na época. Indepen- dente das pessoas de um período histórico conhecerem ou não os sinto- mas ou os agentes patológicos das doenças, as doenças existem e, em torno delas, foram construídas interpretações e modos de intervenção,

formas de classificação e buscas, em alguns casos desesperadas, de resta- belecer o equilíbrio da saúde perdido.

A botica das aguardentes: século XVIII

Para acompanharmos as mil e uma utilidades da aguardente para fins medicinais há que ter em consideração que as doenças, ao longo de todo o século XVIII, eram agrupadas em conjuntos a partir dos seus sintomas,

logo não havia um quadro nosológico muito preciso mas sim um quadro de sintomas e as melhores formas de intervenção e medicação. Um ótimo exemplo para acompanhar esta organização é a forma como encontra-se estruturada um dos manuais que circularam pelo Brasil e por Portugal ao longo do século XVIII. Trata-se do Erário Mineral de autoria do cirurgião

português Luís Gomes Ferreira.

Ao longo de todo o texto do Erário Mineral observa-se uma preocu- pação, característica do homem do período moderno, de apresentar-se à sociedade de forma útil. Tratava-se de reforçar o conhecimento cons- truído a partir da experiência cotidiana, das atividades de observação, do resultado apurado a partir de erros e acertos. Neste sentido a prática e a experiência sobressaiam diante da literatura clássica, dos estudos acadê- micos pautado nos textos clássicos.

Aguardente e os ossos quebrados, os deslocamentos