De acordo com Paz, Neiva e Dessen (2012) jamais se falou tanto em saúde, bem-estar, direitos, justiça social, trabalho decente e dignidade humana. Essas discussões refletem a preocupação da humanidade com o equilíbrio entre o ambiente e o homem. Esse equilíbrio vem sendo buscado de diversas formas. Entretanto, o objeto final é sempre a felicidade das pessoas.
Analisando-se da perspectiva sociopolítica, uma das formas de se assegurar o bem- estar é o de direitos, que aborda de que forma os direitos humanos vêm sendo tratados e de que forma isso pode contribuir para a promoção do bem-estar. Trata-se, portanto, da integração de normas e princípios de direitos humanos, transformando-os em ações concretas como políticas e processos de desenvolvimento (PNUD, 2014).
O Bem-Estar traz em seu bojo, elementos de subjetividade, de condições objetivas do ambiente físico e de relacionamento. Essa composição nos reporta, novamente, ao contexto do direito e da reciprocidade (Paz; Neiva; Dessen, 2012). Nesse sentido, destaca-se a importância
de análises que coloquem um olhar acerca da perspectiva feminina, de mulheres em vulnerabilidade social, com o objetivo de construir políticas públicas referendadas nessas opiniões.
O bem-estar e a saúde têm levado a uma grande produção de estudos e pesquisas a respeito do tema. No entanto, a imprecisão conceitual tem sido predominante, mostrando que não há distinção entre os termos bem-estar, saúde e qualidade de vida. As diversas áreas que abordam o conceito também revelam interesses diferentes ao tratarem do tema. Por exemplo, as ciências da saúde enfatizam o bem-estar físico, seus sinais e sintomas. Os economistas se preocupam com o bem-estar da população por meio de fornecimento de bens e serviços e os psicólogos enfocam a satisfação de aspirações e expectativas individuais como forma de assegurar o bem-estar (Akutsu; Paz, 2011).
Neste trabalho, o Bem-Estar é abordado do ponto de vista da psicologia, na medida em que este trabalho investiga o bem-estar de mulheres em vulnerabilidade social.
De acordo com Albuquerque e Tróccoli (2004), duas correntes podem ser destacadas na área: a do Bem-Estar Psicológico e a do Bem-Estar Subjetivo - BES, e a principal diferença entre eles está na concepção de felicidade adotada.
A abordagem psicológica adota a visão eudamônica5 de bem-estar e está centrada na experiência de expressividade pessoal e de auto-realização. O afeto e a satisfação com a vida têm sido utilizados como indicadores de Bem-Estar Psicológico (Bendassolli; Borges- Andrade, 2015; Paz; Neiva; Dessen , 2012).
O BES, por sua vez, trabalha com a concepção hedônica6 de que o bem-estar compreende a experiência de prazer versus desprazer, que decorre de julgamentos individuais acerca dos elementos positivos e negativos da vida, ou seja, é a ocorrência de afetos positivos frequentes, rara experiência emocional negativa e a satisfação com a vida como um todo (Bendassolli; Borges-Andrade, 2015; Paz; Neiva; Dessen, 2012).
Siqueira e Padovam (2008) referem que os pesquisadores preocupados em compreender o processo que sustenta a felicidade, analisam a satisfação e a própria felicidade. Destacam também, o caráter multifacetado desses processos e que esses são acessados por meio de avaliações emocionais e cognitivas do cotidiano desses indivíduos.
5 Bem-estar eudamônico se refere ao funcionamento das potencialidades humanas ou de auto realização (Silva; Borges; Barbosa, 2015, p. 131).
6 Bem-estar hedônico aborda o estado subjetivo de prazer ou felicidade (Silva; Borges; Barbosa, 2015, p.131).
Os estudiosos consideram que o BES é formado por três componentes: A satisfação com a vida (avaliação ampla acerca da sua própria vida); afetos positivos; e afetos negativos (Barros; Moreira, 2014; Rapkin; Fischer, 1992).
Na década de 1960, foi disseminado por pesquisadores renomados como Andrews e Withey (1976) e Campbell, Converge e Rodgers (1976) que o entendimento de que mesmo que as pessoas vivam em ambientes objetivamente definidos, elas respondem às suas experiências subjetivas.
Para Diener, Suh, Lucas e Smith (1999) e De Neve e Cooper (1998) a falta de consenso sobre o conceito e a composição do Bem-Estar Subjetivo dificultou desde a sua concepção à sua mensuração. Entretanto, Bradburn (1969) e Campbell, Converge e Rodgers (1976) já indicavam nos estudos iniciais, os fatores positivos e negativos e a satisfação com a vida como componentes do BES.
Adota-se neste estudo o pressuposto de que o BES compõe uma área de pesquisa dedicada a compreensão da avaliação dos indivíduos quanto à satisfação com as suas vidas e que um nível de Bem-Estar Subjetivo adequado ocorre, a partir de uma elevada frequência de experiências positivas e baixas frequências de experiências negativas (Diener; Suh; Oishi, 1977).
No Brasil, diversos pesquisadores também se dedicaram À compreensão do BES e ao desenvolvimento de instrumentos de medida como Siqueira, Martins e Moura (1999) e Albuquerque e Tróccoli (2004). Sendo que os últimos autores desenvolveram e validaram uma escala com 62 itens, sendo 21 aspectos positivos, 26 negativos e 15 itens relacionados à satisfação com a vida. Os primeiros 47 itens apresentam um índice de precisão de 0,95 e os itens ligados à satisfação com a vida, um alfa de Cronbach de 0,90 mostrando a precisão do instrumento. Tal instrumento foi validado em uma amostra com 795 policiais do Distrito Federal, 74% (n=588) do sexo masculino e a maioria (56,5%; n= 449) com nível de escolaridade superior incompleto.
Furtado et al. (2012) com o objetivo de avaliar o BES em 40 participantes do Programa Mulheres Mil, aplicaram, em três etapas, diferentes instrumentos (Questionário de Saúde Geral, Escala de Autoestima de Rosenberg (1965), Escala Hospitalar de Ansiedade e depressão (Zigmond; Snaith, 1983), Escala de Afetos Positivos e Negativos e de Satisfação com a Vida (Diener; Emmons, 1984; Pavot; Diner, 1993, respectivamente). Os resultados indicaram que as participantes melhoraram, significativamente, os níveis de saúde geral. Os autores conjecturaram a influência da linguagem sobre os resultados não significativos na comparação dos três momentos de aplicação dos instrumentos. Cabe ressaltar que Furtado et
al. (2012) não referem realização de ajustes de linguagem dos instrumentos adotados à população do estudo.
Os indivíduos privados de acesso à alimentação adequada, frequentemente apresentam alterações do seu estado de saúde física em comparação com os indíviduos em segurança alimentar. Além da saúde, a insegurança alimentar também compromete o bem-estar dos indivíduos (Stuff et al., 2004; Temple, 2008; Vozoris; Tarasuk, 2003).
Mesmo diante das discordâncias teóricas, relacionadas à conceituação do Bem-Estar Subjetivo, existe segundo Anguas (1997), Martinez e Garcia (1994) um consenso quanto às dimensões do BES e por isto, os pesquisadores vêm obtendo resultados positivos em suas pesquisas (Albuquerque; Tróccoli, 2004; Rapkin; Fischer, 1992; Siqueira; Martins; Moura, 1999).
Destaca-se, portanto, a importância da mensuração do BES como forma de verificar mudanças na percepção do bem-estar de mulheres em vulnerabilidade sócia participantes do Programa Mulheres Mil.
3 CAPÍTULO 2 OBJETIVOS E MODELO TEÓRICO