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2. Regnskapsvariablene

2.1. Resultatregnskapet

O intercessor encarnado, após o término da intercessão, produz conhecimento sobre sua práxis na relação com os sujeitos do fazer-saber que configurou o campo de intercessão e não sobre a práxis desses sujeitos. Este é o DIMPC, que se configura como um “saber em extensão” – um saber do intercessor sobre seu lugar, função, finalidade e ética na práxis, ou seja, um saber da práxis de intercessão; um saber sobre o saber na práxis –, conforme a psicanálise de Jacques Lacan (JULIEN, 2002 apud COSTA-ROSA, 2008), e um “saber como guia para a ação” – produzido para operar como uma oferta de possibilidade para outros intercessores –, conforme a sociologia crítica de Boaventura de Souza Santos (SANTOS, 2000 apud COSTA-ROSA, 2008).

Para Lacan, de acordo com Costa-Rosa (2008), práxis é um fazer-saber, existindo um saber inerente ao fazer mesmo que o sujeito não saiba. O saber se desdobra do fazer. O princípio do intercessor é retomar o saber que existe em todo o fazer. A Universidade produz um saber sobre o fazer-saber dos outros e é com essa perspectiva que o intercessor- pesquisador rompe ao produzir um saber sobre o seu próprio fazer na práxis de intercessão.

É por isso que somente depois de transcorrido algum tempo da intercessão vivenciada é que o intercessor-pesquisador se volta para a tarefa específica de analisar o processo, buscando elementos para a construção da argumentação em torno das questões que orientam a sua meta de produção de conhecimento. Assim, começa sua práxis de intercessor- pesquisador. É importante afirmar que incluirá saber sobre o campo da intercessão em sua complexidade, mas indubitavelmente não é um saber que pretenda usurpar o saber dos sujeitos da práxis cotidiana.

O conhecimento a ser produzido pelo intercessor-pesquisador não necessariamente retorna ao campo onde realizou a intercessão, porque se espera que os sujeitos que o compõem produzam seu próprio Saber/conhecimento em sua relação com o intercessor- encarnado. No DIMPC, a intenção continua sendo recuperar o movimento da práxis, agora no campo da instituição Universidade e não mais no campo de intercessão.

Para Pereira (2011), o DIMPC realiza a crítica ao saber enciclopédico da Universidade ao tentar desconstruir a exclusão da subjetividade e a alienação dos sujeitos submetidos ao “suposto saber” ainda presentes nas atividades de pesquisa. Rompe com a perspectiva de ciência que se fundamenta na busca por uma realidade e verdade únicas, e busca produzir sujeitos que superem o saber-repetição.

[...] o intercessor-pesquisador, agora centrando sua ação na produção de um conhecimento sobre os processos de produção do saber na práxis em geral coloca-se como agente questionador do saber instituído, pretendendo fazer movimentar-se a rede de conceitos e significantes instituídos (PEREIRA, 2011, p. 28).

Tendo como contribuição a concepção de dialética no Materialismo Histórico, o DIMPC considera que na produção de conhecimento não existe dissociação possível entre “visão de mundo, método de conhecer e práxis” (FODRA, 2007, p. 94). Por essa via, o conhecimento produzido pelo intercessor-pesquisador recupera o movimento da práxis porque, mesmo derivando de sua própria práxis no campo da intercessão, está inscrito na

práxis da Universidade, denominada por Costa-Rosa (2008) como práxis universitária. Por

ser um saber da e na práxis não se inscreve na divisão social do trabalho acadêmico fundamentada na dissociação entre fazer e pensar, ainda muito presente no Discurso Universitário.

A diferença na produção de conhecimento na relação com o outro e não sobre esse outro está no fato do intercessor-pesquisador assumir o posicionamento ético de questionar os saberes por ele produzidos em sua práxis de intercessor encarnado. Lembrando que estes não são para os sujeitos da práxis no campo da intercessão que produzem seu próprio fazer-saber, mas sim para que sejam operadores na produção de outros possíveis intercessores. Entretanto, não se pretende que esse seja um processo formativo de intercessão circunscrito ao binômio ensino-aprendizagem.

Para o DIMPC interessa um agente produtor de conhecimento de outro tipo, a fim de se inserir a partir da ética de superação da divisão social do trabalho (entre fazer e saber). Por isso, no DIMPC o agente não é um pesquisador interventor, nem mesmo um pesquisador participante ou um pesquisador cartógrafo. Ele é um ‘intercessor encarnado’ inserido no movimento da práxis (com seus agentes necessariamente produtores de saber e conhecimento) (PEREIRA, 2011, p. 29).

O Dispositivo Intercessor toma a noção de campo como o território da realidade concreta e da intersubjetividade onde se dá o encontro entre a práxis dos sujeitos que compõem esse território – caracterizando o campo de intercessão – com a práxis do intercessor encarnado. Esta vai para além da intervenção porque sua ação não se esgota no próprio campo, pois é a partir e a posteriori dele que é construída a práxis universitária do intercessor-pesquisador como um Meio de Produção do conhecimento.

Na produção de conhecimento em sua práxis universitária (DIMPC), o intercessor- pesquisador tem como ferramenta a análise de implicação a respeito dos lugares que o intercessor ocupa no campo da intercessão e o seu envolvimento pessoal com o mesmo, bem

como dos jogos de interesse e de poder presentes nesse campo dos quais o intercessor também participa. De acordo com Lourau (2004), pode-se pensar a implicação como a não existência da neutralidade científica porque, ao se relacionar com o campo, o analista institucional e o intercessor encarnado estão sempre implicados neste, modificando-o e transformando-o com sua ação. Além disso, mesmo quando se esquecem disso, o analista institucional e o intercessor encarnado, ao se fazerem presentes no grupo, constituem-se como seus integrantes.

De acordo com Passos e Barros (2000), a análise de implicação como uma ferramenta importante para a Análise Institucional inclui uma análise do sistema de lugares, o assinalamento do lugar que se ocupa, daquele que se busca ocupar e do que lhe é designado ocupar.

[...] os socioanalistas cunham o termo análise de implicação para pôr em evidência o jogo de interesses e de poder encontrados no campo de investigação. O princípio norteador deste procedimento é o de que a aproximação com o campo inclui, sempre, a permanente análise do impacto que as cenas vividas/observadas têm sobre a história do pesquisador e sobre o sistema de poder que legitima o instituído, incluindo aí o próprio lugar de saber e estatuto de poder do ‘perito-pesquisador’ (PAULON, 2000, p. 23).

É importante lembrar que a intercessão não é pesquisa e, portanto, as designações de “pesquisador” e “perito-pesquisador” presentes na citação acima não caracterizam o intercessor encarnado como operador em sua relação com o campo de intercessão, embora se possa considerar que nessa relação também exista impactos sobre a história do intercessor, sobre o instituído institucional e também sobre o lugar de saber e de poder do intercessor a ser desconstruído após ter sido, inicialmente, ocupado. Lembrando também que, ainda assim, as relações de saber e poder estão mantidas, mesmo estas não sendo da ordem da dominação.

Em uma revisão bibliográfica sobre o conceito de implicação, Lourau (2004) apresenta sua gênese teórica no tocante aos usos epistemológicos, sociológicos, psicológicos dessa noção: Bastide (1950), Piaget (1950; 1977), Devereux (1967; 1980), Lourau (1969; 1981; 1987; 1988), Bohm (1980; 1987) e Morin (1982; 1986). Questiona sua gênese social no que se refere ao uso voluntarista, produtivista, utilitarista, supostamente pragmático do termo implicação (uma mescla de influências cristãs, existencialistas, fenomenológicas, psicologistas).

O mesmo autor se remete ao que Jules Celma (1971 apud LOURAU, 2004, p. 189) chama de “exploração da subjetividade”, que sucede à exploração do homem no trabalho alienado, e propõe o termo sobreimplicação para designar uma derivação do conceito de

implicação relacionada à subjetividade-mercadoria. Configura-se como uma ideologia normativa que opera nos processos de captura não mais somente da força de trabalho, mas também da subjetividade do trabalhador, incitando-o a “implicar-se”, a envolver-se, a vestir a

camisa da empresa.

A sobreimplicação também interfere na análise da implicação quando isolamos um dos campos de análise, psicologizando-o ou sociologizando-o ou psicanalitizando-o.

A sobreimplicação é algo muito possível de acontecer no cotidiano de uma pesquisa de campo quando o pesquisador, ao invés de atuar como um intercessor, assume a postura de ditar as normas científicas e a melhor maneira de funcionamento do grupo, organização ou instituição para provocar movimentos de adesão às atividades por ele propostas e desencadear processos que coadunem com seus objetivos.

Decorre disso a importância da análise da implicação do intercessor como uma dimensão ética em sua relação com o campo onde está inserido. Importante, ademais, o exercício da vigilância epistemológica durante o processo de imersão no campo, principalmente para não ratificar a prática social cotidiana pautada pelo modo de subjetivação capitalístico de ciência que busca identificar, classificar e normatizar, categorizando.

2.3 POR UMA EPISTEMOLOGIA DE REFERÊNCIA PARA O ENCONTRO DA