O DI como práxis de intercessão se configura como um conhecimento em ação que acontece no campo de intercessão, sendo este o fazer-saber dos sujeitos da práxis, no qual se é possível engendrar a própria “produção da ação” por esses sujeitos, mesmo que seja na práxis de transformação (COSTA-ROSA, 2008). É, também, um “saber em intensão” – um saber da
práxis que inclui o intercessor, nesse caso encarnado em um agente, em um coadjuvante –
conforme a psicanálise de Jacques Lacan (JULIEN, 2002 apud COSTA-ROSA, 2008) e um “saber na ação” – que é produzido no cotidiano das práticas sociais, compreendendo que não há prática sem saber correspondente capaz de responder satisfatoriamente à sua complexidade – conforme a sociologia de Boaventura de Souza Santos (SANTOS, 2000 apud COSTA- ROSA, 2008).
No DI como “saber em intensão”, a posição do intercessor encarnado em sua relação com os sujeitos da práxis ocupando o lugar de “+1” como o “sujeito suposto saber” em Lacan, para depois desocupá-lo – desconfigurando a dissociação cartesiana entre fazer e saber – tem como referência teórica o conceito de “ignorância douta”.
A ignorância douta é um conceito da psicanálise lacaniana que nos ajuda a entender o não-lugar do intercessor encarnado que age no campo da transferência ocupando provisoriamente o lugar de ‘sujeito-suposto-saber’ em sua relação com o campo de intercessão. Esta se refere a ‘um saber que conhece seus limites, e seu limite essencial é não poder produzir saber pelo outro’ (STRINGHETA; COSTA-ROSA, 2007, p.154).7
O intercessor encarnado não faz pesquisa no campo de intercessão, seu propósito é a transformação deste e também do modo de produção de conhecimento que não se constrói
sobre e para o campo e, sim, a respeito de sua própria ação junto a este.
7 Essa posição de não-lugar ocupada pelo intercessor encarnado ao assumir sua “ignorância douta” favorece a
participação democrática no processo de autogestão, imprescindível ao trabalho na ECOSOL, por desconfigurar a relação hierárquica de poder relacionada ao acesso ao conhecimento científico, principalmente por esse também ter seus limites quando se trata da relação com o outro.
Nesse sentido, para Costa-Rosa (s/d), o intercessor encarnado é um agente, uma função, um acontecimento, uma ação. Para o autor, existe um saber sobre a práxis, sobre as apreensões do coletivo. Há um campo do qual emerge uma demanda social – pulsações articuladas dialética e rizomaticamente e, nele, a intercessão acontece na relação com um grupo de sujeitos da práxis, ou mesmo apenas com um desses sujeitos.
O intercessor no DI, ao agir nas brechas do saber instituído, pode vir a colocar em movimento a potência instituinte do grupo ou da instituição onde está inserido, provocando um processo de produção de singularidades pelos sujeitos da práxis onde os saberes institucionais a respeito da relação entre loucura e trabalho possam ser revelados e, assim, ser modificados criticamente pelos que estão inseridos nos dispositivos da SM.
Tal fenômeno pode vir a ser uma importante ação de contra-hegemonia em relação ao discurso instituído de incapacidade para o trabalho dos sujeitos da experiência da loucura, que os empurra para a busca pelos Benefícios de Prestação Continuada (BPC) e pela aposentadoria.
Dessa maneira, reafirma-se a ética do DI de se conceber os sujeitos da práxis como protagonistas na produção das mudanças e rupturas a serem realizadas na estrutura social dominante em que estão inseridos, ou seja, que estes ocupem seu lugar de agentes e sujeitos no laço social.
[...] um pouco diferentemente da psicanálise – que trabalha com o material surgido espontaneamente dos sujeitos – e também da análise institucional – que se propõe a uma intervenção –, o dispositivo intercessor parece situar-se num ‘entre’ dessas duas concepções de ação. O que o dispositivo intercessor faz é apontar, catalisar, disparar a partir de sua inserção, em suma, o que se faz é uma provoc-ação (MARTINI, 2010, p. 44).
O conceito de analisador da Análise Institucional (AI) nos é muito importante, tendo em vista que existe uma correlação possível entre esse conceito e o de intercessor no DI. Assim como o analisador, o intercessor pode ser um acontecimento ou fenômeno que produz uma crise ao trazer à tona elementos instituintes (discurso da minoria) em contraponto ao instituído (discurso dominante) de uma determinada instituição, provocando-a a falar, a expressar o não-dito institucional através de uma demanda endereçada ao analista institucional ou ao intercessor encarnado.
Nesse sentido, após a inserção no campo, tanto o analista institucional como o intercessor encarnado buscam agir nas brechas do instituído, trazendo à tona as forças instituintes com potência de colocar em movimento o campo no qual estão inseridos e do qual
participam, produzindo interferências neste sem tomar a experiência dos sujeitos que o compõem como algo a ser estudado.
Existe, entretanto, uma diferença fundamental entre o processo de intervenção realizado pelo analista institucional no âmbito da Socionálise (AI em situação de intervenção) e o processo de intercessão realizado pelo intercessor encarnado. Na AI, intervir significa provocar a instituição a produzir sua autoanálise através da participação coletiva de seus integrantes no exercício da autogestão, sendo o analista institucional, como staff-analítico, o agente deflagrador desse processo.
A posição ocupada pelo analista institucional, nessa relação com a instituição, é considerada por Pereira (2011) uma manutenção da “divisão fundamental do trabalho que separa os pensadores e os executores”. O DI, para a mesma autora, assume a dimensão ética de operar junto ao campo de intercessão, tendo como fundamento a “inclusão dos atores institucionais enquanto sujeitos capazes de introduzir rupturas e mudanças” (PEREIRA, 2011, p. 17, nota de rodapé); ou seja, como agentes ativos de seu próprio processo de mudança que acontece na relação com outro, que atua como coadjuvante sem ocupar a posição de ser o deflagrador desse processo.
Na práxis de intercessão (DI), temos como ferramentas metodológicas o diário de
campo, como um guia para a ação no campo da intercessão e para a elaboração teórica a partir
da análise de implicação do intercessor; e a análise de implicação a respeito dos lugares que o intercessor ocupa no campo da intercessão e o seu envolvimento pessoal com o mesmo, bem como dos jogos de interesse e de poder presentes nesse campo, dos quais o intercessor também participa.
Ambas são contribuições da AI em Lourau (2004). Da Esquizoanálise em Rolnik (2007), temos a cartografia como uma maneira de entender as estratégias de formação do desejo no campo da intercessão, inventando ações contextualizadas tanto neste como na sensibilidade do intercessor encarnado ao se relacionar com os sujeitos da práxis.
Lourau (2004) define o diário de campo como uma ferramenta para a análise das implicações de seu autor. Este se configura como um diário de anotações para o intercessor no campo como uma vinheta – elaboração de raciocínios ilustrados com os acontecimentos que os promoveram, tendo como referência a Cartografia (COSTA-ROSA, s/d).
Na cartografia, Rolnik (2007, p. 23) considera que as paisagens psicossociais também são cartografáveis. Sendo assim, a cartografia acompanha e se faz ao mesmo tempo em que certos mundos se desmancham, perdem sentido, e outros mundos são formados, se criam para expressar afetos contemporâneos. As estratégias de formação do desejo no campo social são o
que o cartógrafo, assim como o intercessor encarnado no DI, busca entender através da invenção de pontes de linguagem em sua travessia de encontro com o outro e de procedimentos em função do que pede o contexto onde se encontra. Assim como de sua sensibilidade ao se relacionar com os que compõem esse contexto.
Pereira (2011) considera que parece existir, na Cartografia, uma centralização no cartógrafo pesquisador como “agente produtor de conhecimento”, sendo essa produção decorrente de sua própria ação sobre os processos que acontecem na paisagem a ser cartografada. Apesar dessa questão, a autora reitera que não se trata de criticar todos os fundamentos da Cartografia, porque existe uma dialogia possível entre esta e o DI, por sua importante interlocução com a práxis de intercessão do intercessor encarnado ao ponto do DI poder ser considerado, por Costa-Rosa (Comunicação pessoal em 23/11/2010), como uma cartografia.
A inserção do cartógrafo mantém semelhanças com a do intercessor encarnado, mas existem algumas peculiaridades a serem consideradas no tocante ao modo de fazê-la na relação com os sujeitos que compõem o campo. O cartógrafo, mesmo não buscando a constatação dos fatos e a sustentação da verdade, mantém a perspectiva da centralidade no processo de criação e de implicação do autor (artista, pesquisador, cartógrafo) que busca produzir conhecimento a partir da “aprendizagem e experimentação de novas formas de se abordar o objeto de estudo. Isto é, construir modos mais criativos de um fazer científico” (MAIRESSE, 2003, p. 261).
Tal dimensão não está presente na ética do intercessor encarnado ao atuar como cartógrafo quando ocupa a posição de +1 e, depois, de um a mais junto aos sujeitos da práxis no campo de intercessão. Nessa condição, realiza a intercessão ao se inserir na práxis do coletivo, acompanhando seus movimentos, atuando no que os trava e buscando ampliá-los sem ocupar o lugar de pesquisador nessa relação, porque na intercessão não se faz pesquisa.
O intercessor encarnado não produz conhecimento sobre o outro. No campo da intercessão, não lhe cabe a tarefa de produzir algo porque, como coadjuvante, participa dos processos engendrados pelo fazer-saber dos sujeitos da práxis com os quais se relaciona. Sua tarefa de produzir conhecimento se dá a posteriori de sua saída do campo de intercessão quando desenvolve sua práxis universitária no âmbito do DIMPC, onde não atua mais como um cartógrafo.
Outra ferramenta, por mim introduzida como contribuição ao DI, foi a constituição das OGTR no contexto do CAPS como grupos operativos tendo como referência as discussões teórico-práticas de Pichon-Rivière (2005) sobre a noção de processo grupal.
2.2 O DISPOSITIVO INTERCESSOR COMO MEIO DE PRODUÇÃO DE