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A crença messiânica, presente em diversas culturas, aparece em Portugal como um dos principais alicerces do patriotismo. Segundo J. Lúcio de Azevedo em A Evolução do Sebastianismo (1947), ela surge em período de aparente grandeza, quando há o declínio do brilho de África e Índia para Portugal, afirma-se quando os portugueses perdem a autonomia de sua nação e fortifica-se nos difíceis momentos de sujeição ao reino de Castela; assim sendo, ocorre muito antes do famoso mito do sebastianismo, por já haver “a esperança na vinda de um rei predestinado, e os anelos do que ele havia de realizar.” (AZEVEDO, 1947, p. 8). O primeiro profeta a predizer a vinda de um líder que elevaria o povo português foi Gonçalo Anes, o Bandarra, sapateiro de Trancoso que fazia suas revelações por meio de trovas.
António Machado Pires em D. Sebastião e O Encoberto (1982) nos coloca que: “O messianismo português (de que o sebastianismo é uma fase) originou-se não de uma psicologia de raça, mas de condições sociais semelhantes às dos judeus.” (p. 17). O mito messiânico criado em torno do rei D. Sebastião está relacionado à libertação do povo português já que no caso do regresso garantiria a independência, coloca-se, portanto, em D. Sebastião as esperanças da libertação pela necessidade de concretizar a aspiração em uma pessoa que dê realidade à crença messiânica.
Em Mensagem (1934), Fernando Pessoa traz uma voz literária expressiva acerca do sebastianismo com citações diretas e também por meio de símbolos. É empregado um olhar de destaque para a história do rei que, como visto por meio do percurso histórico, foi o último da dinastia de Avis. Ao longo dos poemas nota-se o sebastianismo como meio de se traçar e reconstituir a identidade da nação.
A obra dividida em três partes – “Brasão”, “Mar Português” e “O Encoberto” – refaz o caminho traçado por Camões n’Os Lusíadas, entretanto, traz um D. Sebastião “elaborado pelo sebastianismo e pela humilhação, esse é o Encoberto, o Desejado, uma sombra, um mito.” (COELHO, 1983, p. 106) e, por essa razão, compreende-se que enquanto Camões põe à vista a memória e a esperança, Pessoa traz a utopia.
Os poemas analisados em seguida, se destacam pela sua dedicatória explícita à D. Sebastião de maneira a fazer com que se atente para sua importância histórica. Em
“D. Sebastião Rei de Portugal”, localizado na primeira parte de Mensagem nomeada “Brasão”, a voz do eu lírico aparece como a voz do próprio rei que se mostra um possível louco sonhador.
QUINTA D. SEBASTIÃO REI DE PORTUGAL
Louco, sim, louco, porque quis grandeza Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza; Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há. Minha loucura, outros que me a tomem Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem Mais que a besta sadia, Cadáver adiado que procria? (PESSOA, 1992, p. 45)
O eu lírico em primeira pessoa apresenta um monólogo onde são expostos os sentimentos de quem fala como se tratasse de um discurso oral acerca dos atos heroicos portugueses. Há a repetição da concepção de loucura com o emprego do adjetivo “louco” no primeiro verso da primeira estrofe; do substantivo “loucura” na segunda estrofe e por meio da ideia de aventura ilustrada no poema. Assim, reforça-se o olhar para a febre portuguesa pelas conquistas colocando em vista a perspectiva de que sem “loucura” não há vida, como se a ambição fosse o fundamento da existência humana. Neste anseio de transposição, observa-se que há a divisão do homem em passado e futuro, isto é, do homem que foi e morreu e do homem que virá “Por isso onde o areal está/Ficou meu ser que houve, não o que há.”. Pontua-se, deste modo, o olhar para o futuro.
Outro poema representativo da temática abordada é “A Última Nau”, que compõe a segunda parte da obra nomeada “Mar Português”. O poema traz a partida como temática e reforça o olhar do eu lírico para a morte e para o mistério. Fortalecendo os laços do português com o mito e com o messianismo, o poeta recobra a crença na reviravolta da nação.
A ÚLTIMA NAU
Levando a bordo El-Rei D. Sebastião, E erguendo, como um nome, alto o
pendão Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol aziago
Erma, e entre choros de ânsia e de pressago Mistério.
Não voltou mais. A que ilha indescoberta Aportou? Voltará da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro, Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro E breve.
Ah, quanto mais ao povo a alma falta, Mais a minha alma atlântica se exalta E entorna,
E em mim, num mar que não tem Tempo ou ‘spaço, Vejo entre a cerração teu vulto baço Que torna
Não sei a hora, mas sei que há a hora, Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora Mistério.
Surges ao sol em mim, e a névoa finda: A mesma, e trazes o pendão ainda Do Império.
(PESSOA, 1992, p. 72-73)
Com abordagem marcando a despedida embasada no mito do sebastianismo, o título remete à embarcação que levou o rei D. Sebastião à batalha de Alcácer Quibir. Lembrando que na batalha o exército português foi dizimado, o rei desapareceu, colocando fim à dinastia a que pertencia, já que não havia herdeiros e o reino português ficou nas mãos do rei espanhol Filipe II, fazendo com que os portugueses perdessem sua independência por sessenta anos. O inconformismo do povo português resultou na criação da lenda de que o rei D. Sebastião estaria vivo e aguardando o momento certo de retornar ao trono.
O eu lírico narra a partida de D. Sebastião como um momento de tristeza, mas também como uma ilustração de sua supremacia, pois afirma “E erguendo, como um nome, alto o pendão/Do Império...”, isto é, ergue-se a bandeira portuguesa, para
evidenciar o poder da nação. A primeira estrofe também traz luz à imagem de mau agouro por meio da adjetivação “sol aziago” e “choros de ânsia e de pressago”.
Como na história, o eu lírico coloca que não houve o retorno da nau, não se sabe o paradeiro de D. Sebastião e há questionamento sobre o futuro que se mostra desconhecido (“sonho escuro”), mas que não tardará a chegar (“E breve”). Ao final do poema há o retrato do olhar do poeta acerca da volta do rei. Enquanto o povo está desalentado (“a alma falta”), mais a esperança do eu lírico se extravasa na ideia do retorno de D. Sebastião, de maneira que ele pode vislumbrar o vulto que regressa. Não se sabe o tempo exato, mas sabe-se que haverá o momento de retorno que trará consigo a reconstrução do império português.
O poema explicita a esperança da reestruturação da identidade nacional por meio do retorno do rei. A exaltação da nação portuguesa ocorre por meio da descrição de um fato histórico de luta e perda, utilizando os versos como veículo de encorajamento para a fé no futuro.
Um terceiro poema em que é possível ser destacada a temática messiânica é “O Desejado” localizado na terceira parte da obra intitulada “O Encoberto”. Neste ponto de Mensagem o mito do sebastianismo nos aparece de forma a remeter ao rei morto.
TERCEIRO
O DESEJADO
Onde quer que, entre sombras e dizeres, Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres Para teu novo fado!
Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo, Mas já no auge da suprema prova, A alma penitente do teu povo A Eucaristia Nova.
Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido, Excalibur do Fim em jeito tal
Que sua luz ao mundo dividido Revele o Santo Gral!
O discurso poético em segunda pessoa assemelha-se a uma prece. No início do poema há o clamor para o retorno do rei que, apesar de morto, tem sua volta ansiada. Pede-se “[...] ergue-te do fundo de não seres/Para teu novo fado!”, pontuando a ausência de ser, isto é, do existir ocasionada pela morte e, ainda, a importância do regresso para que se cumpra uma nova missão.
É nítida a relação da volta do rei com o Cristianismo e com a vinda do Messias. O eu lírico compara o rei com Galaaz, que foi um dos cavaleiros da Távola Redonda, além de um dos três que conseguiu alcançar o Santo Gral e que, assim como ele, partia em busca da Eucaristía. O rei é chamado de “Mestre da Paz” relacionando-o, portanto, com Cristo e invoca-se que sua luz revele o Santo Gral, refletindo a relação divina de D. Sebastião para com os portugueses. Na constituição do poema, é notória a relação da volta do rei desaparecido com o messianismo, não só pela equivalência com o cristianismo, mas principalmente pela consequência da volta: a restauração da nação portuguesa. No título do poema “O Desejado” encerra-se a comparação da volta do rei com a vinda do Messias. Portanto, faz-se o estreitamento da relação do rei com o divino e do aspecto mitológico que adquire o delinear da história portuguesa.
Mensagem configura uma visão portuguesa acerca de sua história. Como diz Francisco Maciel Silveira em prefácio à obra pessoana (1992): “Fernando Pessoa compõe aqueles poemas em que se vai corporificando o SER da Pátria...” (p. 8). Sendo assim, o encontro com o messianismo em suas poesias torna-se imprescindível, pois a história portuguesa é enraizada no mito, ou seja, para se revisitar a constituição das identidades e para se remontar o quebra-cabeça do perfil da nação é preciso passar pela pesquisa mitológica.