O grupo de professoras de Matemática que participaram da pesquisa, ao longo do processo de elaboração do artigo multimídia, constituíram-se como uma comunidade de aprendizagem profissional. As professoras buscaram se identificar umas com as outras, desenvolveram maneiras compartilhadas de perseguir seus interesses comuns e incentivaram umas às outras. O trabalho desenvolvido com as dez professoras de matemática e o pesquisador foi marcado pelas discussões com forte caráter de reflexão do que fizemos e das razões que nos levaram a responder daquela maneira as questões. O nosso papel como investigadora foi modificado a partir do primeiro encontro. Nesse momento, a nossa proposta era exercer o papel de observador, limitando a nossa participação, tendo a preocupação de não influenciar as idéias das professoras e de determinar a condução de todas as etapas do processo. Pensávamos, que nossa atitude seria a de manter uma certa distância do que estava acontecendo, exercendo nosso papel de promover um ambiente na qual a discussão provocada pelas atividades matemáticas propostas conduzissem os professores a falarem da sua prática na sala de aula, da sua história de vida e da própria matemática. Entretanto, logo depois do primeiro encontro, acredito que, pela forma como recebemos as professoras a situação começou a tomar um outro rumo.
No princípio, as professoras estavam distantes e se colocavam na posição de alunos aprendizes. Aos poucos, foram se assumindo como membros pertencentes a uma comunidade de aprendizagem de professores de Matemática que estavam elaborando um artigo multimídia. As professoras negociaram significados por meio das histórias compartilhadas de aprendizagem, desenvolveram práticas comuns em grupo, tiveram disponibilidade para ajudar e desenvolveram soluções para os problemas e tomaram decisões.
Apresentamos um quadro com os quatro elementos que caracterizam, segundo Wenger (2001), nossa comunidade de prática:
Tabela 8
Características da comunidade de aprendizagem profissional
Domínio x Elaborar um artigo multimídia sobre a matemática do
movimento.
Prática
x Resolver juntas o problema do João;
x Explorar por meio das atividades o uso da calculadora acoplada ao sensor;
x Conhecer o site interactivee; x Selecionar imagens para o artigo; x Participar de seminário;
x Produzir texto
Comunidade x Um grupo de dez professoras de matemática. Identidade x Desenvolver uma linguagem do grupo;
x Valorizar o papel do professor de matemática.
A professora Crislen, no seu discurso, propôs incluir, no artigo, informações sobre o grupo que elaborou o artigo para que as pessoas que tiverem contato com o material multimídia possam saber de que lugar estas professoras estão falando. Esta fala mostra como a professora está envolvida e quer ser atora do processo.
78 Crislen: Tem que falar o seguinte, tem que falar do histórico nosso nessa profissão que a gente
79 já trabalhou e falar o porquê que está nesse projeto. O
80 quê que motivou a estar nesse projeto. Eu acho que é mais isso, né? Uma das
81 experiências que já teve com isso, uma coisa assim.
(Transcrição do dia 19/09/2005)
Wenger (2001) define uma comunidade de aprendizagem da prática como um grupo de pessoas que aprende umas com as outras, fala sobre o próprio aprendizado e é capaz de interagir. Notamos, nas falas dos professores, por meio do registro escrito e das transcrições das fitas gravadas de vídeo, que as professoras se engajam efetivamente na produção de um artigo multimídia e compartilham junto as informações. Elas aprenderam umas com as outras nas diferentes situações propostas. Fizeram depoimentos e comentários de como uma ajuda a outra a pensar; de como o que uma fala pode mudar o modo de pensar da outra ou de si mesma e concluem que, depois da conversa, nada fica igual. Existiu uma interação que foi crescendo com o tempo e percebemos traços de intimidade profissional entre as professoras. Uma rede de comunicação via e- mail e via telefone surgiu naturalmente no grupo.
As professoras mostraram com seu discurso, como cada uma delas procurou se organizar para preparar o artigo multimídia, dando evidências do seu engajamento, participação e imaginação, para atingir o objetivo estabelecido.
A professora Ângela mostra que tentou antecipar o trabalho, fazendo uma composição no disquete de texto com imagens e desenho do gráfico. Ressaltamos que no discurso, a professora usa do argumento de que aquilo que ela estava fazendo era igual ao que o Ricardo Nemirovsky fez no seminário. Como aprendeu a fazer, não poderia perder a oportunidade de tentar. Envolveu até o filho para ajudá-la nesta tarefa.
10 Ângela: O nosso já fez mais ou menos um roteiro, né, que seria: a introdução, 11 o projeto, o que é o vídeo, o mapa, o portfolio, separar os textos por seção,
11 escrever tudo, pensar na estrutura, rever fita, criar uma estória para consolidar
12 as partes significativas e as fotos significativas, né? Então, isso que nós ficamos
13 de olhar. Nós pegamos, sentamos, no caso eu pedi, olhei, peguei, tentei copiar,
14 mas não consegui. [risos]
15 Tânia: Você tentou, fala aí, você tentou copiar e...
16 Ângela: Eu tentei fazer sabe, assim, sabe como se diz: fazer a tarefa de casa, 17 né? De pegar e trazer num disquete, já pronta essa primeira parte pra gente se
18 colocando “o quê”, “onde”, sabe, se faz o desenho de um gráfico coloca lá
19 dentro, pega a parte do vídeo e coloca lá dentro, pra gente ver as imagens do
20 que fazer, igualzinho o Ricardo trouxe pra gente aqui, mas só que nós tivemos
21 dificuldade de ir lá em casa eu tenho o Leandro, que mexe com computação, e ele tá
22 inclusive assim: mãe precisa de mais coisa, aqui não é só isso. Então...
23 pra ver...
(Transcrição do dia 12/09/2005) A professora Tula revela em seu discurso como tomou iniciativa de estabelecer uma comunicação entre as professoras, por e-mail, socializando leituras que considerava pertinentes para o grupo criar condições de pensar melhor na estrutura do artigo a ser produzido pela comunidade.
75 Tula: Não, então, quando estávamos na sala, no último encontro navegando
76 no site, eu percebi que precisávamos de mais informações e aí nós fomos
77 entrando até que eu encontrei esse texto, que eu mandei no mesmo dia pra
78 todo mundo, exatamente pra que a gente pudesse ter uma idéia, né, do que
79 nós poderíamos selecionar, o que na verdade estruturava o esqueleto do que
80 comporia o videopaper, né? Então, por exemplo, a Beatriz já mencionou
81 aspectos aí importantes, a Ângela, quer dizer, parte da seleção da fita que
82 vamos selecionar dos momentos, né, de cada grupo, porque parece que nós
83 estamos com grupo com determinada parte de fita e elas também, mas eu senti
84 necessidade do que mais incluir. Então, por isso, que esse texto, eu achei que
85 ele auxiliaria, como Beatriz mesmo mencionou. E como que poderíamos
86 efetivamente construir esse videopaper? Ou seja, eu que por não poder
87 participar muito, menos reuniões que a maioria, senti a necessidade de entender
88 melhor como ficaria esse esqueleto, essa estrutura no computador. Então esse
89 texto que eu tirei ele nos fornece alguns meios. Então o que nós precisamos? (...)
Na primeira atividade, os momentos selecionados pelas professoras demonstraram a importância das discussões, das controvérsias, das conclusões, das intervenções, da tentativa e erro, da descoberta e da surpresa, ao conhecer uma tecnologia como o sensor acoplado à calculadora.
A professora Cecília, nesta mesma atividade, em que se organizava a estrutura do artigo multimídia, comenta trazendo os alunos para a discussão, que poderia se introduzir função, usando a calculadora acoplada ao sensor.
60 Tânia: É isso que a gente quer...
61 Cecília: Eu acho que poderia ser mais uma.
62 Beatriz: Uma?
63 Cecília: Mais uma atividade. Por exemplo, ali no Estadual Central já tinha uma
64 noção e se a gente ensinasse a partir do... introduz essa matéria a partir da
65 calculadora.
66 Ângela: Na oitava série.
67 Cecília: Foi assim?
68 Ângela: Não. Na oitava série...
69 Cecília: Ah.
70 Ângela: Na oitava série, eles nunca viram nada
71 Cecília: Nunca viram nada. Aí, ficaria assim: como é que seria a reação deles antes de
72 conhecer a matéria, igual, eles conhecem, já estão mexendo com aquilo e já tem e depois com
73 a gente que já mexeu e ...
(Transcrição do dia 12/09/2005)
Tais interações aconteceram reforçando, cada vez mais, a importância da negociação. Num dos grupos, presenciamos duas professoras que travaram uma discussão sobre o que significava a distância que o menino andou para ir e voltar em casa duas vezes, para depois caminhar direto para a escola e a distância que ele percorreu. No final da discussão, perceberam que uma dessas distâncias era o deslocamento e a outra, a distância percorrida. Chegaram a essa conclusão porque insistiram em esclarecer as dúvidas provocadas pela situação. O autor, com sua teoria, defende a participação social como um processo de aprendizado e saber.
Concordamos com essa posição porque, no grupo, as professoras aprenderam a lidar umas com as outras e falaram do seu próprio aprendizado. As professoras estavam se sentindo responsáveis pela organização dos encontros e pelo produto final.
sobre seu aprendizado acerca da compreensão do movimento do retorno do João e da percepção do tempo.
243 Ângela: Porque se, ... se a gente tem dificuldade de compreender na hora da
244 interpretação de um outro gráfico, quer dizer, todo mundo, quem não teve
245 acesso à calculadora e que não percebe isso, vai ter dificuldade de interpretar
246 aquele traço como movimento de retorno.
190 Ângela: Porque a gente sabe que está andando a mesma distância, mas
191 o tempo está passando ali, só que a gente não percebia o tempo passar
192 também. A princípio você não percebe o tempo passar. Depois com a
193 calculadora, que a gente viu que estava ligada, o tempo não parava, o tempo passa mesmo.
(Transcrições do dia 16/11/2005)
Na nossa comunidade, em cada encontro, observamos a presença de uma liderança que se alternava de acordo com a situação. Dependendo do que era combinado para o próximo encontro, a professora que tinha mais disponibilidade na semana ou mais facilidade para preparar a tarefa combinada assumia a função de preparar o material necessário. Wenger (2001) alega que o compartilhamento do conhecimento, o qual permite a produção de conhecimento, só é possível somente mediante o crescimento de confiança entre os membros do grupo. As professoras reconheceram que é necessário ter uma liderança para o bom desenvolvimento de um trabalho coletivo.
289 Ângela: Mas em qualquer grupo isso acontece. Inicialmente, em uma
290 discussão, principalmente quando se está numa discussão assim,
291 geralmente tem uma pessoa que vai começar a liderar o grupo. E no caso dela, talvez por
292 ela ter alguns conhecimentos a mais do que a gente, ela fazia as perguntas.
(Transcrição do dia 16/11/2005)
A professora Tula, no seu discurso enraizado na experiência de ver um outro artigo multimídia, procura orientar o grupo nas etapas de produção do artigo coletivo, assumindo a coordenação naquele momento.
153 Tula: A gente chama de planta, de espinha, chama de planta. Eu acho que a
154 gente precisa fazer é definir a planta, cada grupo tem que assim, né? Então, eu
154 penso assim, cada grupo vai definir a sua planta de acordo com as discussões
155 que foram feitas, com as partes consideradas importantes e, aí, provavelmente
156 buscando, né, ou textos ou reflexões sobre essas imagens. Aí, depois, eu acho
157 que antes da gente construir mesmo o videopaper a gente senta com o grupo,
158 analisa e verifica o que pode ser feito em conjunto. Então aí eu acho que sai
159 um videopaper só.
A presença da liderança, no nosso caso, alternando-se entre seus membros, para promover o interesse e a motivação para trabalharem juntas foi um fator importante para a constituição dessa comunidade de professoras. Portanto, assumimos que uma das formas para aprender sobre a profissão de professor de Matemática, desenvolvendo uma reflexão aprofundada sobre a prática é a constituição de comunidade de aprendizagem, integrando, em tal contexto, o uso de uma prótese, como a calculadora gráfica acoplada ao sensor.
As professoras alteraram o comportamento, quando passaram a se perceber parte dessa comunidade, com interesses comuns ao desenvolverem a confiança entre seus membros, a fim de receber, enviar informações, atribuir tarefas e definir funções de trabalho. Essa alteração resultou em maior troca de experiências entre as professoras. Podemos identificar alguns aspectos relacionados à aprendizagem profissional na comunidade constituída:
x Ver e rever vídeo da própria participação em situações de ensino e aprendizagem possibilita entender melhor a prática;
x elaborar o artigo multimídia, uma mídia desconhecida para o grupo, que permitiu explorar recursos para serem utilizados na sala de aula com os alunos; e
x gravar as atividades para uma discussão posterior com outros educadores, procedimento que ajuda a analisar o que poderia ter sido feito.
Apresentamos um quadro com o perfil de cinco professoras, modificado no decorrer do projeto da pesquisa
Tabela 9
Perfil das professoras participantes da pesquisa
Professora Formação Atividade profissional Calculadora acoplada ao sensor Ângela Participação em seminários Desenvolveu projeto para a secretaria de educação solicitando a compra de calculadoras e sensores Solicitou o equipamento da pesquisadora emprestado em 2006 e 2007 para trabalhar com seus alunos do ensino médio Cecília Cursando especialização Professora da educação básica Aplicou na turma de especialização para seus colegas professores Crislen Entrou para o mestrado Participou de seminário na PUC/SP Projeto – formação de professores Heloisa Entrou para o doutorado na PUC/SP Projeto de doutorado sobre artigo multimídia na licenciatura Trabalhando com projeto de formação de professores em EAD – Educação a Distância Tula Cursando disciplina isolada do doutorado Trabalhando com projeto de formação de professores em EAD – Educação a Distância Desenvolveu uma aula de matemática para EAD na internet
Aplicou, nas turmas de Didática de licenciatura em Matemática, para seus
alunos em 2006, a
atividade do João com lápis e papel e com o Kit (calculadora acoplada ao sensor)
C
APÍTULO 4
Figura 44 – Pensando no trajeto de Joãozinho
“ Não, eu, assim, eu nunca trabalhei com esse problema assim, mas na
hora que eu vi o que que era a volta.... Isso a gente não tinha isso na gente. Eu achei difícil fazer, eu tive uma dificuldade muito grande de fazer essa representação, de gráfico muito grande mesmo. Falei assim: gente se tivesse isso na minha época...
CAPÍTULO 4
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Investigamos e analisamos o desenvolvimento profissional de um grupo de dez professoras de Matemática, da Educação Básica, no processo de elaboração de um artigo multimídia, procurando compreender melhor as relações entre a construção dos discursos sobre a prática e o desenvolvimento do conhecimento profissional. Investigamos, também, como e se ocorreu o surgimento de novas competências para o exercício da profissão.
O local da pesquisa foi numa sala no Colégio de Aplicação da UFMG, as participantes atenderam voluntariamente ao chamado. Embora quatro das dez professoras trabalhassem nesse colégio as atividades e a elaboração do AMM não se pautaram em nenhuma das salas de aula das participantes. Também não se tratou de um curso sobre elaboração de AMM. Buscamos construir uma comunidade de aprendizagem da prática profissional em encontros no quais as professoras, vivenciando as atividades propostas, vendo e revendo suas ações nos vídeos gravados, e escolhendo os fragmentos para a construção do AMM pudessem dialogar sobre sua vida profissional, sobre as diferentes formações e sobre suas salas de aula.
Neste trabalho, emergiram questões da conclusão da pesquisa, das quais destacamos quatro.
1º Episódio Movimento e sua representação gráfica no plano cartesiano 4º Episódio 2º Episódio Comunidade de Aprendizagem Profissional O vídeo e o Desenvolviment o profissional 3º Episódio O artigo Multimídia Figura 45 - Conclusão