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O mundo inteiro é um palco, e todos os homens e todas as mulheres são apenas atores. William Shakespeare

O sentido atribuído à linguagem em uso fundamenta-se basicamente no contexto de produção.

Marcuschi (2007: 76-77) descreve contexto como “inalienável em qualquer atividade interativa para a produção de sentido” e define a significação como construto social estabelecido na relação com o outro:

[...] sem a presença do outro não se desenvolve a linguagem e ela é centralmente desenvolvida em condições de socialização. O ser linguístico que somos define-se como ser social e não se dá a não ser nessa condição. A neurobiologia mostra que a consciência de si vem pela consciência do outro.

Para Hanks (2008: 174), contexto é conceito teórico que não pode ser desvinculado de elementos fundamentais como linguagem, discurso, produção e recepção de enunciados, práticas sociais, dentre outros. O autor situa a relevância do contexto para o estudo da

linguagem, pois a perspectiva de existência deste dá-se nas relações de contexto de ou

contexto para:

Hoje em dia se reconhece de forma bastante ampla que muito (senão tudo) da produção de sentido que ocorre por meio da língua(gem) depende fundamentalmente do contexto e que, além disso, não há uma definição única de quanto ou de que tipo de contexto é necessário para a descrição da linguagem.(HANKS, 2008, p. 174)

O estudo do contexto nesta pesquisa restringe-se à situação vivenciada pelas colaboradoras, não tendo a pretensão, em nenhuma hipótese, de ser estendido como paradigma para outras situações de investigação, ainda que análogas.

Dessa maneira, a aplicação contextual única demonstra o caráter de pesquisa situada, em que os dados gerados pretendem explicar tão somente as relações manifestadas pelos sujeitos da pesquisa, em determinado tempo, espaço e interação específica, com normas negociadas e partilhadas, reflexões discursivas e finalidades dos participantes no momento da interação.

Marcuschi (2007: 82) estabelece que todo sentido é situado, isto é, contextualmente situado, não existindo sentido que não seja uma construção de sujeitos relacionados a determinado contexto. Assim, afirmo que não é pretensão de pesquisas contextualmente situadas a responsabilidade com outras situações que não estejam contempladas no contexto do estudo desenvolvido, pois qualquer mudança contextual, mesmo muito reduzida, como supressão ou acréscimo de simples elemento, cria novo contexto com características próprias. Dessa maneira, a pesquisa aqui desenvolvida fixou a análise no diálogo com as participantes pesquisadas, refletindo sobre as ações destacadas durante a gravação da entrevista. A escolha subjetiva que norteou esta pesquisa procurou reconstituir, em processo interacional junto às participantes, o contexto de ensino de português e as representações funcionais das professoras envolvidas nesta investigação, tendo em vista a construção de significados que emergem das práticas no ambiente escolar.

Hanks (2008: 191) define como parte-chave do contexto, ao qual se encontrem filiados, todos os participantes em processo de construção discursiva, mesmo que a filiação seja individual ou em grupo e que o contexto seja local ou não-local.

O autor (2008:195-197) aponta a existência dinâmica entre integração do contexto e formação dos atores filiados a ele, sendo que “a língua e o discurso estão entre as

modalidades centrais por meio das quais essa dinâmica é articulada”. Para esse autor, os

envolve o significado de representações visando à finalidade, “assim quando um falante

dirige sua atenção para, tematiza, formula ou invoca o contexto, ele ou ela o converte em objeto semiótico em uma relação de querer-dizer”.

Charaudeau & Maingueneau (2008: 127) apresentam definição interessante a respeito de contexto:

O contexto de um elemento X qualquer é, em princípio, tudo o que cerca esse elemento. Quando X é uma unidade linguística (de natureza e dimensões variáveis: fonema, morfema, palavra, oração, enunciado), o entorno de X é ao mesmo tempo de natureza linguística (ambiente verbal) e não-linguística (contexto situacional, social, cultural).

É relevante ainda observar que o posicionamento em determinado contexto, ou seja, a

“tomada de decisão” revela “encontrar-se em” e ”ser colocado em” uma posição específica

de sujeito dentro das relações sociais, mas nem sempre a legitimidade autorizada pela ocupação de determinada posição coincide com as intenções dos participantes desse cenário (HANKS, 2008, p. 197-198).

Assim, a análise de contexto específico é possível devido à visão global das estruturas sociais. Van Dijk (2008: 84-5) destaca a importância desse conhecimento anterior, pois por meio desse panorama geral, são possibilitadas análises das relações do interlocutor com o enunciado anterior e as reações delineadas durante a interação.

Dessa maneira, na representação das professoras de português, participantes deste estudo, a voz institucional permeia o desenvolvimento de suas práticas e as deixam em posição de dúvida entre a decisão pelas determinações vinculadas ao cronograma escolar de ensino de português e a necessidade real dos alunos envolvidos no processo ensino/aprendizagem, como fica demonstrado pelo fragmento abaixo extraído da interação entre elas no momento da entrevista em grupo:

446. TARSILA: o sistema nos cobra (pausadamente). Exatamente! Estamos sozinhos como você bem

colocou e o sistema nos cobra... vencer um conteúdo. 447. FRIDA: exatamente.

448. GABRIELA: cê fica com medo, você fica com medo.

449. TARSILA: e resultados.

450. FRIDA: é verdade.

451. GABRIELA: assim, puxa eu tô muito tempo nesse assunto, você sabe que ele não entendeu ainda que

você tem que procurar uma forma, né? Que canalize esse, esse entendimento dele. 452. TARSILA: não é?

453. GABRIELA: Não, mas eu tenho que terminar rápido, porque senão cadê o... e o próximo conteúdo? Eu

ainda tô aqui, já era pra tá lá na frente....

454. FRIDA: quando você faz também o levantamento das dificuldades... uma coisa que eu... fico assim...

dividida e meio que... desesperada, sabe? Tem hora que, sinceramente, você tem lá toda uma gramática... pra trabalhar, aí você percebe que seu aluno precisa mais de leitura.

455. FANI: de leitura.

456. FRIDA: momentos de leitura e de escrita, aí você quer trabalhar a gramática, a leitura e a escrita.

457. TARSILA: humhum.

458. FRIDA: daqui a pouco... você já tá meio que... perdida, diante de, de tantas coisas, porque com, porque

se nós pudéssemos dividir, por exemplo, a leitura..., que nós começamos o nosso discurso, com as outras disciplinas, já seria uma preocupação...

459. FANI: a menos.

460. FRIDA: a menos