A categoria “prática pedagógica”, composta por 5 indicadores, é das menos significativas do presente tema, dado que comporta somente 22 unidades de sentido, correspondentes a 2,6% da totalidade (Quadro XXVI).
O indicador “falta de tempo para dedicar a todos os grupos de alunos”, relacionado com a diversidade destes, é o que detém o maior peso percentual, com 16
unidades de sentido (72,7%), proferidas por 7 das entrevistadas (46,7), uma das quais assegurou:
(...) eu considero-me uma mulher activa, mas não consigo dar resposta. (...) Eu, às vezes, sinto que não
consigo dar resposta como eu quero... a todos os grupos de alunos que tenho na sala... (...) (B3) Quadro XXVI
Problemas/dificuldades sentidos
Prática pedagógica
Prática pedagógica A B C D E Total 1*
% Total 2**
%
“Falta de tempo para dedicar a todos os grupos de alunos 1 3 2 2 8 16 72,7 7 46,7
”Há uma separação entre o que se faz na sala de aula e as saídas” 1 1 2 9,1 2 13,3
“É difícil mudar a prática” 2 2 9,1 1 6,7
“Demoro algum tempo a identificar as dificuldades dos alunos” 1 1 4,5 1 6,7
“Sou pouco criativa” 1 1 4,5 1 6,7
Total 5 4 2 3 8 22 100,0 --- ---
*Total 1 - número de respostas dadas (respostas múltiplas); **Total 2 - número de respondentes. N= 15 X = 3,7 (unidades de sentido).
Em termos de peso percentual, seguem-se os indicadores “há uma separação entre o que se faz na sala de aula e as saídas” e “é difícil mudar a prática”, cada um deles com 2 unidades de sentido (9,1%), provenientes de 2 entrevistadas (13,3%).
Os outros indicadores: “demoro algum tempo a identificar as dificuldades dos alunos” e “sou pouco criativa” possuem apenas 1 unidade de sentido (4,5%) cada um. Documentam-nos as afirmações que a seguir apresentamos:
(...) eu acabo por tardar um pouco a descobrir as suas dificuldades [dos alunos], apesar de tentar testá-los
e tudo o mais... (...) (A2)
(...) sou pouco criativa... (...) é um defeito que eu... sempre achei que tinha... (...) (A2)
Em relação às diferentes etapas da carreira, é de realçar o facto do indicador “falta de tempo para dedicar a todos os grupos de alunos” ser o único que aparece em todas elas, o que evidencia a transversalidade da dificuldade das professoras em lidarem com a heterogeneidade dos alunos.
O indicador “há uma separação entre o que se faz na sala de aula e as saídas” encontra-se presente nas etapas B e D.
Os restantes indicadores, à semelhança da tendência já desenhada na anterior categoria, concentram-se na primeira etapa do percurso profissional, o que, apesar do seu
fraco peso percentual, faz supor a existência de um número mais elevado de problemas nestes anos da carreira.
7.3. Alunos
A terceira categoria do tema “Problemas/dificuldades sentidos” refere-se aos alunos e é constituída por duas subcategorias, que abrangem 206 unidades de sentido, isto é, 24% do total. Este peso percentual torna esta categoria numa das mais expressivas do tema em análise.
A primeira das subcategorias – “alunos com vivências limitadas” – corresponde a 28,5% da categoria, com as suas 59 unidades de sentido, que se repartem por dois indicadores (Quadro XXVII-A).
Apesar desta ser a subcategoria com menor peso percentual, os seus dois indicadores apresentam uma média superior ao valor da categoria (X =13,8), o que
indicia uma afirmação de importância no que ao meio sócio-cultural dos alunos se refere.
Quadro XXVII - A
Problemas/dificuldades sentidos
Alunos - Alunos com vivências limitadas Alunos
- Alunos com vivências limitadas -
A B C D E Total 1*
% Total 2**
%
“Alunos com poucas vivências” 14 12 14 3 43 21,0 10 66,7
“Alunos com um baixo nível sócio-cultural” 2 5 9 16 7,7 5 33,3
Total 16 12 19 12 0 59 28,5 --- ---
*Total 1 - número de respostas dadas (respostas múltiplas); **Total 2 - número de respondentes. N= 15 X = 29,5 (unidades de sentido); ( da categoria = 207 ; X = 13,8).
O indicador “alunos com poucas vivências” é o de maior peso frequencial, com as suas 43 unidades de sentido (21%), proferidas por 10 das entrevistadas, através de afirmações como esta:
(...) são miúdos de... aldeia, miúdos de monte também... que conhecem só... (...) este meio pequenino (...) (A3)
O outro indicador, “alunos com um baixo nível sócio-cultural”, é composto por 16 unidades de sentido (7,7%), relativas a 5 entrevistas, numa das quais se pode ler:
(...) Eles têm tão poucos hábitos de leitura... (...) muitos deles não têm... [livros em casa] (...) até são
capazes de comprar um carro, uma bola ou outras coisas, mas livros não... (...) não há o hábito de comprar livros... (...) (D1)
Em relação à distribuição das unidades de sentido pelas diferentes etapas da carreira, verifica-se que a última etapa não foi contemplada, o que pode querer denotar uma menor valorização do meio de proveniência dos alunos, enquanto dificuldade sentida, pelos docentes em fim de carreira.
Assim, as unidades de sentido que constituem os dois indicadores ficaram repartidas pelas quatro primeiras etapas, à excepção da etapa B que não foi contemplada pelo indicador “alunos com um baixo nível sócio-cultural”, com valores que não evidenciam nenhuma tendência de aumento ou diminuição ao longo das mesmas.
A outra subcategoria, composta por 11 indicadores, diz respeito às dificuldades/problemas de aprendizagem dos alunos e abrange 148 unidades de sentido, ou seja, 71,5% da categoria (Quadro XXVII-B).
Note-se, também, que, conjuntamente com “recursos - materiais” e “reorganização curricular – quantidade de inovações”, faz parte do grupo de subcategorias que percorre um maior número de entrevistas, quanto a este tema, reforçando-se, deste modo, a importância que lhe foi atribuída (Anexo V-6).
Quadro XXVII - B
Problemas/dificuldades sentidos
Alunos - Alunos com dificuldades/problemas de aprendizagem Alunos
- Alunos com dificuldades/problemas de aprendizagem -
A B C D E Total 1*
% Total 2**
%
“Alunos com bastantes dificuldades de aprendizagem” 9 4 6 4 8 31 15,0 10 66,7
“Vários anos de escolaridade na sala de aula” 14 12 1 1 3 31 15,0 9 60,0
“Alunos com problemas de comportamento” 1 1 4 4 19 29 14,0 7 46,7
“Alunos com ritmos de aprendizagem muito diferentes” 3 7 1 2 2 15 7,2 7 46,7
“Alunos difíceis de motivar” 2 6 2 10 4,8 6 40,0
“Turmas com poucos alunos” 2 2 4 2 10 4,8 5 33,3
“Alunos que estão num ano superior ao nível das suas aprendizagens” 4 1 2 7 3,4 4 26,7
“Alunos com ritmos de aprendizagem muito lentos” 2 2 1 5 2,4 4 26,7
“Ter só uma criança de um ano de escolaridade” 2 2 4 2,0 3 33,3
“Turmas com muitos alunos” 2 3 5 2,4 2 13,3
“Alunos que não sabem participar na definição das actividades” 1 1 0,5 1 6,7
Total 41 28 25 14 40 148 71,5 --- ---
*Total 1 - número de respostas dadas (respostas múltiplas); **Total 2 - número de respondentes. N= 15 X = 13,5 (unidades de sentido); ( da categoria = 207 ; X = 13,8).
O indicador com maior peso percentual é “alunos com bastantes dificuldades de aprendizagem”, dado que atingiu 31 unidades de sentido (15%), identificadas em 10 entrevistas (66,7%), numa das quais se dizia:
(...) principalmente miúdos com dificuldades, porque as coisas têm que ser muito repetidas, muito
sistematizadas, muitos exercícios de cada coisa (...) (C1)
Também relacionados com as dificuldades de aprendizagem dos alunos, mas com menor importância atribuída, apresentando valores abaixo das médias, tanto da subcategoria (X =13,5), como da categoria (X =13,8), existem mais três indicadores, o
que faz com que a vertente das dificuldades de aprendizagem seja a mais relevante.
Dois desses indicadores: “alunos que estão num ano superior ao nível das suas aprendizagens” e “alunos com ritmos de aprendizagem muito lentos” dizem respeito, cada um deles, a 4 entrevistadas (26,7%) e, respectivamente, a 7 (3,4%) e a 5 (2,4%) unidades de sentido, duas das quais se configuram nestas afirmações:
(...) há o outro que está no segundo ano, mas que está ao nível de um primeiro... (E1) (...) eu nunca pensei que levasse tanto tempo com o “p”... (...) (B3)
O outro indicador da subcategoria corresponde a ”alunos que não sabem participar na definição das actividades” e foi encontrado apenas numa entrevista (6,7%), e em 1 unidade de sentido (0,5%), sustentada pela seguinte afirmação:
(...) os meus alunos não têm muita maturidade para ser eles a definir [as actividades] (...) (D1)
Se voltarmos a concentrar a atenção nos indicadores de maior peso relativo, encontramos “vários anos de escolaridade na sala de aula”, com 31 unidades de sentido (15%), com origem em 9 entrevistas (60%). Diz, a propósito, uma das entrevistadas:
(...) Mas tenho todos os anos! (...) É um bocado complicado. (...) tenho uma miúda de primeiro ano; depois
tenho miúdos de segundo ano (...) depois tenho três alunos de terceiro ano e tenho dois alunos de quarto ano... (...) (A1)
Ainda no âmbito das dificuldades, relacionadas com diferentes níveis de aprendizagem dos alunos, surgem mais dois indicadores, embora com menos peso
percentual: “alunos com ritmos de aprendizagem muito diferentes”, com 15 unidades de sentido (7,2%), provenientes do discurso de 7 entrevistadas (46,7%); e “ter só uma criança de um ano de escolaridade”, com 4 unidades de sentido (2%), relativas a 3 entrevistas (33,3%). No que ao primeiro se refere, vejamos o que diz esta professora:
(...) Eu tenho aqui só três alunos que conseguem trabalhar ao mesmo nível. Somos tão poucos e somos tão
diversificados! (...) Eu aqui tenho seis níveis de ensino! E é muito complicado (...) (B3)
Os problemas de indisciplina surgem no indicador posicionado em terceiro lugar: “alunos com problemas de comportamento”, constituído por 29 unidades de sentido (14%), verbalizadas por 7 das entrevistadas (46,7%), em afirmações como:
(...) um problema que nos preocupava era a violência aqui dentro da escola.... (E2)
Com 10 unidades de sentido (4,8%), relativas a 6 entrevistas (40%), há a considerar o indicador: “alunos difíceis de motivar”, tal como no excerto seguinte no-lo é referido:
(...) a gente até pode ter muita vontade de fazer muita coisa e pode até trabalhar assim e tentar tudo por
tudo para eles terem um ensino diferente e terem mais interesse, mas se o interesse não vier deles próprios, não se avança muito... (...) (C1)
O número de alunos por turma expressa-se em extremos opostos: “turmas com poucos alunos”, com 10 unidades de sentido (4,8%), referentes a 5 das entrevistas (33,3%); e “turmas com muitos alunos”, com 5 unidades de sentido (2,4%), existentes em 4 entrevistas (26,7%), que podem ser documentados pelas seguintes afirmações:
(...) numa turma com... poucos alunos... o espírito de equipa, a cooperação... (...) isso
falha... (...) (D1)
(...) Acho que... que muitas vezes o professor vê-se aflito por causa das turmas serem
muito extensas.. (E3)
No que concerne às diferentes etapas da carreira, são as professoras que se situam nas dos “extremos” que, notoriamente, sentem mais dificuldades/problemas relacionados com os alunos, o que, porventura, pode ser considerado como resultado da falta de experiência inicial e pelo desencanto final, num e noutro caso, pelo que não se estranhará que, na etapa A sejam mais significativos os indicadores relativos à diversidade dos alunos, enquanto que na etapa E a relevância seja atribuída à indisciplina.
Os quatro indicadores presentes em todas as etapas e que se situam acima das médias, quer da subcategoria (X =13,5), quer da categoria (X =13,8), referem-se às
dificuldades de aprendizagem, à diversidade e à indisciplina dos alunos. De referir que os valores relativos aos indicadores “alunos com bastantes dificuldades de aprendizagem” e “alunos com ritmos de aprendizagem muito diferentes” surgem nas diferentes etapas, sem um sentido definido, embora o último tenha um maior peso percentual, nas duas primeiras. Em relação a “vários anos de escolaridade na sala de aula”, parece-nos ser de destacar a sua maior predominância também nas duas primeiras etapas, o que vai ao encontro da tendência já manifestada. O indicador relativo à indisciplina, “alunos com problemas de comportamento”, revela um ligeiro aumento de importância ao longo das diferentes etapas, mas surge marcadamente apenas na etapa E.
O indicador “turmas com poucos alunos” surge em todas as etapas, excepto na última, enquanto os restantes se encontram pulverizados por todas elas, sendo que “ter só uma criança de um ano de escolaridade” figura apenas nas duas primeiras etapas e “turmas com muitos alunos” aparece nas etapas A e E.