Adotaremos como objeto de estudo privilegiado o texto do fundador do Behaviorismo Radical, B. F. Skinner. Trata-se de examinar o próprio texto skinneriano no sentido de tentar identificar alguma tendência com respeito ao tratamento das teses deterministas e indeterministas, que possa servir de agenda de pesquisa para o desenvolvimento ulterior do Behaviorismo Radical. Nesse sentido, partimos, aqui, do pressuposto de que o Behaviorismo Radical, embora tenha começado com Skinner, não se esgota no texto skinneriano. Desse modo, o texto skinneriano será ponto de partida, e não de chegada, para aferirmos os possíveis encaminhamentos dados ao determinismo e indeterminismo no Behaviorismo Radical. Com efeito, trabalharemos com a gênese do Behaviorismo Radical consultando o texto skinneriano, na tentativa de entender o projeto científico-filosófico do Behaviorismo Radical – com respeito ao determinismo e indeterminismo – que, em algum momento, ultrapassará o próprio texto skinneriano.
Portanto, nossa análise não se fundamentará nas discussões empreendidas por comentadores da obra skinneriana. Isso, de modo algum, deve sugerir que tais discussões não sejam importantes. É que este trabalho restringe-se a uma etapa preliminar a um eventual debate com comentadores. Trata-se de aplicar ao texto skinneriano as discussões realizadas nos capítulos anteriores com o fito de construir uma interpretação que, depois de delineada, poderá ser cotejada com as interpretações dos estudiosos da obra skinneriana. Certamente, isso será uma tarefa relevante, cuja envergadura foge ao escopo deste trabalho.
É preciso esclarecer que o diálogo que empreenderemos com o texto skinneriano, por meio de nossa ferramenta de análise, não tem a pretensão de mostrar qual é o verdadeiro posicionamento de Skinner sobre o tema em questão. Em primeiro lugar, porque as análises anteriores mostraram que ‘determinismo’ e ‘indeterminismo’ não são termos
inequívocos, mas envolvem um conjunto de noções e conceitos que, na melhor das hipóteses, mostra uma “semelhança de família”. Nesse sentido, a interpretação que será aqui proposta não deve ser vista como um veredicto sobre o determinismo e indeterminismo no Behaviorismo Radical. Trata-se, tão somente, de expor a pluralidade do texto skinneriano com relação ao tema. E, também, de apontar equívocos, bem como sugerir correções dessas falácias, de modo a contribuir com o desenvolvimento futuro do Behaviorismo Radical.
Em segundo lugar, entendemos que o sentido dado pelo autor ao texto não pode mais ser capturado. Em termos analítico-comportamentais, isso significa que as variáveis das quais o comportamento verbal (textual) de Skinner foi função não podem ser completamente conhecidas. Com efeito, é nosso comportamento verbal sobre o texto skinneriano que parece estar em jogo aqui. Nesse caso, o texto é entendido como uma trama aberta capaz de suportar diferentes interpretações. Assim, tentaremos esclarecer a pluralidade do texto skinneriano com respeito ao determinismo e indeterminismo com base nos seus fundamentos filosóficos, cientes de que o resultado dessa empresa é apenas uma das inúmeras interpretações que o texto skinneriano permite – uma interpretação, vale endossar, que não se pretende decisiva, mas somente plausível.
Não obstante, como conduziremos essa análise? Como já mencionamos, o objeto principal de investigação, nesse momento, é o texto skinneriano. Por isso, ele será o nosso ponto de partida. Empregaremos nossa ferramenta analítica (as perspectivas conceitual, ontológica e epistemológica) para interpretarmos os posicionamentos de Skinner com respeito ao determinismo e indeterminismo.
Isso significa que não tentaremos enquadrar o texto de Skinner na estrutura que seguimos até então. Isto é, não inseriremos fragmentos dos textos skinnerianos que podem ser compatíveis com uma análise conceitual do determinismo seguindo os subitens referentes a esse tema geral, a saber: determinismo causal, e suas variações; determinismo não-causal e suas vertentes, e como o behaviorismo skinneriano se relaciona com essa temática. Também não discutiremos em tópico separado a ontologia e epistemologia do determinismo no behaviorismo skinneriano. Tampouco seguiremos esse mesmo itinerário em relação ao indeterminismo.
Essa estratégia inverteria a “lógica” de nossa investigação. A função dessa estrutura é a de ser um meio ou instrumento para interpretarmos o texto skinneriano e não um fim em si mesmo. Além do mais, tentar adequar o texto de Skinner a essa estrutura poderia tornar demasiado artificial a discussão do tema. Ora, o texto skinneriano pode não se ajustar perfeitamente a este esquema, o que nos levaria a perder elementos importantes para
elucidarmos o tema proposto. Por exemplo, como veremos adiante, podemos extrair discussões conceituais, ontológicas e epistemológicas de um único texto, e até mesmo de um único fragmento textual, mostrando que, em alguns momentos, Skinner parece confundir os níveis de análise, ou pelo menos, não se preocupa em diferenciá-los explicitamente. Isso tem conseqüências diretas para a interpretação de seu posicionamento filosófico em relação ao tema, o que nos possibilita aferir com mais cuidado a pertinência de inúmeras críticas feitas ao sistema skinneriano, quando o assunto em tela é a determinação ou indeterminação do comportamento.
Certamente, toda discussão feita dos níveis de análise conceitual, ontológico e epistemológico, à luz de textos canônicos de alguns autores, será um background útil para aquilatarmos o posicionamento de Skinner não só em relação ao nosso tema principal (o determinismo e o indeterminismo), mas como tal posicionamento pode mostrar possíveis diálogos, afinidades e distanciamentos de noções, conceitos e princípios dos teóricos examinados até o momento. Enfim, por meio do exame das teses deterministas e indeterministas no Behaviorismo Radical poderemos, de quebra, elucidar o estatuto da ciência e, principalmente, da filosofia skinneriana no contexto mais geral das ciências e da filosofia da ciência.
1.1. Seleção dos textos
Feitas essas ressalvas, conduziremos a análise do texto skinneriano do seguinte modo: separamos textos relevantes ao nosso tema referentes a cada uma das décadas de produção intelectual de Skinner. Como Skinner tem uma obra extensa, que vai de 1930 a 1990 destacamos alguns textos em que pudemos encontrar, de modo mais claro, trechos que se referem à trama conceitual, tecida até aqui, sobre determinismo e indeterminismo. Com efeito, são textos que tratam diretamente do posicionamento de Skinner sobre ‘determinismo’ e ‘indeterminismo’. Também selecionamos textos que versam sobre temas adjacentes a esses termos, como causalidade, explicação científica, leis, previsão, papel das teorias científicas, liberdade, probabilidade, e assim por diante. Feita essa seleção, tentaremos interpretar o posicionamento de Skinner com respeito ao determinismo e indeterminismo à luz das categorias conceitual, ontológica e epistemológica.
Presumivelmente, há textos de determinadas décadas que trazem mais fragmentos sobre um assunto específico (determinismo, por exemplo) em todos os níveis de análise em comparação com textos de outras décadas. Por isso, dificilmente haverá uma simetria com respeito ao número de textos referente a cada década. Além do mais, nem
sempre poderemos extrair de um mesmo texto selecionado conseqüências conceituais, ontológicas e epistemológicas. Há textos que fazem mais alusão à epistemologia do determinismo em relação à ontologia, por exemplo. E o mesmo raciocínio vale para as demais perspectivas de análise. Não obstante, isso pode sugerir as nuanças do tratamento skinneriano do determinismo e indeterminismo.
Há textos que versam mais sobre uma formulação geral da ciência do comportamento e outros que falam mais da filosofia dessa ciência. De qualquer modo, os textos que abordam uma análise científica do comportamento, que parecem predominar no início da produção intelectual de Skinner até meados de 1950, serão considerados na medida em que nos ajudarem a esboçar o posicionamento de Skinner com respeito à determinação e indeterminação do comportamento. Em outros momentos, nos voltaremos para textos mais teóricos que falam da filosofia dessa ciência, cuja produção parece ter sido mais sistemática depois dos anos 1950 até a década de 1990 (ANDERY; MICHELETTO; SÉRIO, 2004).
Como a trama conceitual do indeterminismo compartilha de muitos conceitos do determinismo, os textos que selecionamos para interpretar o posicionamento de Skinner com respeito ao determinismo já trazem alguns indícios do estatuto do indeterminismo no behaviorismo skinneriano. Por isso, em alguns momentos, poderemos extrair de um mesmo texto ou fragmento, interpretações sobre determinação e indeterminação do comportamento. Não obstante, vale destacar que, a despeito de haver conceitos partilhados, o status desses conceitos nas teses deterministas e indeterministas são diferentes, daí a importância de se considerar o nível de análise em questão.
Certamente essas análises não contemplarão outros textos e trechos que, na perspectiva de diferentes intérpretes da obra de Skinner, poderiam ter sido inseridos nessa discussão. Todavia, o objetivo não é fazer um mapeamento completo da obra de Skinner sobre determinismo e indeterminismo, mas tão somente mostrar como a interpretação desses temas à luz das análises conceitual, ontológica e epistemológica pode contribuir para elucidar o posicionamento de Skinner sobre o assunto. Nesse sentido, fica em aberto a possibilidade de interpretação de outros textos e excertos sob esse lume filosófico, o que enriqueceria as análises preliminares que serão feitas aqui.
Dessa forma, obedecendo a uma ordem cronológica, apresentaremos alguns comentários do texto de Skinner que será analisado e, depois, uma seleção de trechos que serão interpretados de acordo com as discussões feitas nos capítulos anteriores (nas perspectivas conceitual, ontológica e epistemológica).
Vale destacar ainda, que a separação em décadas não quer dizer que, entre elas, haja uma mudança abrupta de posicionamento, ou mesmo que, no interior de cada uma, haja total homogeneidade. Com efeito, provavelmente deve haver mudanças graduais, retrocessos, idas e vindas. Nesse sentido, o recorte operado, aqui, não pretende ser um retrato fiel de todas essas nuanças. Trata-se, pois, de uma separação útil para mostrar as eventuais mudanças que tenham ocorrido no interior do Behaviorismo Radical, no tocante ao determinismo e indeterminismo.