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Segundo os recentes estudos de W. Burkert480, os mistérios eram ritos de iniciação (myèsis ou télétè) que permitiam ao neófito (mystès) uma ligação mais estreita

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Ver imagem do fresco em Alvar, 2012, p. 72 (actualmente o fresco encontra-se no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles; inv. nº 9558).

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Io era uma jovem de Argos, sacerdotisa de Hera Argiva e que Zeus amou. Para a salvar dos ciúmes da sua mulher, Zeus transformou Io numa vitela maravilhosamente branca, acabando por ser oferecida a Hera. Após muitas tribulações e viagens, retomou a sua primitiva forma e instalou-se no Egipto onde reinou sob o nome de Ísis (Grimal, 2009, p. 251).

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Préaux, 1978, pp. 649-652.

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O Serapeu de Mênfis era uma necrópole situada entre Abusir e Sacara (Rachet, 1994, p. 836), onde os sacerdotes enterravam os touros Ápis mumificados com grandes solenidades, substituindo imediatamente o touro defunto por um outro. A conjugação pelos teólogos de Ápis e de Osíris resultou no nome Oserapis, tornando a necrópole num Serapeu visitado por uma multidão atraída especialmente pela virtude mágica dos túmulos (Préaux, 1978, p. 649 e López, 1993, p. 40). O touro associa à necrópole e à tumba a perpetuação da vida, baseada no seu poder fecundante (Brázia, 2011, p. 162). No entanto é preciso salientar que, segundo G. Rachet (1994, p. 836), não se pode confundir os santuários dedicados ao deus Serápis com o Serapeu da necrópole de Mênfis.

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com a divindade, através de uma experiência do sagrado (o rito tende a fazer entrar o candidato em comunhão com a divindade por actos extremamente pessoais481). Esta intimidade com o divino482 visava a obtenção de uma forma de salvação (sôtèria, salus), mas uma salvação inteiramente prática, logo neste mundo, mesmo nas promessas de uma outra vida483. Por outro lado, em termos psicológicos, os mistérios bem sucedidos permitiam também uma mudança de consciência e um estado de bem-estar do mystès (télétai terapêuticos)484. A admissão e a participação dependiam portanto de um ritual próprio485, a cumprir sobre o candidato que tinha os meios para a sua concretização. O segredo486 e, na maior parte dos casos, uma encenação nocturna, acompanhavam este exclusivismo487.

Largamente paralelos às práticas votivas (a religião votiva constitui o pano de fundo da prática dos mistérios), os télétai acabavam por ser uma nova forma religiosa mais pessoal para pessoas abastadas, integrados na teia muito mais complexa dos cultos dos deuses egípcios e correspondendo às necessidades diversas dos que estavam em

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Morenz, 1977, p. 320.

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Ísis tinha nomes infinitamente numerosos por todo o mundo. Ela é myrionymos. Mas quem se volta para Ísis, quem conhece seu nome e as formas especiais do ritual egípcio, tem o acesso mais directo ao divino (Burkert, 2003, p. 55).

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O receio da morte é uma realidade da vida e muita gente, segundo uma descrição de Plutarco (Non posse, 27, 1105 b), pensava que certas espécies de iniciações e de purificações iriam ao seu auxílio, permitindo, uma vez purificados, continuar a jogar e dançar no Hades, em lugares cheios de esplendor, de ar puro e de luz (Burkert, 2003, p. 27). Por seu lado, F. Cumont pensa que o indivíduo, se serve piedosamente Osíris-Serápis, será assimilado a ele e partilhará a sua eternidade no reino subterrâneo, onde assenta o juiz dos defuntos. Ele viverá não como uma sombra ténue ou como um espírito subtil, mas em plena possessão de seu corpo como da sua alma. Tal foi a doutrina egípcia e tal foi certamente, segundo o autor, também a dos mistérios praticados no mundo greco-romano. Pela iniciação, o misto renascia para uma vida sobre-humana e tornava-se igual aos imortais. No seu êxtase, ele pensava transpor o limiar da morte e contemplar face a face os deuses do inferno e os do céu. Após o seu falecimento, se tinha cumprido exactamente as prescrições que, pela boca de seus sacerdotes, foram impostas por Ísis e Serápis, a sua vida seria então prolongada para além da duração que lhe estabeleceram os destinos (Cumont, 1906, pp. 121-122).

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Segundo W. Burkert (2003, p. 85), a iniciação devia ser um evento inesquecível para o neófito, iluminando todo o resto da sua vida, criando uma experiência que transforma a existência. Vários textos antigos afirmam claramente que a participação nos mistérios foi uma forma particular de experiência, que provoca um pathos na alma (psychè) do iniciado. Aristóteles dizia já que, em definitivo, nos mistérios não era questão de “aprender” (mathein) mas de “sentir”/”sofrer” (pathein), e de estar colocado numa certa disposição de espírito (diatéthènai).

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Para os mistérios de Ísis era uma iniciação gradual: três vezes o herói de Apuleio deve submeter-se a esta prova para obter a revelação integral (Cumont, 1906, p. 120).

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A protecção do segredo dava maior valor ao prestígio dos cultos mais sagrados (Burkert, 2003, p. 12).

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busca de salvação e de êxito. Os mistérios não constituíam portanto a raiz e o centro do culto egípcio, havia outras formas de culto “normal” para a devoção do não-iniciado, com festas anuais de data fixa, e as oferendas privadas eram solicitadas e recebidas sem restrições.

As relações entre iniciações privadas e festas oficiais nos cultos que possuíam mistérios eram complexas e longe de ser uniformes. Em Elêusis, por exemplo, a iniciação marcava o ponto culminante da festa de Outono, justamente chamada

Mystèria; a iniciação de Lúcio-Apuleio, por outro lado, não era ligada a uma festa de data fixa, mas determinada pelo mandamento divino, por meio de sonhos488; contudo, os

initiati participavam colectivamente à procissão anual dos Ploiaphésia em Coríntia (Apuleio, Met., XI, 17).

Para além dessas cerimónias (privadas ou oficiais), nos santuários dedicados a Ísis, por exemplo, o clero residente servia quotidianamente os deuses egípcios, de manhã à noite. Ou seja, vê-se que os mistérios eram uma forma especial de culto cumprida no quadro mais largo da prática religiosa reconhecida.

III) 4) Os santuários romanos e egípcios – aspectos