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6.2 Hva elevene oppgir å arbeide med

6.2.1 Resultater i OTL-perspektiv

“Lá não tinha nada, assim, de outras coisas, a gente nem sabia que existia. Achava que era só daquele jeito. Aí nesse colégio agora que eu conheci, não sabia que existia”.

Inesinha Peixoto

No começo da sua narrativa, Inesinha resume sua história em poucas palavras:

“Eu nasci em Belo Horizonte. Casei, fui embora para o Mato Grosso. Depois voltei, agora resolvi estudar, mas acho que vou parar, porque estou sentindo muita dor, não estou conseguindo mais. Mas é a vida, né?”.

Aos poucos, fomos desenrolando cada detalhe.

Nossa educanda de 58 anos é parda, casada e, assim como o marido, possui baixa estatura – nanismo. Hoje ela frequenta o 2º ano do 2º ciclo do Colégio Mussum, referente à 2ª etapa do Ensino Fundamental. Sua trajetória inicial de estudos foi interrompida na 3ª série:

“Eu parei de estudar na 3ª série porque não encontrava escola

adaptada pra mim. As escolas eram todas de pessoas grandes e não tinham respeito comigo. Então eu fui muito prejudicada nas escolas também, não tinha respeito, não tinha educação, as professoras não

tinham capacidade de lidar com a gente. A gente tinha problema de estatura e elas não tinham capacidade de entender isso e eu fui tomando raiva, tomando pavor de professora. Agora eu estou tentando voltar a estudar e não estou conseguindo. Agora não é pelo mesmo motivo de antes, os professores são ótimos, não tenho nada a reclamar, só que agora o meu problema de quadril está complicado, eu estou sentindo dor” (Inesinha Peixoto, 58 anos)

Na primeira escola que estudou, quando passou a morar com o irmão e a cunhada após o falecimento da mãe, Inesinha conta que gostava das professoras. Foi na mudança de residência para outro bairro de Belo Horizonte que ela encontrou dificuldade de adaptação em sua nova escola, ocasionando o rompimento de seus estudos: “As professoras da nova escola não sabiam lidar comigo, aí eu parei de

estudar na 3ª série”.

Ela conta os percalços de sua vida sem os estudos, unindo-se a tantos outros estudantes da EJA com marcadas trajetórias de exclusão social. Para Inesinha, sua superação estava não somente em vencer as barreiras impostas aos não-alfabetizados em um mundo letrado, mas também aos preconceitos contra as pessoas que necessitam de tratamentos especiais:

“Naquela época as empresas não davam oportunidade pra quem

não tinha estudo, principalmente pra deficiente, eles tinham preconceito. Hoje eles até imploram pra cota de deficiente. Eu tive oportunidade de trabalhar só com minha irmã, no escritório e o meu serviço era bem desenvolvido, eu era office boy. Eu não sabia nem ler, nem escrever, mas chegava na Prefeitura e resolvia as

coisas” (Inesinha Peixoto, 58 anos).

Em seu depoimento, vemos as estratégias utilizadas por ela para fazer seu serviço bem desenvolvido, mesmo com poucos anos de escolarização, sendo esta uma característica própria daqueles que possuem trajetórias como a sua. Em seguida, percebemos mais claramente estas estratégias na inserção em um novo trabalho:

“Trabalhar com eventos não me exigia estudos. Eu tinha vergonha

se me mandava escrever uma letra, se era pra fazer recepção e tinha que escrever o nome na lista de uma pessoa, eu tinha vergonha porque eu não sabia escrever, mas eu sempre ficava com colega minha que escrevia. Eu usava de esperteza, né? Jogava a

Inesinha realiza os eventos mencionados há quinze anos. Começou quando trabalhava em um barzinho, à noite, de quarta-feira a domingo, ao mesmo tempo em que trabalhava no escritório da irmã: “O pessoal me descobriu nesse barzinho e a gente

ficou popular, né? A gente trabalhava entre anões, nos barzinhos, e a gente era só atendente e as pessoas começaram a chamar a gente pra fazer eventos”.

Para clarear seu trabalho com eventos, ela narra suas atividades:

“A gente faz recepção em portaria, faz segurança, brinca com o

pessoal, diverte o pessoal, faz brincadeiras com o pessoal. Eu visto de noiva, faço barzinho, tenho terno. Festa infantil eu quase não estou pegando mais, porque não estou dando conta de correr, se precisar de correr atrás de menino eu não dou conta mais. É uma animação que a gente faz, eu visto de duende, os meninos brincam e a gente corre atrás. Eu gosto desse trabalho, mas eu gosto mais de fazer recepção em portaria, é mais gratificante porque todo mundo quer tirar retrato, é mais gostoso. Criança também é bom, mas criança agora tá mais difícil. Mas eu faço, se precisar eu faço, só que sentar no chão eu não sento mais (risos)” (Inesinha Peixoto, 58 anos).

O problema de saúde mencionado são as dores constantes devido a uma cirurgia de quadril, que dificulta sua caminhada e exige que utilize os elevadores do colégio para chegar à sala de aula.

O marido, técnico em contabilidade, ela conheceu no programa do Sílvio Santos,

Namoro na TV: “O Sílvio me fez um convite, eu tinha mandado três cartas pra ele, aí eles abriram minha carta e acharam que eu era criança, mas quando eu fui participar, o Sílvio me conheceu e ficou doido comigo”. Na ocasião, há 35 anos, ela conta ter

recebido dezenove cartas de vários pretendentes: “Quando eu mandei cartinha eu achei

que não ia dar em nada não. Eu era muito moleca, não queria saber de nada não. Eu escolhi meu marido, que estava nas dezenove cartas. Ele é dez anos mais velho do que eu. Mas eu tinha gostado dele, casei”.

Inesinha contou-nos seu sonho, os objetivos que justificam seu retorno aos bancos escolares: “Minha vontade é só aprender escrever. É só pegar um papel e

escrever uma palavra, sem precisar pedir ninguém pra escrever pra mim. Pegar o celular e mandar uma mensagem, sem precisar de ninguém escrever pra mim”.

Sua participação no Grupo de Dança do Colégio Mussum é considerada uma extensão de sua atuação profissional, aproximando mais uma vez a cultura nas escolas

com a realidade de seus educandos: “Faz parte, né? Se eu estou ali atuando, eu estou

fazendo um trabalho também, tem a ver com o meu trabalho”.

Perguntada se ela se sente uma artista, Inesinha finaliza sua entrevista com seu bom humor:

“Eles me convidam pra participar de programa de televisão,

convida o grupo pra brincar, o povo acha que a gente é brinquedo, né? Mas é um brincar de trabalho, eu gosto de brincar trabalhando. Quando eu estou na televisão eu não ligo não, não cresce muito à mente não. Eu acho que eu não nasci pra isso não (risos)” (Inesinha Peixoto, 58 anos).