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A classificação das palavras tem sido um tema controverso que tem vindo a sofrer alterações desde a época clássica, altura em que Platão apresentou a sua proposta para agrupar as palavras.

Neste trabalho optou-se por considerar a definição da gramática tradicional tendo como referência a gramática de Cunha & Cintra (1996:77) que apresenta as classes de palavras que se seguem:

• Substantivo • adjetivo • verbo • advérbio • artigo • pronomes • numerais • preposição • conjunção

O nosso foco de interesse incide na classe dos advérbios, concretamente das locuções adverbiais uma vez que o nosso objeto de estudo - além de - se enquadra nessa categoria. Passemos então à definição dos advérbios segundo alguns autores. De acordo com Cunha & Sintra:

“O advérbio é, fundamentalmente, um modificador do verbo. (…) Os advérbios recebem a denominação da circunstância ou de outra ideia acessória que expressam.”

(Cunha & Cintra, 1996:537)

No dizer de Brito, um advérbio é

“…uma classe ou categoria de palavras bastante heterogénea e complexa, cuja designação repousa na ideia, ilusória, de que modifica apenas verbos e de que vem geralmente junto deles; na verdade, os advérbios modificam vários tipos de constituintes e podem ocupar posições distintas.”

(Mateus et al., 2003:417)

Concretamente no que respeita à forma além de, a gramática tradicional classifica-a como locução adverbial uma vez que o primeiro elemento além é um advérbio.

Já na Moderna Gramática Portuguesa, Evanildo Bechara (2002:301) considera

além de como uma locução prepositiva uma vez que é constituída por um advérbio

seguido da preposição de.

Se consultarmos o Dicionário terminológico para consulta em linha, podemos ainda constatar que, ao nível do discurso, além de se enquadra na categoria de conetor

discursivo uma vez que liga “um enunciado a outro enunciado ou uma sequência de

enunciados a outra sequência, estabelecendo uma relação semântica e pragmática entre os membros da cadeia discursiva, tanto na sua realização oral como na sua realização escrita”.

Em termos práticos além de aparece em contextos muito diversos e com aceções algo diferentes. Vejamos alguns exemplos dessas aceções:

(6) uso espacial: ultrapassar o limite A escola fica além daquela casa. (7) uso temporal: ultrapassar o limite Ele corre sempre além de uma hora. (8) qualidade: exclusão (similar a exceto) Não deves comer muito além disso. (9) qualidade: concessiva (similar a apesar de) Além da chuva foi um dia bonito.

Independentemente da aceção em que se aplica a forma além de, esta construção indica sempre a transposição de um limite.

2.1 Posição na frase

O conetor além de tem vindo a ser usado na oralidade com o mesmo comportamento semântico-pragmático do conetor concessivo apesar de para introduzir orações concessivas factuais, sendo ambas as formas construídas com os verbos no modo indicativo, conjugados no infinito flexionado ou não flexionado conforme se trate de uma oração no passado ou no presente:

(10) Além de estar com febre, vou trabalhar. (11) Além de ser teimoso, ele era bom rapaz.

Em termos de mobilidade na frase apresentam também o mesmo comportamento podendo aparecer no primeiro ou no segundo segmento.

(12) a) Apesar de ser teimoso, ele era bom rapaz. b) Ele era bom rapaz, apesar de ser teimoso. c) Ele apesar de ser teimoso era bom rapaz. (13) a) Além de ser teimoso, ele era bom rapaz.

b) Ele era bom rapaz, além de ser teimoso. c) Ele além de ser teimoso era bom rapaz.

Com ambas as formas, o segmento que tem o Conetor Concessivo23 (CC) opera como Tópico sendo a informação que apresenta tida como conhecida e aceite pelos interlocutores e o segmento que não tem o CC opera como Foco, ou seja, a informação

23

Barros (2010:410) refere uma Verdade Geral, conhecida e prevista, apresentada pelo Tópico e uma Verdade “Posta”, sob rutura ou excessão, apresentada pelo Foco

fornecida é nova e é esta nova informação que comanda a orientação posterior do discurso.

A direção argumentativa é, portanto, sempre a do segmento que não tem o CC. A informação no segmento com o CC, o tópico, parece indicar haver condições para uma determinada realização se concretizar mas este contrastivo concessivo interrompe o curso semântico da frase orientando-o no sentido oposto:

“Os contrastivos conetam orações que contêm argumentos anti- orientados: avançam uma nova direção argumentativa e simultaneamente fazem-se eco de uma outra voz individual ou plural, do senso comum, sendo portanto uma típica expressão de polifonia, e de polifonia discordante.”

(Barros, 2002:74)

Vejamos agora o comportamento do além de em termos de distribuição na frase. Teoricamente os CC podem apresentar uma anteposição, inserção ou posposição mas nem todos permitem todas estas posições. Considerando que no esquema que se segue X corresponde ao primeiro segmento da frase, Y ao segundo segmento da frase e C ao conector concessivo, observemos as combinatórias possíveis para a forma além de.

X:

CX, Y - Além de ser cansativo, foi divertido.

*XCX, Y - *Ele além de ser chato, é simpático. *XC, Y - *Estar a chover além de, está calor.

Y:

X, CY - Foi divertido, além de ser cansativo. *X, YCY - *É simpático, ele além de ser chato24. *X, YC - * Está calor, estar a chover além de.

Como é possível observar acima neste tipo de construção, o conetor concessivo não permite a sua aplicação na posição intermédia (XCX, Y; X, YCY) nem na posição final (XC, Y; X, YC) tanto no primeiro como no segundo segmento. Apenas permite a colocação inicial em ambos os segmentos (CX, Y e X,CY).

Primeiro segmento Segundo Segmento

Posição inicial Posição intermédia Posição final Posição inicial Posição intermédia Posição final

     

Tabela 1: Posição na frase

No entanto, é possível que um conector concessivo surja em posição intercalada em construções como (14), à semelhança de outros conetores concessivos, tais como

embora, ainda que, apesar de.

(14) O João, além de não ter estudado, tirou uma boa nota.

Esta mobilidade do conetor concessivo contrasta, por exemplo, com a rigidez do conetor adversativo mas, cuja posição na frase é fixa.

(15) a) O João não estudou, mas tirou uma boa nota. b) *Mas tirou uma boa nota o João não estudou.

CAPÍTULO III

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