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O tempo de realização do sonho, da utopia não é o tempo do agora, do imediato. Mas é no tempo imediato que se podem traçar caminhos, que se constroem possibilidades de trajetos para se chegar onde quer. Os sonhos não nascem e nem se fazem sozinhos. Vêm de outros tempos, trazem a memória daquilo que deveria ser e ainda não foi. E projeta para ser feito num outro tempo, com as condições forjadas para isso. Sonho não é ilusão, é desejo de se ter o que não se tem e não se viveu ainda, ou o que se perdeu.

Na educação vários tempos se entrecruzam. Assim como se entrecruzam sonhos e utopias. O tempo dos educandos e dos educadores, com tempos diferentes de aprender e de ensinar. O tempo dos gestores escolares, que driblam o tempo administrativo e a urgência de um tempo pedagógico, conjugados com o tempo dos educadores e dos educandos. O tempo das pessoas que trabalham com a educação tem que ser o tempo da ação pedagógica, mas a sabedoria estará não só em conciliar tempos diferentes para as tarefas que a rotina lhes impõe, como se a educação fosse imutável. É preciso forjar outros tempos para a educação, sair de suas matrizes curriculares engessadas e sem vida, de seus horários rígidos de escolarização, que aprisionam os educandos em salas de aula, como se este fosse o único espaço possível para o trabalho educativo. Resistimos a mudanças de

tempo porque só sabemos lidar com eles aprisionados nesta estrutura. A definição da educação no tempo da escola é tão antiga e foi tão fortemente arraigada enquanto representação do que é escola, que muitos não sabem que já foi diferente e não acreditam que possa mudar.

Para a educação de jovens e adultos, o tempo da escola não coincide com o seu tempo de trabalho e de vida familiar. A evasão dos educandos que voltam à escola mostra que este tempo definido para a sua escolarização não responde à sua necessidade de sujeito aprendente. O tempo da escola está fortemente marcado pelo tempo do currículo, mas ele mesmo faz parte do currículo; o que é feito ou não no tempo da escola faz parte do currículo. Faz parte pela sua oferta e pela sua negação. Vemos resultados insatisfatórios tanto de permanência do jovem e adulto na escola, quanto de resultados de aprendizagens e, mesmo assim, resistimos em mudar. Nos agarramos àquilo que sabemos fazer e tendemos a por a culpa do fracasso naquele que fracassou e justificamos que seu tempo não é mais apropriado para a educação e não o contrário.

Os gestores de políticas públicas, lidam com a relação conflituosa do tempo dos grandes projetos, que poderão deixar marcas do seu governo, com o tempo do trabalho cotidiano, quase insano, quando se quer fazer muito em pouco tempo, pois o tempo da política parece seguir outro relógio e não aquele feito para a ação pedagógica, no tempo do sujeito a ser educado. O tempo de quem está na gestão educacional de um determinado governo é pouco, mas é grande para quem está fora. Os mesmos quatro anos, insuficientes para a execução de políticas públicas por parte de quem está no poder, parecem não terminar para aqueles que pretendem iniciar ou retornar ao poder.

Qual o tempo necessário para que um projeto de educação possa de fato, ser implementado? Como se articulam os tempos da urgência pedagógica e da política? Há problemas a serem resolvidos e que não dependem de vontade de quem está no governo, seja de direita ou de esquerda, como manter a estrutura das escolas funcionando, por exemplo. E não há dúvidas atualmente de que a escola deve ser para todos e de qualidade, principalmente quando os países são cobrados por resultados para cumprir acordos de financiamentos internacionais e por ser reconhecida a importância da educação para o seu desenvolvimento e inserção no mundo globalizado em situação de igualdade ou de menor desigualdade. O governo federal cobra dos Estados e Municípios este retorno e quem assume um governo municipal sabe de sua tarefa de atendimento a demanda por escolarização e de resultados positivos no ranking comparativo com outros estados ou municípios.

Poderia distinguir os tempos das políticas publicas em:

a) Tempo de governo: é passageiro, temporal. Varia de acordo com o âmbito; no caso do governo municipal é de quatro anos para cada gestão. Um dos principais desafios neste tempo de governo é ter capacidade de conciliar a governabilidade e a fidelidade aos princípios e programas de governo quando eleitos. No campo pedagógico o desafio se coloca quanto à capacidade de convencimento de que sua proposta de mudança é boa e que vale a pena realizar e de fazer chegar à escola, no tempo de sua gestão, as mudanças que propõe.

b) Tempo político: também é passageiro, mas é mais amplo do que o dos governos. Envolve o tempo do partido político e pressupõe articulações em torno dos sonhos e de projetos de futuro. Esta articulação envolve ações para se manter no governo ou voltar para o governo.

c) Tempo da educação: mais estático do que os demais, tem sua base na permanência, na continuidade. Depende dele a continuidade de uma sociedade que se aceita como ideal, como boa para as futuras gerações. As mudanças no campo educacional, no tempo dos governos, são mais propensas a se adequarem aos tempos da política em detrimento de mudanças de concepções e de práticas pedagógicas.

c) Tempo pedagógico: há um tempo pedagógico pensado para a viabilização das propostas de mudanças curriculares nas escolas. Este tempo pedagógico conflita com os tempos (mais lentos) necessários para mudanças de concepção na educação e os tempos de governo (mais rápidos) com os limites do tempo político que dá apoio aos tempos de governo. O desafio está também em conciliar estes tempos na exeqüibilidade de propostas, mas, principalmente, na sua continuidade.

O que vai diferir de um governo para outro e das equipes que são indicadas para assumir esta tarefa em cada governo é exatamente isso: como será atendida esta demanda e que qualidade se pretende imprimir para a educação na cidade. A partir dessas escolhas é que se podem definir os tempos para a implementação dos projetos, pois dependem da concepção que se tem de educação, de homem/mulher e de mundo. A partir desta concepção e dos sonhos que se tem em relação a que homens e mulheres querem formar para viver neste mundo é que se vai definir a educação que será oferecida a crianças, adolescentes, jovens e adultos. O discernimento entre o que se pode realizar a curto, médio e longo prazo é fundamental para não se perder em ativismos sem planejamento ou gastar tanto tempo no plano que não sobre tempo para a ação.

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