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Na obra Teologia da Cultura, citando Agostinho, Tillich diz que, segundo esse filóso- fo, a verdade (veritas) é sempre pressuposta em todos os argumentos filosóficos; e veritas é Deus. Não se pode negar a verdade como tal porque sempre a estaríamos negando em nome da verdade e, assim, estabelecendo-a. O problema dos dois absolutos – absoluto filosófico e o absoluto teológico – é resolvido de tal maneira que o religioso pressupõe qualquer questão filosófica, inclusive a questão de Deus. Nesse sentido, Deus é o pressuposto para a questão de Deus. Deus jamais será alcançado se for objeto de busca; e não sua base.

A verdade presente em todas as questões e dúvidas precede a separação entre sujeito e objeto, pois nenhum destes é poder absoluto, não obstante participarem no poder supremo acima deles, no ser-em-si, no primum esse. (...) Esse Ser (que não é um ser) é pura atualização e, portanto, divino. Sempre o vemos, embora nem sempre o percebamos, assim como vemos as coisas sob a luz sem ter consciência da luz. (TILLICH, 2009, p.51)

Tillich também faz algumas considerações sobre o argumento ontológico na obra Teo-

logia da Cultura. O autor, assim como o fez na Teologia Sistemática, diz que o argumento

ontológico não é propriamente um argumento sobre a existência de Deus, mas trata-se da descrição racional de nossa mente sobre o ser-em-si. Tillich diz: “Deus est esse, e a certeza de Deus é idêntica à do Ser-em-si. Deus é o pressuposto da questão de Deus” (TILLICH, 2009, p.53). Nessa obra, Tillich diz: “A questão dos dois absolutos só pode ser respondida identificando o absoluto filosófico com o único elemento absoluto religioso” (p.53). Portan- to, “Deus est esse é a base da filosofia da religião” (p.53). No dizer do autor, essa condição de unidade entre pensamento e religião é capaz de superar as rupturas esquizofrênicas na vida pessoal e cultural.

O princípio ontológico na filosofia da religião, segundo o autor, pode ser afirmado da seguinte maneira: “Os seres humanos são imediatamente conscientes de algo incondicional que é o prius da separação e da interação entre sujeito e objeto, tanto teórica como pratica- mente” (TILLICH, 2009, p.60). Tillich esclarece que o termo “conscientes” não possui co- notação de intuição, experiência e conhecimento, já que o incondicionado não se dá como

Gestalt para ser intuído, não se sujeita à observação experimental e também não pressupõe a

separação entre sujeito e objeto; antes, o incondicionado pode ser entendido como elemento, poder e exigência (cf. p.60). A consciência do incondicional já é incondicional e, portanto, além das divisões das funções psicológicas. “O ser humano inteiro, e não apenas sua função cognitiva, tem consciência do incondicionado” (p.61). Essa “consciência”, segundo Tillich,

poderia ser chamada de “existencial”, no sentido de participação como um todo no ato do conhecimento. O autor diz: “Se, por um lado, a teologia é direta e intencionalmente exis- tencial, a filosofia o é indiretamente e sem intenção, por meio da situação existencial do filósofo” (p.62).

Em se tratando de “incondicional”, Tillich expõe que devemos fugir de algumas cono- tações erradas: “„o incondicionado‟ ou „algo incondicional‟ não significam um ser, nem o mais alto, nem mesmo Deus. Deus é incondicionado e, por isso, é Deus, mas o „incondicio- nal‟ não é Deus” (p.62). A palavra “Deus” está repleta de símbolos concretos que expressam o fato de sermos tocados por algo incondicional (preocupação última). Mas, segundo o teó- logo, esse “algo incondicional” não é uma coisa, mas o poder de ser no qual todos os seres participam. Esse poder de ser é o “prius de todas as coisas que têm ser” (p.62); é o ponto de identidade sem o qual nem separação nem interação poderiam ser pensadas; ou mesmo, a “separação e a interação entre sujeito e objeto, em conhecimento e ato” (p.63).

Ao falar sobre as tentativas fracassadas de provas da existência de Deus, o autor diz que o ateísmo e o misticismo serviram como respostas corretas e teológicas para nos condu- zir ao incondicionado. Segundo o autor, a terminologia ateísta do misticismo nos conduz para além de “Deus” e nos faz chegar ao incondicional, “transcendendo todas as fixações do divino em objetos” (p.63). Assim, sentimo-nos incapazes de nomear a Deus.

Ao final de sua análise, o teólogo expõe o que compreende por ser-em-si: “O Ser-em- si, presente na percepção ontológica, é o poder de ser, não o ser mais poderoso (...) É o po- der presente em todas as coisas que tem poder, seja universal ou individual, coisa ou experi- ência” (p.63). Em suma, no âmbito da Teologia da Cultura, o ser-em-si é visto como poder de ser, isto é, aquilo que dá sentido e movimento às coisas.

Como o intuito da obra Teologia da Cultura é pensar o modo como Deus se manifesta na cultura, obviamente, a abordagem ontológica e teológica de Tillich adquire maior ima- nência e concretude. Porém, tal como na Teologia Sistemática, nessa obra Deus também surge como fundamento e abismo do ser e do conhecimento. Fundamento porque o incondi- cionado se manifesta na cultura, na vida, na arte, etc. Abismo porque os símbolos que ex- pressam preocupações últimas não podem descrever a Deus. Por isso, o autor afirma “o in- condicionado que apreendemos imediatamente, sem interferências, pode ser reconhecido no universo cultural e material” (p.64).

Em outras palavras, a manifestação de Deus é reconhecível na cultura e nos objetos, mas Deus é também abismo porque sua transcendência é necessária como critério daquilo

que é condicionado. Como vimos, o incondicionado não é o próprio Deus, apesar de Deus ser incondicionado. Portanto, ainda que não seja possível descrever a Deus, é possível reconhecer suas manifestações na cultura.

A ênfase do autor nessa obra recai sobre o sentido de Deus como “poder de ser” e seu objetivo não era explicar a relação entre Deus e o ser, mas simplesmente mostrar a ma- nifestação do divino na cultura. Não obstante, o autor afirma que “o pressuposto dessa ten- tativa multifacetária é que cada criação cultural (...) expressa uma preocupação última, pos- sibilitando o reconhecimento de seu caráter inconscientemente teológico” (p.65). Com efei- to, cabe ao autor procurar os elementos teológicos que subjaz às culturas e buscar relacionar teologia com diversas áreas do conhecimento. Por isso, a obra não pretende abordar ampla- mente a ontologia, não sendo a mais adequada para a compreensão da relação entre Deus e o ser. Apesar disso, ela nos ajuda a compreender o caráter imanente e concreto da doutrina de Deus de Paul Tillich. Contudo, para melhor esclarecimento sobre a “realidade efetiva de Deus”, utilizaremos a obra Teologia Sistemática.