A partir da materialização textual, ou seja, do registro das manifestações das experiências vividas pelas bailarinas por meio dos instrumentos relacionados anteriormente (curriculum vitae, narrativa e conversa hermenêutica) - chamada etapa de textualização (van Manen, 1990) -, a interpretação dos textos tem início com uma sucessão de procedimentos referidos como etapa de tematização (van Manen, 1990), visando encontrar temas hermenêutico-fenomenológicos (Freire, 2012) que revelam as qualidades essenciais do fenômeno investigado (Freire, 2012a), conferindo-lhe identidade.
A respeito da textualização, Gadamer (1975/2002:384) e Ricoeur (1986/2002) ressaltam o importante papel da linguagem como mediadora na interpretação e compreensão de fenômenos da experiência humana.
Retomando o processo interpretativo, os textos passam em seguida pela etapa de tematização (van Manen, 1990), que busca compreensão do que está contido em suas entrelinhas, revelando ações e intenções emergentes do fenômeno investigado. Sendo assim, a identificação dos temas, subtemas e sub-
subtemas é um procedimento que contribui substancialmente para a compreensão dos sentidos revelados pelos textos assim como para sua interpretação conforme afirma van Manen (1990:86):
[...] we try to underneath something “telling”, something “meaningful”, something “thematic” in the various experiential accounts – we work at mining meaning from them. Even as the various situations were selected, different thematic meanings seemed to emerge (grifos do autor).
É válido ressaltar que a escolha terminológica de temas, subtemas e sub- subtemas revela a relação dialógica e complementar entre os substantivos que expressam a interpretação do fenômeno, eliminando qualquer relação hierárquica entre eles (Freire, 2010, 2012).
Na etapa de tematização, iniciam-se os procedimentos de refinamento e ressignificação (Freire, 2010, 2012, 2012a), realizados a partir de diversas leituras e releituras dos textos coletados.
O refinamento consiste na identificação das unidades de significado e avaliação da sua relevância; ou seja, são observados os termos que melhor expressam o significado essencial do fenômeno, suas características fundamentais.
A ressignificação é um procedimento diretamente ligado ao refinamento e se baseia no confronto contínuo das unidades de significado verificadas no texto, permitindo que as escolhas iniciais sejam confirmadas, descartadas ou transformadas continuamente, tornando-se possível o reconhecimento dos temas por meio de substantivos, considerados as menores unidades de significado que possuem carga semântica, podendo, assim, nomear os temas observados (Freire, 2012a).
Segundo van Manen (1990:87-89), a identificação dos temas não é uma tarefa simples, pois exige aprofundamento, sintonia e um olhar sensivelmente atento e minucioso do intérprete para captar o que existe de mais essencial e intrínseco à natureza do fenômeno.
É importante destacar que esses procedimentos propiciam um “mergulho interpretativo cada vez mais denso e intenso” (Freire, 2010:24) por parte do pesquisador, devido à recorrência dos procedimentos de refinamento e ressignifição que são repetidos exaustivamente, atribuindo-lhe um “caráter
circular” (Ricoeur, 1986/20 releituras dos textos coleta
Esses sucessivos proposto por van Manen fenomenológica validade alguma medida, dando c abordagem” (Freire, 2010 pelo ciclo de validação hermenêutica, conceituad conforme observa Freire (1986/2002:186-187) salie verificação da validade da enfoques subjetivo e o invalidar/descartar escolha Sintetizando os pro o que denomina rotinas distintivos da abordagem h
Quadro 2.2: R
986/2002), uma vez que são necessárias div coletados.
sivos movimentos correspondem ao “ciclo anen (1990), “o qual confere à interpretação idade e confiabilidade, legitimando as desc ndo conta da subjetividade interpretativa, qu 2010:24). Paralelamente ao movimento circu
ação é verificado o movimento circular de eituado como “círculo hermenêutico” por He Freire (2010, 2012, 2012a). A esse res ) salienta que não se trata de um círculo
de das unidades de significado e dos temas e objetivo dos textos a fim de valida scolhas temáticas feitas anteriormente.
os procedimentos explicitados acima, Freire (2 tinas de organização, interpretação e va gem hermenêutico-fenomenológica:
: Rotinas de organização e interpretação (Freir
as diversas leituras e
“ciclo de validação” tação hermenêutico- descobertas e, em va, que é inerente à circular estabelecido lar de compreensão or Heidegger (2006) e respeito, Ricoeur rculo vicioso, pois a temas é tratada com validar/confirmar ou
eire (2007) apresenta validação, traços
De forma a exemp pelas bailarinas deste esp anteriormente, selecionei realizada em 28/01/2014,
Quadro 2.3: E
O excerto destacad a necessidade da bailari deparou em sua experiê releituras deste trecho, de possível encontrar o tem
adaptação, o qual, por
retração. Assim, tema, s também entre os demais fenômeno investigado.
xemplificar o processo de interpretação dos espetáculo por meio dos instrumentos de re ionei um trecho da transcrição da conversa 014, no qual Clara afirma:
2.3: Exemplo das rotinas de organização e interp
tacado, transcrito literalmente na coluna textu ilarina de pertencer à nova realidade com periência de estudos no exterior. Após div
de maneira articulada com os demias texto o tema PERTENCIMENTO, que se relacion l, por sua vez, estabelece conexão com
ma, subtema e sub-subtema interrelacionam emais temas - e seus desdobramentos - qu
o dos textos gerados de registro definidos nversa hermenêutica,
interpretação
textualização, revela e com a qual ela se s diversas leituras e s textos coletados, foi elaciona ao subtema com o sub-subtema cionam-se entre si e que constituem o
Com o objetivo de preencher seu sentimento de PERTENCIMENTO naquele contexto, Clara utilizou-se da retração pois tinha algum tipo de receio de que os suíços estranhassem sua diferente maneira de ser e de comportar-se, o que imaginava que poderia afastá-los de seu convívio. Portanto, ela inibiu-se na tentaviva de entrosar-se com o grupo e de ser acolhida, estabelecendo, assim, sua adaptação aos costumes da nova comunidade em que habitava.
Os procedimentos de interpretação ilustrados anteriormente são repetidos inúmeras vezes de maneira recursiva e articulada ao conjunto dos textos coletados, na busca por compreender os construtos que caracterizam e identificam o fenômeno em estudo.
Dessa maneira, é possível realizar o “mergulho interpretativo” (Freire, 2010) que envolve o pesquisador de maneira diferenciada, buscando
[...] identificar unidades de significado, refinar e ressignificar tais unidades (sem perder de vista os textos originais), até que seja possível identificar os temas
hermenêutico-fenomenológicos e suas famílias, ou seja, os construtos que com eles
compartilhem proximidade semântica mais expressiva” (Freire, 2012a:11).
O percurso interpretativo apresentado anteriormente possibilita, a partir da aparência (textos originais), que o pesquisador expanda sua consciência e percepção a respeito do fenômeno investigado, compreendendo cada vez melhor os sentidos implícitos que revelam sua essência (Freire, 2010, 2012a).
Diante da responsabilidade de apresentação deste espetáculo, os elementos utilizados para montá-lo foram repassados, mentalmente, pela sua idealizadora momentos antes do início do show. Após certificar-se de todos os detalhes envolvidos na produção, a idealizadora utiliza-se de uma campainha escondida na coxia- espaço que não é visto da plateia, onde as bailarinas aguardam sua entrada - para sinalizar a autorização para o início do espetáculo.
CAPÍTULO 3