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Nabuco entra para a política em 1878, com o seguinte slogan de campanha: “a grande questão para a democracia não é a monarquia, é a escravidão. Para ele, “a escravidão é a causa de todas as mazelas nacionais.” Encerrado o primeiro mandato, destaca-se como político e orador.

Faz a apologia da liberdade, prega abertamente a abolição da escravatura, contraria as normas do próprio partido, o Liberal, e desperta, contra si, a ira dos fazendeiros e cafeicultores. Como resultado de seu destemor e, por afrontar os baluartes do poder, acaba por não se reeleger para o mandato seguinte. Perdidas as eleições, desiludido pela forma como é conduzida a política brasileira, abandona momentaneamente, a agitação da corte para exilar-se na Inglaterra.

Lá, há de rever seus conceitos, analisar, com mais vagar e profundidade, as estruturas e nuances da política brasileira, sem, todavia, abdicar de sua meta primordial, obsessão da qual jamais abriria mão, a liberdade dos escravos. Encontra-se com velhos amigos, abolicionistas ingleses, retempera suas combalidas energias e areja sua mente.

Sobre esse seu momento de desilusão, o próprio Patrono da Raça Negra, faz uma autocrítica e mostra seu inconformismo, e, em face da derrota, diz, com certa frustração:

Posso dizer que ocupei a tribuna todos os dias, tomando parte em, todos os debates, em todas as questões(...) Tudo me servia para assunto de discurso; eu falava sobre marinha e imigração, como sobre a iluminação ou o imposto de renda... Tinha o calor, o movimento, o impulso do orador; não conhecia o valerá a pena? ( Nabuco, O Abolicionismo, 2000:XI)

Para caracterizar o desânimo, o pessimismo de que é alvo, pelo fato de, num momento tão cruciante para a vida nacional, sair do palco, sem ver a obra terminada, confidencia com certa decepção, sua amargura em carta endereçada a um amigo, Sancho de Barros Pimentel, datada de 8 de novembro de 1881:

Decididamente não fui feito para o que se chama entre nós de política. A palavra, a pena, as idéias são armas que de nada servem, e ai de quem tem outras. O caráter, o escrúpulo, a independência, o patriotismo, tudo isso não vale nada, não tem curso entre os eleitores. (XI)

Em seu desterro forçado, como diz, com saudades da terra longínqua e, alheio ao burburinho político nacional, Joaquim Nabuco, depois de muito refletir, de pensar em como não se afastar da causa pela qual dedicara a maior parte de sua vida, descobre como continuar útil ao compromisso abraçado e resolve escrever O Abolicionismo.

Este é o veículo em que esquadrinha sua pregação, difunde sua doutrina, coloca às claras, nossas desigualdades e diagnostica os males da sociedade brasileira de então. É da tribuna que deflagra sua luta, na defesa de seus pontos de vista, em prol das reformas necessárias e imprescindíveis a uma nação que almeja colocar-se no mesmo nível dos demais países civilizados. Ao ser publicada, sua obra é recebida festivamente pelos seus incontáveis companheiros de ideal e pela crítica nacional.

Em 1976, o historiador pernambucano Evaldo Cabral de Mello, ao receber o prêmio Joaquim Nabuco, outorgado pela Academia Brasileira de Letras, ao destacar a importância d’O Abolicionismo, cita-o como o melhor livro escrito sobre o Brasil no século XIX e torna-se o documento mais importante para o entendimento da formação sociocultural do povo brasileiro, até a publicação de Casa-grande & Senzala, em 1933. Em 1999, o mesmo autor, falando no Itamaraty, foi maislonge e considera no prefácio d’ O Abolicionismo, como “um dos textos fundadores da sociologia brasileira.” (XIII).

Segundo Nabuco, é a escravidão que forma o Brasil como nação. Ela é a instituição que ilumina nosso passado mais poderosamente que qualquer outra. A partir dela, é que se define, entre nós, a economia, a organização social a estrutura de classes, o Estado e o poder político. Em síntese, nossa própria cultura. O abolicionismo faz da escravidão a protagonista por excelência, da história brasileira, instituição que tem sido largamente explorada por historiadores, sociólogos e antropólogos... (XIII)

O Abolicionismo, escrito em 1883 e publicado no Brasil, em 1884, é um

autêntico libelo, apóstrofe, grito de guerra contra a opressão, a desigualdade, a injustiça social reinantes em nosso país, desencadeadas pela instituição escravocrata. Como diz o abolicionista, iniciando o prefácio de sua a obra, com certo otimismo:

Já existe, felizmente em nosso país, uma consciência nacional... que vai introduzindo o elemento da dignidade humana em nossa legislação e para a qual a escravidão, apesar de hereditária, é a verdadeira mancha de Caim que o Brasil traz na fronte. ( XXI)

De gritos de dor, de angústia e inconformismo, surge o amanhecer de uma nova era, com uma pátria livre, último reduto dessa mancha vexatória que envergonha os brasileiros. Como diz o historiador, Evaldo Cabral de Mello, “ seria um livro de

combate, arregimentação a toque de clarim, dadas as circunstâncias em que foi elaborado”

Nabuco nasce de uma família abastada, aristocrática, tradicional, mas, cedo, adere ao grupo de abolicionistas formado em 1866. Como diria dele, Gilberto Freyre, “levará três séculos para produzir tão esplêndida figura de desertor.”

A opção feita por Nabuco revela um posicionamento corajoso, pois, mais fácil é aeitar o statu quo, deixar as coisas como estão, acomodar-se em face dos empecilhos, omitir-se diante do caos. Não teria que justificar suas atitudes aos familiares, chefes de partido, correligionários, à opinião pública... Mas não há força que resista a um ideal plasmado com consciência, amadurecido à luz das reflexões, do idealismo e sob o influxo das injustiças e desmandos.

Mas, Joaquim Nabuco tem a marca do gênio e está moldado para as grandes causas. Viaja, instrui-se, assenhoreia-se dos fatos que marcam o mundo, política e culturalmente; interessa-se pelos caminhos e tendências que movem a humanidade de então; prega a liberdade, combate os preconceitos; pugna, com o poder de sua argumentação e das idéias, por normas mais justas, esmera-se no manuseio da linguagem.

Apesar de ter sido influenciado pelos cânones que pontificam na velha França, não se descuida, dos fundamentos e formas de seu idioma. Cerca-se de nomes consagrados na área da cultura e das letras. Ao talhe invejável de seu porte físico com que a genealogia o presenteia, associa a elegância de seu raciocínio, a correção de seu linguajar.

Mas, O Abolicionismo não é apenas isso. É um livro recheado de denúncias contra a sociedade de então, em que não poupa sequer a omissão flagrante da Igreja Católica. A seu alvitre, prossegue a marcha das reformas, na monocultura, na grande propriedade rural, na economia, no Estado, no poder político e na Educação.

É o primeiro a vislumbrar o surgimento de uma raça brasileira como a temos hoje, uma raça de mestiços, formada pelo congraçamento de todos os povos, construtores da nacionalidade. “Nós não somos um povo exclusivamente branco, e não devemos, portanto, admitir essa maldição da cor; pelo contrário, devemos fazer de tudo para esquecê-la.” (16) Apregoa a transformação da sociedade, sem choques, sem ódios, sem contrapor o senhor ao escravo, dentro da ordem e da lei, sem revanchismos como os ocorridos nos Estados Unidos e outros países europeus. Antecipa-se em 50 anos ao

pensamento social de Gilberto Freyre em Casa-grande & Senzala ao ver um Brasil mestiço:

Não há assim, entre nós, castas sociais perpétuas, não há mesmo divisão fixa de classes. O escravo que como tal praticamente não existe para a sociedade é, no dia seguinte à sua alforria, um cidadão como outro qualquer, com todos os direitos políticos e o mesmo grau de elegibilidade... (XVI)

Defende uma lei agrária e a democratização do solo. “Acabar com escravidão não nos basta; é preciso destruir a obra da escravidão.”(XVII) Em sua pregação, tem um alvo com o qual se identifica:

É por isto que vos repito, se eu tivesse que escolher uma classe com a qual devesse identificar a minha candidatura não procuraria nem os proprietários do solo a que chamam - a lavoira; nem o comércio, nem os funcionários públicos, (...) escolheria sim, o insignificante, o obscuro, o desprezado elemento operário, porque está nele o germe do futuro da nossa pátria; porque o trabalho manual, somente o trabalho manual, dá força, vida, e dignidade a um povo.(XVII)

Posiciona-se contra o separatismo que alguns espíritos defendem e prega a união dos brasileiros, numa pátria livre. Eleito outra vez, em 1887, pode prosseguir sua tarefa inconclusa e, como prêmio, usufrui da concretização de seu grande sonho, testemunhar e participar, da promulgação da Lei n° 3353, de 13 de maio de 1888, conhecida como Lei Áurea que extingue, definitivamente, a escravidão no Brasil.

Vitoriosa a batalha abolicionista, com o advento da Lei Áurea, o orador sente haver cumprido sua missão, sobretudo a partir da proclamação da República, pois, monarquista convicto, não julga oportuno esse movimento. Faz severas restrições quanto à sua tempestividade.

Julga-o precipitado, oportunista, sem uma programação e objetivos definidos, sem uma política específica para os novos cidadãos redimidos, produto mais de uma revanche das elites cafeeiras que vêem no abolicionismo uma grande perda. Os cativos são-lhes um suporte fundamental nas lavouras, onde a mão de obra tem custo zero. Como decorrência natural, surge O Aboliconismo.