Maria Dias (2010) apresenta o período compreendido entre os anos de 1934 aos finais dos anos 1960. Segundo ela, é um período marcado essencialmente pela resposta às seguintes perguntas: o que é a profissão? Como se distingue uma profissão de uma ocupação para a profissão? Ou do ponto de vista dinâmico, como se evolui da ocupação para a profissão?
Para a abordagem desta realidade, fazem-se presentes duas linha de pensamento diferentes, sendo que uma está ligada ao modelo funcionalista e outra ao interacionista, mas que acaba por ser salutar, na medida em que, podem complementar-se em alguns casos para o benefício da própria ciência.
1.5.1. Paradigma funcionalista
A legitimidade social como critério da explicação do fenómeno das profissões De acordo com o funcionalismo, apresentado por Maria Dias (2010), Uma ocupação origina uma função. O exercício dessa função e doutras funções origina a divisão do trabalho como resultado da capacidade técnica de responder as necessidades sociais. “Uma profissão emerge quando um número definido de pessoas começa a praticar uma
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técnica fundada sobre uma formação especializada dando resposta a necessidades sociais” Carr-Saunders e Wilson, 1934 cit. in Dias, 2010). A constituição das funções decorreria de certos atributos, tais como:
- Uma especialização de serviços permitindo a crescente satisfação de uma clientela; - A criação de associações profissionais obtendo para os seus membros a proteção exclusiva dos clientes e empregadores requerendo tais serviços, isto é, tendo uma linha de democratização face às pessoas qualificadas, com fixação de códigos de ética para as qualidades;
O estabelecimento de uma formação específica fundada sobre um corpo sistemático de teorias permitindo a aquisição de uma cultura profissional (cf. Rodrigues, cit. in Dias, 2010:25-997:4 e 47).
Já Parsons (1939) do ponto de vista teórico, trata da questão das profissões, com o intuito de “identificar” nas várias profissões, “os princípios características de coerência” e de criação de uma “teoria do seu funcionamento” e do seu surgimento (Parsons cit. in Dias 2010, 25- 1939).
É na interação com os clientes onde acontece execução do papel dos profissionais baseados no “conhecimento versus ignorância”, é esta realidade que provoca a sua “institucionalização” sendo que, é a autoridade do profissional que incita a confiança ao cliente.
O processo de legitimação da profissão surge da harmonia entre motivações e necessidades do profissional e do cliente, que ajuda a definição de um conjunto de saberes, que é posto a prova, inspecionado pelos profissionais e certificado pelo Estado. Não podemos perder de vista também, a importância do trabalho das universidades na dinâmica da legitimação e institucionalização resultante da interação conhecimento e sociedade. Sendo que segundo Parsons (1968), a origem fundamental do sistema profissional moderno residiu, no casamento entre académicos profissionais e determinadas categorias de práticos (Parsons, cit. in Dias, 2010: 26-1968: 546).
Segundo Maria Dias (2010), a ideia principal de Parsons em relação ao funcionamento das profissões é a da legitimação social, ou seja, a legitimação profissional decorre da
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aceitação e ou necessidade da função para a sociedade e, por resposta à teoria económica do utilitarismo, sublinha-lhes um denominador comum: As profissões são orientadas por motivações altruísta e não por razões económicas. A ideia funcionalista, é também analisada por vários autores, em função de um “reconhecimento social” do exercício profissional de uma certa função.
Fenómenos como os do poder, do monopólio e dos privilégios profissionais são identificados, mas, no entanto, o que se considera fundamental a compreensão e explicação da génese e funcionamento das profissões são os mecanismos de legitimidade, integração e controlo social (Dias, 2010: 26).
Em Goode (1957), a sociedade concede às profissões autonomia, em troca da capacidade de controlo, recompensas e prestígio em troca de competência e monopólio através de licenças em troca das melhores prestações ou serviços. Para Goode as profissões são definidas por dois elementos básicos, os conhecimentos e o ideal de serviço ou orientação para a comunidade (Rodrigues, cit. in Dias 2010: 26-1977: 12). “As profissões constituem comunidades cujos membros partilham uma mesma identidade, valores, linguagem e um estatuto adquirido para toda a vida; têm poder de controlo sobre si e os seus membros, sobre a seleção e admissão de novos membros, bem como sobre a formação requerida” (Idem).
As profissões não passam à margem do conhecimento sendo que, sem elevados níveis de conhecimento, não há estatuto de profissão (Dias, 2010: 26). O estatuto da profissão está condicionado aos níveis de conhecimento. Quanto maior for o nível de conhecimento, maior será a posição na hierarquia.
Entretanto segundo Dias (2010), “é a sociedade quem confere poder às comunidades profissionais, que, por sua vez, desenvolvem, como contrapartida principal, uma procura constante de elevação dos níveis de formação dos seus membros”. De uma simples ocupação, passa-se para uma profissão em função do esforço que cada grupo e do reconhecimento que lhes é dado pela sociedade. Mas durante esse processo, segundo Goode, “foca-se na ambiguidade” na medida em que não apresenta critérios que nos remeta ao exato lugar onde em cada instante se situa a ocupação no processo “continuum” para a passagem para a outra fase (Dias, 2010:27).
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Para Merton (1982) numa perspetiva da teoria funcionalista, apresenta a sua ideia no sentido de aglutinar (consolidar) uma “tríade de valores humanos” nomeadamente, os valores do saber, do fazer e do ajudar, em que se enraíza as profissões. Apresenta dois conceitos: conceito de funções latentes (reprodução profissional do grupo) e funções manifestas (manifestação de um ideal de serviços) das organizações profissionais e das suas políticas de formação. Clarifica o conceito de funcionamento da profissão a partir do altruísmo institucionalizado, para ele não importam as recompensas e penalizações impostas, o mais importante é que o profissional tendo ou não sentimento altruísta, aja de modo altruísta (Dias, 2010:27).
Em síntese, a abordagem funcionalista assenta em três pressupostos definidores do conceito de profissão:
Estatuto profissional, resultante do saber científico e prático; ideal de serviço corporizado por comunidades formadas em torno do mesmo corpo de saber, dos mesmos valores ética de serviço;
O reconhecimento social da competência fundada sobre uma formação longa e A existência de instituições profissionais como resposta a necessidades sociais,
tais como escolas de formação superior, associações profissionais e sistemas de licenças (cfr. Dias, 2010: 27).