4. Vurdering av oppnådde resultater
4.8. Resultater fra elektrisk vingeboring
a) aspectos da cultura contemporânea
A cultura contemporânea valoriza e favorece a autonomia e o autodesenvolvimento. Impulsiona o indivíduo a buscar seus próprios caminhos para o crescimento, sendo ampla nas possibilidades de acesso às informações e quebra de paradigmas. Além disso, possui uma ideologia que favorece a individualidade.
Apesar disso, para que o desenvolvimento seja bem explorado é importante que algumas características sejam consideradas: o comportamento de apego se desenvolve com o objetivo de encontrar os cuidados e a atenção necessários e, ainda, de monitorar os sinais de proximidade com a figura de apego (Parkes, 2006 [2009]). Sua eficiência de funcionamento depende tanto da influência segura do meio como da capacidade de adaptação interna da própria pessoa. Complementar ao comportamento de apego está o comportamento exploratório, lembrando que para que um deles possa se manifestar, o outro deve estar
desativado, funcionando alternadamente em função do contexto ambiental (Bowlby, 1979 [2006]). Neste sentido, quando se tem as condições financeiras para bons acessos é também necessário que se tenha segurança emocional suficiente para oferecer autonomia e crescimento.
Os entrevistados deste estudo, apesar das perdas, conseguiram manter-se como base para que os seus demais familiares pudessem ser favorecidos com as oportunidades da contemporaneidade no que se refere aos estudos e oportunidades. Estes entrevistados, apesar do trauma e da sensação de abstração mantiveram-se firmes no desenvolvimento de seus filhos, inclusive apoiando suas oportunidades de ascensão ao mundo globalizado e às experiências internacionais.
No caso específico de Giulia, percebemos seu esforço para mudar sua história. A experiência de perda significativa na infância não a impediu de se constituir como base segura para os filhos, sendo continente com suas necessidades psíquicas de amadurecimento. Hoje seus filhos apresentam reduzida a necessidade da manifestação do comportamento de apego e evidenciada a capacidade exploratória de seus mundos.
Os inúmeros estudos sobre o comportamento humano e o vasto leque de informações existentes na sociedade contemporânea favorecem o desenvolvimento individual e coletivo de seus membros. No que diz respeito ao processo de luto, a educação para a morte (Kovács, 2003) atuou como fator de proteção para Luciano. O esclarecimento anterior das questões relativas à morte e ao morrer atuaram como base para se preparar para a finitude e para compreender suas reações e as de sua família quando Marcus faleceu.
Além disso, a ampla visão, originada pelo desenvolvimento intelectual de Luciano, também o fez construir uma relação baseada em vínculo profundo e confiança mútua com o filho. Neste modelo de relação são reconhecidos: os direitos de autonomia, o respeito às diferenças e a abertura para se falar o que se sente. Para Luciano, este dado ajudou significativamente sua reconstrução de sentido de vida após a morte de Marcus.
b)desenvolvimento tecnológico, conectividade global
A mobilidade de recursos tecnológicos e o acesso aos dados informatizados favoreceram as ações de delicadeza que a empresa do marido de Giulia se dispôs a promover para ela. Seu esposo trabalhou lá muitos anos e, em reconhecimento disso, eles utilizaram o acesso que possuíam aos dados informatizados e liberaram valores de direito do falecido para a viúva, antes que esta viesse a passar necessidades.
c) sociedade caracterizada pela individualidade, autonomia e liberdade de expressão
O respeito à autonomia é um dos princípios éticos que beneficia a vida tanto em situações normais como nas adversas.
Para Luciano era importante se ver no controle de sua vida: de suas emoções, das decisões sobre as questões de reconhecimento e sepultamento do filho e dos cuidados com a família. Neste sentido soube se colocar, inclusive perante o seu médico, o qual inicialmente quis medicá-lo. Entretanto, como este profissional baseou sua conduta nos preceitos modernos da ética, ao verificar que suas condições estavam preservadas, soube respeitar sua autonomia de decisão. O entrevistado viveu esta parte de sua história na totalidade: sentiu as angústias da morte do filho, viu seu corpo e ofereceu suporte prático aos membros de sua família.
Diferentemente dele, Giulia preferiu não ver o corpo do esposo e contar com o suporte de sua ampla rede social, para si e para seus filhos (familiares, escola dos filhos, centro espírita, profissionais da saúde).
Lembramos do fato de que não há receita pronta de melhores procedimentos para agir com os enlutados, estes dois casos nos apontam para o que Morin (1976), por ser o homem diferente do animal, especificamente na sua capacidade de reconhecer a morte e a si mesmo como indivíduo, quanto mais individualizado estiver, mais capaz de se perceber estará.
d)reavivamento do luto publico (NLP)
Entendemos que este item traz um ponto de relevância para nossa pesquisa. Os estudos de Walter (1999, 2008) mostraram que o luto público desempenha várias funções sociais que permitem a afirmação dos valores da sociedade, a legitimidade da religião e o fortalecimento das relações familiares ou culturais. Além disso, que é uma força transformadora da sociedade desde que esta saiba usar essa vivência não como estagnação, mas como um modo de crescimento.
Lembramos que no século XX o despertar do luto privado surgiu concomitante ao controle do luto público. O lado negativo desta questão é que se tornou um processo emocional interno mais difícil de ser expresso em comportamento exteriorizado.
Iniciativas no sentido do rompimento com esse silêncio social surgiram isoladamente, procurando criar força mudança desse formato de acolhimento do luto. Podemos citar
exemplos de esforços individuais dos casos entrevistados, no sentido de reunirem as pessoas para resolverem suas questões financeiras, emocionais e de dúvidas sobre o processo.
Lembramos que foi criada uma associação para os familiares das vítimas deste acidente, frequentada e elogiada algumas vezes por estes entrevistados. A presidente e fundadora dessa associação foi quem nos forneceu os dados de contatos para as entrevistas e tem contribuído com orientações para familiares de outros acidentes aeronáuticos.
Além disso, em sua vida privada, os entrevistados mostraram postura amparadora também nos contatos mais recentes, do trabalho e do meio social, reconhecendo com sensibilidade as necessidades alheias. Neste sentido, não se abstraíam da responsabilidade de acolher as necessidades coletivas, ainda que de pessoas estranhas ao seu convívio.
Podemos considerar que as entrevistas desta pesquisa também puderam servir nessa função, ou seja, existem inúmeras maneiras de agirmos coerentes com esse novo movimento.
No entanto, com a revolução da comunicação e a conectividade global, as regras surgidas sobre como se comportar em público e quais rituais seriam adequados ao enlutamento, perderam força. As pessoas que carregavam solitariamente seu morto pelo sofrimento passaram a partilhar cada vez mais suas dores: pelos diálogos com pessoas da família, amigos, colegas de trabalho e outros mais ou menos ligados por laços familiares, afetivos ou profissionais.
Além dessa forma, o NLP também acontece quando se protesta contra a repressão, o silêncio e a dúvida. Assim, leva o que esteve no campo privado para as ruas, desnudando suas dores e transformando o luto não-reconhecido em luto público. Os recursos usados para isso vão desde as passeatas, camisetas com fotos, faixas, panfletos para distribuição, e etc., de modo a marcar e significar a terrível história de uma perda. Outro recurso são as associações criadas para desenvolverem tarefas que vão desde a procura dos desaparecidos até seu direito pela identidade e pela defesa daquilo que convém ao ser humano. Estas associações, que se fortalecem com equipes interdisciplinares, funcionam para a mesma transformação do espaço do luto.
Com o advento da internet, estas causas fragmentadas e parcialmente divulgadas sofreram profundas transformações. Atualmente, o luto pode ser expresso globalmente, independente de se conhecer a pessoa falecida: uma morte pode ganhar popularidade com muita facilidade. Criam-se memoriais online e se ocupam espaços com o objetivo de oferecer um tributo mais adequado aos mortos. Este movimento está a favor da crença na imortalidade referida por Morin (1976) porque é mais uma maneira de prolongar a vida de quem já não
existe mais, fazendo-o existir de maneira mais ampla, pelas lembranças, contando-se quem foi ele e como foi sua vida.
Na Europa, EUA e Brasil, o surgimento de sites desenvolvidos, com ferramentas próprias, que oferecem às pessoas que perderam alguém uma forma de homenagear os mortos é uma tendência.
O luto público que se apresenta no novo formato, o NLP (Walter, 2008), denota características próprias. Com relação ao formato, é descrito por duas sistemáticas: a primeira vivida por pessoas que conheceram pessoalmente as perdas e as tornaram públicas suas próprias dores por meio de manifestações que envolvem a coletividade.
Neste formato podemos acessar o site criado por Jairo sobre o acidente. Ele, por meio dos recursos tecnológicos ligados à comunicação e informação, criou um espaço público para falar do que viveu na vida privada. Nesse espaço colocou fotos, filmes, um texto sobre a verdadeira história do voo.... e criando um lugar para que as pessoas possam passar por ali e comentar o que viram e o que sentiram, mesmo que sejam críticas.
A segunda característica se refere às pessoas que não se conhecendo, e nem tampouco conhecendo o falecido, tornaram-se enlutadas em comum. Entre as causas, está o fato de que, após a morte de pessoas públicas ou mortes de pessoas desconhecidas que chamam atenção do público, as respostas sociais são cada vez mais influenciadas pelos meios de comunicação em massa e conectividade global. Neste caso, Jairo nos contou como, há mais de uma década, este tipo de manifestação começava a se fazer presente.
Jairo mostrou seus sentimentos e o respeito que dispensa para os mortos e para os vivos. Até hoje usa seu tempo pessoal não somente para expressar suas dores, mas para contar aos estranhos, aos curiosos e aos descendentes dos que partiram uma parte da história deles. Pensamos que aquele movimento de salvar suas fotos para salvar sua história esteja estendido nesse site para as demais pessoas, esta é de fato uma das características mais essenciais do NLP, a de escapar a um acontecimento social para ser um espaço identitário e de emoções. Jairo leva a público, em idioma contemporâneo, as iniciativas que outros envolvidos fizeram isoladamente.
Cada iniciativa, cada ação refere-se a uma ruptura com a inércia social da falta de tempo, da necessidade da rotina organizada, do belo e saudável e da falta de incentivo aos rituais de passagem por uma valoração dos mortos. Uma vez que o Estado não mais hasteia a bandeira para o morto, muitas outras são hasteadas nos jardins das casas particulares, a exemplo dos EUA após os atos terroristas de onze de setembro, ou como ocorreu recentemente no Brasil, quando as pessoas pararam o que estavam fazendo para irem para as
ruas, literais ou virtuais, manifestar seu sofrimento, suas dores e seu repúdio à morte anunciada de uma criança com a qual nunca tiveram a oportunidade de conviver.
e) existência de suporte social
Por suporte social entendemos um conjunto de ações de delicadeza que fazem o enlutado se sentir acolhido e cuidado e, apesar do sofrimento, sente que não passará por tudo sozinho. No que diz respeito ao suporte social autopromovido, Giulia destacou-se na capacidade de buscar ajuda, de compartilhar suas emoções e de saber receber os apoios oferecidos. Teve disponível e usou, para o seu suporte, a ajuda dos irmãos, cunhados, primos, vizinhos e empregados. Orientou-se sobre decisões relevantes com as relações que posteriormente estabeleceu, buscou suporte autopromovido na área da saúde para si e para os filhos e não limitou os campos de apoio existentes, ao contrário, empenhou-se para estendê- los (da psicoterapia ampliou para a psiquiatria, da positividade partiu para o espiritismo), pediu e recebeu suporte da escola dos filhos, dos familiares diretos e indiretos e da empresa do esposo, fazendo ver que o tamanho de sua rede de apoio era do mesmo tamanho do seu desamparo, provavelmente por ter sido potencializado pelas perdas anteriores.
Giulia nos mostrou ações de delicadeza que ela própria ofereceu aos filhos, foi continente com a necessidade que tinham de buscar sentido ao que aconteceu e que, apesar disso, tinham o direito de serem crianças felizes. Acessou recursos sociais, como viagens e festas infantis, sem deixar de levar os filhos também ao cemitério, tão logo se viu capaz de fazê-lo.
As ações de delicadeza dispensadas a ela, considerando o agravo que sentia pela perda do pai, com destaque da escola dos filhos, fizeram Giulia significar as referências coletivas como fortes, ao contrário dos outros entrevistados.
Um recurso promovido ao bem estar de Luciano foi o espaço que a família concedeu para que ele fosse o cuidador desse processo. Ao organizar os fatos e cuidar das emoções dos demais, pode retomar sua dinâmica de atuação nas situações conhecidas, que sempre foi pautada por “fazer” e “cuidar”. Neste sentido, poderia se sentir desorganizado se precisasse adotar, nesta situação de caos, um papel passivo, que lhe é desconhecido. Ao orientar e ajudar a resolver os problemas, potencializou-se diante da perda. É importante destacar que Luciano não acessou ou abriu espaço para suportes de pessoas ligadas a ele, principalmente no campo das emoções.
Embora saibamos que procurou evitar os cuidados para si, eles tentaram chegar de alguma forma, como no caso da simplicidade das palavras do sócio, que por não saber como oferecer um alívio, procurou fazer Luciano parar por alguns minutos na tentativa de que ele desse um tempo para si mesmo, mas que não era possível para ele naquele momento, ou não era desta forma que ele podia receber apoio, visto ser sua dinâmica de vida a autonomia e a autoria das realizações.
No entanto, fez parte de nosso processo de reflexão a questão de serem os recursos cognitivos, quando fortalecidos como nesse caso, suficientes, mas não abrangentes na totalidade das necessidades inerentes ao processo de enlutamento. Primeiramente devido ao nível de esforço requerido do enlutado nos momentos em que poderia se deixar ser cuidado e, em segundo lugar, por ter ouvido, do próprio entrevistado, ainda que dirigida às instituições formais da crise, expectativas e necessidades de ser cuidado como pessoa, como ocorreu quando do apoio dispensado pela empresa do filho. Entendemos assim que cada enlutado possui uma linguagem muito própria para receber ajuda. Neste caso, há maior identificação com a linguagem das questões práticas e lógicas do que a das emoções, apesar de reconhecê-las como importantes.