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Para uma análise mais detalhada desses acontecimentos, parece ser um caminho natural começar pelo momento zero dessas mobilizações, ou seja, quando elas eclodem pela primeira vez nas redes sociais digitais, buscando recuperar quais elementos que motivaram seu surgimento. Em ambos os casos, a criação de uma página de evento do Facebook marca o início da mobilização.

Em especial no primeiro caso escolhido, o “Churrascão de Gente Diferenciada”, o processo de surgimento do evento é extremamente interessante e, de alguma maneira, inesperado. Ainda que no âmbito das conjecturas, é possível supor que a mudança da

localização de uma parada de metrô no projeto de uma nova linha tenderia a passar praticamente desapercebida. Mesmo que fosse notícia em algum veículo de massa, e que uma ou outra pessoa expusesse seu desacordo ou indignação nas redes sociais digitais, o fato teria boas chances de ser esquecido em poucos dias. É na fala de uma moradora de Higienópolis, a psicóloga Guiomar Ferreira, reproduzida pela matéria da Folha de S. Paulo no dia 8 de agosto de 2010, que está a fagulha que dispara o surgimento do evento, no uso do termo gente diferenciada: “Você já viu o tipo de gente que fica ao redor das estações do metrô? Drogados, mendigos, uma gente diferenciada”24. O eufemismo acabou incluindo não só mendigos e drogados, mas todos aqueles que não correspondem aos ideais da elite tradicionalmente relacionada à nobre região de Higienópolis. No entanto, em um jargão muito comum no jornalismo e na publicidade, costuma-se usar o termo “diferencial” ou “diferenciado” como um atributo de qualidade: uma característica desejada e única em um determinado profissional, produto, empreendimento, etc. Ou seja, a moradora do bairro recorre a uma variante do adjetivo “diferencial”, mas carrega-o de outro significado, que contradiz o usual. Para ela, “diferenciado” significa “pior” ou “ruim”.

Ao ligar o metrô à imagem da não-elite, dos menos favorecidos, ela produz um efeito sobre os enunciatários: transforma todos os usuários do transporte público em uma massa indesejada, ou seja, realiza um ato perlocutório, segundo entendimento de Searle (1996). É verdade que, a priori, Guiomar Ferreira não teria as prerrogativas sociais para realizar tal ato. Ela poderia anunciar seu ponto de vista nas redes sociais, na padaria, na banca de jornal, mas sem maior impacto, pois nem mesmo representava a associação de moradores do bairro. Entretanto, no momento em que publica essa fala, o jornal dá amplitude ao enunciado, levando-o a um número maior de receptores. Assim, ao fazer-se ouvida, a moradora é automaticamente investida de poder. A enunciação dela é uma palavra de ordem, conforme nos indicam Deleuze e Guattari (2011), que realiza, ou tenta realizar, uma transformação incorpórea nos usuários do metrô, igualando-os todos a “mendigos” e “drogados”, em uma ação que reforça o estigma de que a elite brasileira tradicional é preconceituosa, que acredita que deve sempre se afastar dos “outros”, “maléficos e perigosos”, para se defender.

Justamente a amplitude desse ato perlocutório é um dos fatores que nos ajudam a entender a força da resposta observada em seguida. Ele consiste em um agenciamento de enunciação, de acordo com Deleuze e Guattari (2011), e atribui unidade a um grupo que !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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antes não existia, o grupo de “diferenciados”, uma multidão, no entendimento de Hardt e Negri (2005), formada por indivíduos que, graças às características discursivas da internet, podem facilmente encontrar-se on-line, trocar ideias e até organizar protestos.

Contudo, outro fator tão importante quanto este foi a êxito da psicóloga entrevistada pela Folha de S.Paulo em cunhar, ainda que não intencionalmente, uma expressão tão forte, curto, de impacto, e de fácil memorização. Em outras palavras, não só o alcance do enunciado é essencial, mas também as características linguísticas deste. É interessante observar como, apesar de fazê-lo para formar um discurso preconceituoso e elitista, a moradora do bairro apropria-se do termo “diferencial” e o ressignifica. Ou seja, ainda que criando um enunciado que reforça a segregação social, ela faz um percurso típico do plurilingüismo ao minar os sentidos dados pelo discurso dominante e aplicar novos significados, num movimento criativo que multiplica os “cromatismos” da língua, para usar o termo de Deleuze e Guattari (2011). É por essa amplitude “cromática” da expressão gente diferenciada que ela carrega um potencial tão significativo. Potencial este que, em seguida, é explorado nas redes sociais digitais, onde os usuários ressignificariam novamente o termo, desta vez através do humor.

É justamente o humor a principal chave para entendermos a origem dessa mobilização. Quando o usuário Danilo Saraiva cria no Facebook o evento “Churrascão de Gente Diferenciada”, ele não tinha a intenção real de organizar uma manifestação, mas sim de fazer uma sátira virtual, criticando o metrô por ter cedido à pressão dos moradores. Já no nome do evento fica explícito seu caráter jocoso, chamando não para um protesto ou uma passeata, mas para um churrasco, tipo de encontro festivo informal entre amigos, bastante popular em qualquer classe social. O sufixo aumentativo “ão”, no churrascão, dá ênfase ainda ao caráter democrático do encontro, faz entender que todos são bem-vindos, e reforça a ironia proposta. Como detalharemos mais adiante, é nesse campo discursivo do irônico, do zombeteiro, que se dá parte significativa das interações entre os usuários que falam sobre o evento e passam a construí-lo de maneira colaborativa. O humor é o principal elemento de coesão da multidão nessa mobilização, desconstruindo o enunciado preconceituoso original.

O segundo o caso, por sua vez, tem uma origem consideravelmente diferente. Quando a usuária Dríade Aguiar cria o evento “Festival Amor Sim Russomano Não” no Facebook, ao contrário de Danilo Saraiva, ela não o faz por uma iniciativa própria, mas sim seguindo uma organização prévia. Conforme apurado por diferentes veículos noticiosos25, o !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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acontecimento tem origem na mobilização de diversas agremiações de artistas, que se unem para marcar posição contrária ao então candidato à prefeitura de São Paulo, Celso Russomano. Ou seja, o evento foi articulado por agentes previamente organizados, em maior ou menor escala, que tinham o objetivo específico de realizar uma manifestação política, ainda que oficialmente apartidária. Assim, a usuária estava seguindo um agenciamento coletivo prévio, que lhe investiu de poder, garantindo apoio ao evento por parte de uma rede potencial de divulgação.

No entanto, isso não caracteriza esse caso como um movimento político comum, guiado por uma liderança determinada, tal como um sindicato ou movimento social organizado. Ao criar o evento, esse grupo de artistas definiu a hora, o local e criou a ideia de que todos deveriam ir de rosa-choque, mas já de saída abdica do papel de cabeça da mobilização. Os próximos passos ficariam por conta de todos aqueles dispostos a envolver- se na causa, sem qualquer diferenciação ou hierarquização, de forma colaborativa.

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