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exagerada e cômica dos gestos. Em primeiro lugar, o miliciano tira o armamento para procurar por um animal inofensivo, e depois, diante das dúvidas da mulher, promete, brandindo a espada no ar, que a sustentaria “como uma princeza”. Um gesto marcial mas feito para declarar os sentimentos e o interesse por uma mulher. Gesto exagerado: o pai da moça ri quando retorna à casa e os surpreende naquela situação, e pergunta ao capitão se a atacava ou a ensinava a manejar o armamento. Gesto realizado em função de enganos: nem existia o gato nem Maricota o amava. Ainda no final da peça, o capitão, assustado com a confusão em torno de Faustino disfarçado nas roupas do boneco, sobe numa cômoda e desta vez é este rival, já sem o disfarce, e sua namorada Chiquinha, que o ridicularizam, sugerindo que tirasse a espada que o atrapalhava para se manter sobre o móvel. Em todos esses casos o ridículo da situação do oficial é evidenciado através de sua arma, utilizada impropriamente ou atingida por sua atitude covarde.

Há outra implicação destas atitudes do oficial. No diálogo com Maricota ele declara que sustentará ricamente sua pretendida enquanto for oficial da Guarda Nacional. Desta forma o serviço público não-remunerado prestado à milícia serve apenas ao seu interesse pessoal em conquistar e ter para si uma mulher. A posse de uma arma, o gesto marcial que se esperaria, fosse pela defesa dos objetivos e valores da tropa, a força da qual ele se vê investido e que se supõe que seja para a garantia do bem público e a sustentação do Estado são, na verdade, para satisfazer seus interesses privados.

Os armamentos do uniforme da Guarda Nacional fazem, assim, referência a um outro aspecto do uniforme militar: a sinalização da “nobreza” do guarda nacional. As armas brancas eram o instrumento por excelência do cavaleiro medieval, protegido por sua armadura, conduzido por seu cavalo e atendido por seus servos. Fazer a guerra provido de todos esses recursos, pertencer à cavalaria era prerrogativa dos nobres. Esta situação começou a se alterar no século 16 e, de forma mais significativa em meados do século 17, com a invenção das armas de fogo e sua rápida disseminação pelos exércitos europeus através da infantaria, organização militar de soldados a pé (GRBASIC e VUKSIC, 1989). A eficácia dessas novas armas em abater os adversários obrigou a mudanças profundas nas táticas e estratégias militares. Não era mais o confronto direto entre dois oponentes o fator decisivo numa batalha, mas a rapidez das manobras do contingente militar e a habilidade na sua execução, otimizando o poder de fogo do novo armamento. A cavalaria cedia paulatinamente lugar, como fator principal nas lutas, para a infantaria.

As armaduras e armas brancas pouco podiam contra os disparos a distância das armas de fogo. A cavalaria modificou a forma de sua atuação na guerra, passando a fazer carga após o ataque conduzido pela infantaria. E ela também não deixou de incorporar as armas de fogo – os cavaleiros suecos, por exemplo, surpreenderam os franceses, na metade do século 17, ao combatarem com espada mas também utilizando pistolas.

A cavalaria foi readaptada às novas condições militares e continuou desempenhando importante papel em guerras e outros conflitos até o início do século 20, quando na Primeira Guerra Mundial, com a invenção das “máquinas de guerra”, as metralhadoras, foi posta em xeque a eficácia militar deste tipo de unidade militar. No entanto, durante todo este período permaneceram as representações sobre ela e seu armamento mais significativo, a espada, como

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unidade e equipamento militares nobres. As imagens dos cavaleiros montados, portando suas espadas ou fazendo carga empunhando-as à frente, são referências constantes dos séculos 17 a 19.

Lá nos figurinos dos planos de uniformes da milícia está a imagem dos guardas nacionais de cavalaria, com ou sem o animal, mas portando a espada. No mercado a oferta para este armamento, proporcionalmente elevada em relação às outras peças do uniforme, se explica não só em função da adequabilidade da arma ao tipo de unidade militar, mas da representação daquela como equipamento nobre, ainda mais se considerarmos que ele foi oferecido também aos guardas de infantaria. Através da espada o que se procurava era o “enobrecimento” da condição de qualificado na Guarda Nacional.

A esta altura temos mais elementos para compreender a preocupação que notamos quando do exame da legislação, em distinguir tão precisamente quanto possível cavalaria e infantaria e formulá-la como problema. Em primeiro lugar, é preciso considerar que se tratava de uma precaução organizacional. Em exercício ou mesmo em atuação, cada unidade militar tem sua função específica na estratégia, sua posição e seus movimentos no terreno, mas sempre numa coordenação geral da tropa, exigindo-se, portanto, que cada indivíduo possa reconhecer os companheiros de arma e os guardas das outras.

Mas se tentava, primordialmente, assinalar uma diferença entre as duas armas, e de maneira mais específica, distinguir superiormente a cavalaria. Entenderemos a preocupação em distinguir estas unidades militares se nos ativermos a esta diferença fundamental.

GLOSSÁRIO

Banda: Faixa cingida à cintura. Na Guarda Nacional, como em outras tropas militares, era uma das insígnias dos oficiais.

Bandola: Cinto de polvarinhos.

Barretina: Cobertura de cabeça caracterizada, em geral, por sua copa alta. Moraes, além de referir seu uso por militares, informa que o termo designava também um “antigo chapéu de senhora”.

Boldrié: Cinturão com correia para prender a espada.

Caçadores: “Infantaria ligeira, batalhões leves, ligeiros, com quatro ou seis companhias, armas mais curtas e tamanho [do corpo do soldado] menor [do que granadeiros]. Era costume medir ou tosar os soldados antes de distribuí- los pelo corpos de acordo com o seu físico” (Schlichthorst, 1930, p. 30-1, nota 19).

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