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A palavra “ética” tem sua origem na palavra grega “ethike”, que por sua vez deriva de “ethikós” que significa “o que diz respeito aos costumes”, ou seja, faz parte da Filosofia prática, cujo objetivo é elaborar uma reflexão sobre a finalidade e o sentido da vida

humana, os fundamentos da obrigação e do dever, natureza do bem e do mal e o valor da consciência moral. Nesse sentido, a “ética” está fundada num estudo metafísico do conjunto de regras de conduta consideradas como universalmente válidas. Estabelece-se, assim, uma diferença entre moral e ética, explicando que “diferentemente da moral, a ética está mais preocupada em detectar princípios de uma vida conforme a sabedoria filosófica, em elaborar uma reflexão sobre as raízes de se desejar a justiça e a harmonia e sobre os meios de alcançá-las”. (JAPIASSÚ, 1990, p. 90).

Na busca do sentido das ações e a origem de seus valores, encontramos em CHAUÍ (1998) uma diferenciação entre os sentidos coletivos e os formulados individualmente, mesmo que oriundos desta coletividade no sentido ético:

Embora “ta athé” e mores signifiquem o mesmo, isto é, costumes e modos de agir de uma sociedade, no singular, “ethos” é o caráter ou temperamento individual que deve ser educado para os valores da sociedade e “ta éthiké” é uma parte da filosofia que se dedica às coisas referentes ao caráter e a conduta dos indivíduos e por isso volta-se para a análise dos próprios valores propostos por uma sociedade e para a compreensão das condutas humanas individuais e coletivas, indagando sobre seu sentido, sua origem, seus fundamentos e finalidades. (CHAUÍ, 1998, p. 101).

Historicamente a ética passa a designar não mais o costume, mas a sua problematização, o seu questionamento crítico, a busca de seu fundamento e dos princípios que o sustentam, já que no “ethos” manifesta-se um aspecto fundamental da existência humana: a criação de valores. Valorizar é relacionar-se com o mundo, não se mostrando indiferente a ele e dando-lhe significação. Como vemos em RIOS (2001):

É verdade que é da natureza ética a referência a um dever ser. Mas é também dessa natureza um esforço para transcender um plano restrito e circunstancial, numa perspectiva de totalidade. Esse esforço não tira da ética sua dimensão social e histórica – busca apenas tornar preciso o seu significado. (RIOS, 2001, p. 105).

É fundamental compreendermos que estamos no mundo situados histórica e culturalmente nele. É, portanto, no “ethos” que se manifestam os valores, criam-se modos de conceber e praticar a vida. Nele a própria existência humana é produzida ou negada.

Sendo esta tese um espaço de reflexão sobre as possibilidades de a Avaliação Institucional colaborar na construção de um currículo crítico-emancipatório, creio ser válido avaliarmos a necessidade de uma ética não só teorizada, mas praticada na realidade educacional escolar, fundamentando sua proposta educacional e orientando suas práticas pedagógicas/avaliativas comprometidas com a democratização da escola e da sociedade.

Por isso não podemos refletir sobre ética sem contextualizarmos o momento vivido pela escola e pelo sistema educacional do qual fazemos parte.

As implicações da ética para a Avaliação Institucional são diretas. Nada mais humano do que a capacidade de avaliar. Aliás, o ser humano deve seu atual estágio de evolução exatamente à sua capacidade e competência de avaliar. A avaliação faz parte da vida humana. Para DUSSEL (2000) “o imenso sensor da corporalidade do sujeito ético é o seu sistema afetivo-avaliativo, o cérebro humano possui este critério como critério de verdade fundamental” (DUSSEL, 2000, p. 148). Sem essa capacidade avaliativa o indivíduo morreria pondo em risco a própria espécie. É questão de vida ou morte. O exercício do sistema afetivo-avaliativo, um avaliar anterior ao próprio juízo de valor explícito e abstrato, e ainda ao próprio sujeito, é o momento constitutivo originário do próprio ato da captação teórico-prática e empírica do categorizar.

Os seres humanos categorizam por base no “valor”. Nenhum sistema baseado na seleção atua sem referência ao valor. Isso nos possibilita compreender como o sistema afetivo-avaliativo faz parte da natureza humana e move a própria vida, de forma diferente em seus vários níveis de atuação.

É preciso diferenciar entre: a) o avaliar meramente estimúlico (do animal e que exige uma resposta imediata e necessária); e b) o julgar ou avaliar humano que se refere a possibilidade ou não da reprodução e desenvolvimento da vida do sujeito humano que supõe o atualizar a coisa real, como algo de seu. Este último avaliar é constituinte do conceito (categorizado sempre hierarquicamente como conducente ou não à reprodução ou desenvolvimento da vida humana) no próprio ato cognitivo, anterior a qualquer juízo de fato (meio-fim). A avaliação propriamente cultural (a partir dos valores culturais da eticidade) é um movimento simultâneo, mas fundado no anterior. (DUSSEL, 2000, p. 150).

Nesse sentido o avaliar humano se referencia à vida humana. Deve produzir vida, se comprometer com a vida do Outro ser humano e aceitá-lo plenamente. É fundamental compreender que os processos subjacentes ao conhecimento são mediações necessárias à sua construção e a avaliação é uma dessas mediações que possibilitam o conhecimento do conhecimento. Isso significa que, ao nos aprofundarmos na questão de como o conhecimento é produzido e ampliarmos a nossa compreensão, somos impelidos a uma ética inescapável:

Comprometemo-nos a tomar uma atitude de permanente vigilância contra a tentação da certeza, a reconhecer que nossas certezas não são provas da verdade, como se o mundo que cada um de nós vê fosse o mundo, e não um

mundo, que produzimos com outros. Comprometemo-nos porque, ao saber que sabemos, não podemos negar o que sabemos. (MATURANA e VARELA, 1995, p. 262).

Ao se ver ampliada a possibilidade de avaliar o mundo de uma perspectiva mais distanciada e abrangente – do ponto de vista do outro – nos tornamos responsáveis em ter com o outro uma experiência vivencial de construção do mundo. Esta construção conceitual serve para nos fazer refletir sobre os sistemas avaliativos – seus princípios, suas práticas – que construímos e que vão sendo incorporados pelos educadores e educadoras em suas práticas de vida levando os educandos e educandas na direção da construção de uma vida autônoma ou pra longe dela. Compreender a materialidade da avaliação é entendê-la humana e ética.

A avaliação nessa perspectiva nos permite compreender como a avaliação educacional se constrói histórica e culturalmente, pela intervenção concreta dos homens e mulheres em relação uns com os outros, mediatizados pelo mundo. A avaliação se faz no tensionamento das relações humanas e sociais, ela atua como um dos motores da dialética da própria vida.

Para PAULO FREIRE (1987) a questão da avaliação crítica é nuclear em suas obras. Considerando que o homem e a mulher são seres inconclusos, em constante processo de aprendizagem, e que estão em relação uns com os outros, mediatizados pelo mundo, ele os concebe como seres capazes de avaliar criticamente sua presença no mundo, como seres de opção. Nesse sentido, a avaliação deve promover aprendizagens que gerem vida, nas sociedades, nas comunidades, nas famílias, nas escolas; deve ativar as práticas educativas que gerem conhecimento do mundo, que produzam um bem querer ao outro e à outra, a alegria da convivência, da participação, do brincar, da curiosidade epistemológica, da investigação, do falar e ser ouvido(a), do avaliar sem medo de ser punido(a); aprendizagens que tornem a vida plena de dignidade, justiça e solidariedade.

CAPÍTULO 5