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4.2  Resultater Dovrefjell

Segundo Kuper (2002) a primeira definição de cultura, dentro de um conceito antropológico, foi dada pelo inglês Edward Burnett Tylor, em 1871, no seu livro Primitive Culture. Para Tylor:

Cultura, ou civilização, em seu sentido etnográfico amplo, é um todo complexo que abrange conhecimento, crença, arte, princípios morais, leis, costumes e quaisquer outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade (TYLOR, 1871 apud KUPER, 2002, p. 83).

Nos anos finais do século XIX, nenhuma nova definição de cultura foi formulada, diferente do que aconteceu nas duas primeiras décadas do século XX, quando seis novas definições para esse conceito foram enunciadas e cento e cinquenta e sete formulações, advindas de diferentes concepções sobre cultura, surgiram entre 1920 e 1950 (KUPER, 2002, p. 84). Isso mostra que, ao invés de convergirem para uma elaboração consensual sobre o que é cultura, os antropólogos produziam cada vez mais distinções sobre o mesmo termo, o que provocava grandes discordâncias.

No início da segunda metade do século XX, dois renomados antropólogos estadunidenses, Alfred Kroeber e Clyde Kluckhohn, promoveram um novo juízo

sobre o significado de cultura, analisando as cento e sessenta e quatro definições enunciadas até então, e verificando, através de tabelas de classificação por categorias, que muitos destes conceitos estavam ligados a concepções etnocêntricas, com as quais não concordavam. Aliás, o etnocentrismo é um fenômeno que parece estar presente até os dias de hoje, pois consiste na supervalorização da cultura que vivenciamos e a tendência em achar que esta é a melhor forma de viver, pensar e agir:

O fato de que o homem vê o mundo através de sua cultura tem como consequência a propensão em considerar o seu modo de vida como o mais correto e o mais natural. Tal tendência, denominada etnocentrismo, é responsável em seus casos extremos pela ocorrência de numerosos conflitos sociais (LARAIA, 2006, p. 72-73).

De fato, as ideias de Kroeber e Kluckhohn se diferenciavam dos seus antecessores, inclusive da concepção de Tylor, por admitirem a possibilidade de analisar uma cultura a partir de padrões de comportamento e, sobretudo, através da comunicação das ideias culturais a partir de símbolos. Tylor não buscava análises culturais, apenas descrições ligadas à convicção de que cultura está associada aos atos ou instituições próprias de determinada sociedade.

Desta maneira, Kroeber e Kluckhohn introduzem uma ideia pioneira a fim de barrar o etnocentrismo existente, por meio de uma análise relativista para avaliar os valores de outras culturas. Também buscam uma nova definição:

Culture consists of patterns, explicit and implicit, of and for behavior acquired and transmitted by symbols, constituting the distinctive achievements of human groups, including their embodiments in artifacts; the essential core of culture consists of traditional (i.e. historically derived and selected) ideas and especially their attached values20 (KROEBER; KLUCKHOHN, 1952, p. 181).

Diferente da visão humanista de Kroeber e Kluckhohn que implicava a aceitação da estrutura social como parte integrante de uma cultura, Talcott Edgar Frederick Parsons possuía uma visão antropológica pragmática, incorrendo na

20 Cultura consiste de padrões, explícitos e implícitos, de comportamento adquirido e transmitido por

símbolos, constituindo realizações próprias de grupos humanos, incluindo suas personificações em artefatos; o núcleo essencial da cultura consiste de ideias tradicionais (isto é, historicamente obtidos e selecionados) e, especificamente, dos valores a elas vinculados.

necessidade de separação entre estrutura social e cultura e, por conseguinte, a Sociologia e a Antropologia. Kuper (2002) cita Kroeber e Kluckhohn (1952, p. 15) para tornar claras as diferenças existentes entre as ideias destes pesquisadores e a visão Parsoniana:

Nossa insatisfação com Parsons provavelmente deve-se ao fato de seu esquema estar tão completamente centrado na “ação”. Isso deixa pouco espaço para determinados tópicos da investigação antropológica: arqueologia, antropologia histórica em geral, difusão, certos aspectos de mudança de cultura, entre outros[...]. Somos contrários, particularmente, à sua ideia de incluir nos “sistemas sociais” elementos abstratos que achamos que devem ser considerados parte da totalidade da cultura (p. 82-83).

Em 1958, Kroeber e Parson publicam uma espécie de acordo diplomático e científico para estabelecer e definir as fronteiras entre os campos de estudo relativos à Antropologia e à Sociologia, implicando o êxito da visão parsoniana sobre os ideais de Kroeber e Kluckhohn:

Achamos conveniente definir o conceito de cultura de forma mais restrita do que a tradição antropológica norte-americana tem feito, restringindo sua referência a um conteúdo transmitido e criado e a padrões de valores, ideias e outros sistemas simbólicos significativos como fatores na formação do comportamento humano e dos produtos desse comportamento. Por outro lado, sugerimos que o termo sociedade – ou, de forma mais geral, sistema social – seja usado para designar o sistema relativo específico de interação entre indivíduos e coletividades (KROEBER; PARSONS, 1958 apud KUPER, 2002, p. 98).

O triunfo de Parsons fez com que, do seu trabalho na Universidade de Harvard, ainda na década de 1950, muitos jovens antropólogos despontassem como semeadores deste temporário consenso científico sobre a cultura e seu campo de ação. Kuper (Ibid.) destaca dois jovens parsonianos como grandes representantes desta geração: Clifford Geertz e David Schneider.

Geertz (1989) define cultura como sendo uma teia de significados que o homem teceu ou tece. Dessa forma, uma escola pode ser vista como uma instituição com uma cultura particular. Já Schneider (1976) exclui a ideia de normatizar uma cultura. Para este antropólogo:

Cultura contrasta com normas no sentido de que as normas estão orientadas para padrões de ação, ao passo que a cultura constitui um corpo de definições, premissas, postulados, pressuposições, proposições e percepções sobre a natureza do universo e do lugar que o homem ocupa nele (p. 202-203).

Ironicamente, Geertz, que era um filho da escola parsoniana, tornou-se um pesquisador de referência, defendendo a ideia de que o principal objetivo dos antropólogos seria interpretar a cultura e não explicá-la cientificamente. Esta corrente defendida por Geertz é, em boa parte, semelhante à visão humanista defendida, entre outros, por Kroeber e Kluckhohn.

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