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Ao fazermos uma apreciação da obra de Farias Brito, estamos conscientes das inevitáveis lacunas que isso implica, como também do seu valor histórico e filosófico, pois a mesma tem uma importância metodológica, na perspectiva de sua análise crítica dos sistemas filosóficos que encantavam nossos homens de letras, e da busca que empreendeu por um filosofar autêntico. Além disso, acreditamos que os textos de seus críticos tendem a ser mais conhecidos do que a própria obra de Farias Brito, o que torna necessário retomar os textos originais do filósofo para não apenas fazê-los mais presentes, mas para evidenciar a inadequação de algumas considerações habitualmente feitas sobre o seu pensamento, muitas vezes baseadas em leituras apressadas e descontextualizadas, com vistas a validar certos pressupostos que procuram classificá-lo ou encaixá-lo em correntes filosóficas ou mesmo religiosas, como é o caso do existencialismo e do catolicismo.

Essa obra inaugural da sistematização do seu pensamento foi publicada em 1895 e logo

apresentada nas sessões da Academia Cearense. No prefácio, Farias Brito relata que tinha a intenção de radicar-se no Rio de Janeiro e ali matricular-se na Escola Politécnica para desenvolver questões que tinham relação direta com a matemática e com a mecânica. Naquele momento dá-se a mudança de regime no País. Ele assiste à instauração da República. Fica entusiasmado com as novas perspectivas que se abrem e decide regressar à terra natal. Ao voltar ao Ceará, ele dedicou-se a uma perseverante meditação filosófica e paciente estudo da história da filosofia moderna e contemporânea, dentro das precárias condições de acervo bibliográfico que dispunha na “Província”. Ao escrever o primeiro volume de Finalidade do

Mundo, ele declara que o segundo já está, em grande parte elaborado, e, para o terceiro

No primeiro parágrafo do prefácio, ele revela uma necessidade essencial em escrever a obra:

Publicando o primeiro volume de Finalidade do mundo, devo observar que por tal modo me absorve o pensamento desta obra que com razão posso dizer: tudo em minha vida está subordinado a esse pensamento. (BRITO, 1957, v. 1, p. 09). No último parágrafo, ele procura justificar seu método de exposição, cuja leitura exige do

leitor muita paciência, pois a mesma é longa e enfadonha:

Na exposição que faço, muitas são as doutrinas que preciso resumir e analisar, algumas das quais contrárias aos princípios que defendo; mas sempre que me refiro a teorias alheias, reporto-me quanto possível aos próprios termos do autor, de modo a que não possa haver dúvida quanto à fidelidade da exposição.

Junho de 1895.

R. Farias Brito. (BRITO, 1957, v. 1, p. 10).

A introdução do livro A Filosofia como Atividade Permanente do Espírito Humano,

inicia-se com a frase de Sócrates: “filosofar é aprender a morrer”. A influência e a admiração que Farias Brito tem por Sócrates será mantida por toda sua existência. Refletindo sobre a questão socrática da vida e da morte, diz:

Vivemos todos como se fôssemos imortais. Entretanto a morte é a única solução verdadeira do problema da vida. É assim que nossa atividade se desenrola sobre mil formas, pensamos e trabalhamos e nosso pensamento e nosso trabalho constituem uma luta constante, uma reação permanente contra inumeráveis influências externas e internas; mas se ao mesmo tempo que vamos pelo esforço de cada dia acumulando elementos para o combate da vida, vamos do mesmo modo, caminhando invariavelmente para a morte. (BRITO, 1957, v. 1, p.13).

Há em Farias Brito um grande pessimismo diante da vida, sentimento que pode estar relacionado com a sua própria vida e a vida em sua volta, onde via muito sofrimento, dor e angústia. Para alguns estudiosos da filosofia brasileira, como Aquiles Cortes Guimarães, Farias Brito desponta como o precursor do existencialismo no Brasil (Guimarães, 1982). Na verdade essa corrente filosófica ainda não estava bem delineada na Europa, mas já existiam pensadores no século XIX que influenciaram os existencialistas, sabendo-se ter sido Schopenhauer um deles, o qual também influenciou Farias Brito.

Ao prosseguir em sua obra, Farias Brito levanta questões tipicamente existencialistas:

Em que consiste a vida? Ninguém vacilará em reconhecê-lo: viver é ser escravo das necessidades, é desejar, é sofrer. O primeiro grito da criança que nasce, é um grito de dor e toda a vida, mesmo a mais risonha e venturosa, é uma tragédia. Todo gozo é ilusório. É assim que se esforçam todos por conseguir a felicidade; mas a felicidade não é senão um sonho... (BRITO, 1957, v. 1, p.14)

Seguindo a reflexão de Schopenhauer, Farias Brito considera que a vida é sofrimento, e a vida humana é a mais dolorosa forma de vida. A despeito disso, tentando desvencilhar-se dessa filosofia do sofrimento e do pessimismo, Farias Brito busca na consciência e no conhecimento a saída para a superação do estado de desilusão que muitos vêem na condição humana:

Não obstante, no mundo que é tão grande, o que nos parece maior é a vida. Pode-se mesmo dizer que a vida é a finalidade do mundo, pois é para a vida que tende a evolução natural no desenvolvimento indefinido do cosmos, sendo que vem primeiro o mecanismo, depois a vegetação e por fim a animalidade e o homem. E é no ser vivo, e no homem que se manifesta o fenômeno fundamental da consciência, e como produto da consciência, a ação e suas condições formais – o sentimento e o conhecimento. (BRITO, 1957, v. 1, p. 20).

Farias Brito parte de uma avaliação pessimista da vida, em sintonia com Schopenhauer e Hartmann, mas procura transcender essa filosofia buscando na consciência o elo da contingência individual para o sentido da existência universal da natureza e da humanidade:

Considerando o nada de todas as grandezas humanas, quero indagar que relação tem minha existência universal, quero, numa palavra, interrogar os segredos da consciência de modo a explicar a cada um a necessidade em que está de compreender o papel que representa no mundo. Tudo passa, tudo se aniquila. Pois bem: eu quero saber se do que passa e se aniquila, alguma coisa fica em virtude da qual se possa ter amor ao que já não existe ou deixará de existir; se do que passa e se aniquila alguma coisa fica que não há de passar, nem aniquilar-se: quero estudar essa ciência incomparável de que falava Sócrates; quero ensinar aos que padecem como é que se pode esperar com serenidade o desenlace da morte; quero dirigir aos pequenos e humildes palavras de conforto; quero levantar contra os tiranos a espada da justiça; quero, em uma palavra, mostrar para todos que antes de tudo e acima de tudo existe a lei moral, e que é somente para quem se põe fora desta mesma lei que a vida termina. (BRITO, 1957, v. 1, p. 28-29).

Verificamos que, desde o início, a problemática filosófica britiana se concentra na preocupação moral a ser fundamentada pela atividade de uma consciência ciosa de sua autonomia, mas que não se furta ao debate com a ciência. Partindo do pressuposto consagrado pelos cientistas que nada existe sem uma causa, e tudo que acontece tem uma explicação natural e obedece às leis da natureza, ele quer saber para onde vai dar a evolução do mundo, que objetivo final tem a vida. Essa questão da evolução universal do mundo e da natureza é também uma das questões centrais das primeiras obras de Farias Brito, nos embates que teve com o evolucionismo e com o positivismo, que procura respondê-la como filósofo e não como cientista:

Qual é o fim a que tende a evolução universal, para onde vai tudo isto que nos cerca, em que consiste a finalidade do mundo? Tal é precisamente o problema que me proponho a estudar, ou sobre o qual ao menos me proponho a apresentar algumas idéias. (BRITO, 1957, v. 1, p. 30-31).

A problemática teleológica é dada por muitos como insolúvel ou como inútil. Porém, para Farias Brito esta questão não pode ser tão insolúvel assim, embora considere que encontrará enormes dificuldades para encontrar uma solução aceitável. Reconhece que no Brasil não há estímulos para estudos filosóficos. No momento em que escreve, os positivistas, com notável influência na República, fazem uma reforma onde excluem a filosofia do ensino secundário. Ele protesta contra a exclusão da filosofia, embora reconheça que o que se ensinava até então como filosofia era uma coisa indigesta e absolutamente intragável. Para ele, havia a necessidade de fazer uma reforma da organização do ensino, não somente da filosofia, mas de todas as matérias que constituíam o curso secundário e superior. No entanto, uma reforma que melhorasse, não que suprimisse o ensino de filosofia.

Para aqueles que consideram perda de tempo se ocupar com questões filosóficas, Farias

Brito defende o seu direito de ocupar-se com a filosofia, mesmo que pareça inútil. Para ele, perda de tempo é dedicar a vida à acumulação de riquezas, depois de enormes sacrifícios, quando estas não serão bem aproveitadas; é consumir-se no jogo, na depravação e na intriga desenfreada e mesquinha da politicagem:

Que tudo seja perdido, que ninguém me ouça, que todos condenem a minha tentativa, pouco importa, mas eu não posso viver bem, não compreendo a minha existência, desde que não conheço o papel que representa a sociedade no mundo: quero, pois saber o que sou, quero ter consciência de mim mesmo. (BRITO, 1957, v.

1, p. 32).

Farias Brito considera que as duas manifestações fundamentais do espírito humano na

marcha geral da sociedade são a política e a filosofia. A política gera o direito e a filosofia é o princípio gerador da moral. O direito e a moral são as duas alavancas, os dois eixos centrais do grande mecanismo social. Para ele, um plano de estudo geral da sociedade deveria contemplar não somente a ação da política, mas também a ação da filosofia, pois esta trata das produções do espírito humano que movimenta o mecanismo social.

A relação da moral com a filosofia não é nenhuma novidade. Ele reconhece que essa relação remonta a Sócrates e perpassa por quase toda a história da filosofia. Conclui esse capítulo dizendo:

É, pois, somente na filosofia, nas altas questões que envolvem a totalidade das coisas, e sobretudo em face da majestade da natureza, que poderemos estudar os mistérios da organização humana, elevando-nos à compreensão de nosso destino moral. (BRITO, 1957, vol. 1, p. 47).

Para Farias Brito, o direito e a moral confundem-se num ponto: ambos têm por fim regular

sujeitando-o aos preceitos morais, produto da filosofia. Mas distinguem-se: o direito parte da sociedade, a moral parte do indivíduo; o direito é a ação exercida pela sociedade sobre o indivíduo; a moral é a ação exercida pelo indivíduo sobre si mesmo; o direito encontra sua sanção nos tribunais que representam a consciência do Estado; a moral tem sua sanção na consciência individual, que é a essência da natureza.

Farias Brito considera que a filosofia é uma das manifestações fundamentais do espírito humano. É mais do que conhecimento abstrato, é força social, força viva, capaz de exercer influência sobre a sociedade. Além de fundamentar o sentimento moral, cabe à filosofia indagar como deve ser compreendido e classificado o conjunto dos conhecimentos humanos. Consideramos que a tradição filosófica parece convergir para esse consenso a respeito do conceito de filosofia: conhecimento universal, conhecimento da totalidade que busca articular os fenômenos particulares, isolados, os quais são objetos das diversas ciências, numa visão de mundo.

Farias Brito entra no debate filosófico de seu tempo: o embate entre positivismo e metafísica. O positivismo comteano postula que o conhecimento humano passa por três estados: o estado teológico ou religioso, considerado como a infância da humanidade; o estado metafísico ou filosófico, fase da adolescência; e o estado científico ou positivo, onde a humanidade atinge sua maioridade. Nesse último estágio caberia à filosofia apenas a sistematização geral das ciências. A metafísica, conhecimento das causas primeiras e finais, ou seja, dos por quê e dos para quê, encontra em Schopenhauer, na análise de Farias Brito, uma nova elaboração. Segundo ele, para o filósofo alemão o universo é um fenômeno cerebral; e tudo demonstra na natureza que o mundo, para ser um objeto, tem antes de tudo necessidade de um sujeito que o pense. Por exemplo, o sono profundo, sem sonhos, é uma prova de que o mundo só existe para uma cabeça pensante. Sem pensamento, somos como as pedras e o mundo não existe para as pedras. Assim, o universo não tem realidade objetiva, não existe fora do espírito, é simplesmente uma representação. Nosso corpo como parte do universo, é também uma representação; mas há dentro uma coisa que é mais do que representação: é a vontade. A vontade é a coisa em si e deve ser considerada como a causa primeira de tudo. O sentido da palavra vontade é diferente do conceito do senso comum que identifica vontade com predisposição. Vontade é entendida, nessa metafísica, como sinônimo de força. A vontade é a força oculta que dorme na pedra, sonha na planta e acorda no homem.

A história da filosofia tem se dividido em duas grandes tendências: o materialismo e o idealismo. Para Farias Brito, os materialistas, inimigos declarados da metafísica, sem perceberem, são metafísicos, pois os princípios materiais que defendem para explicar a realidade são abstrações metafísicas. De fato, questiona, qual é o princípio fundamental do materialismo? É ainda o velho princípio de Demócrito: - o universo inteiro só se compõe de átomos e vácuo, responde. O átomo, a matéria é, pois, o elemento primordial, o todo na natureza, e como tal não pode ser considerado como fenômeno, é a coisa em si, o “noumeno”, na linguagem de Kant; e nestas condições é uma entidade tão metafísica quanto Deus e a alma dos espiritualistas, diz o filósofo cearense (Brito, 1957, v. 1, p. 61).

Farias Brito é um metafísico declarado, chegando a dizer que a metafísica é uma necessidade fundamental do espírito humano. Outros já declararam que o homem é um animal metafísico. Bem, seu esforço intelectual consiste na tentativa de elaborar uma filosofia chamada de metafísica naturalista. No caminho para atingir esse objetivo, ele analisa rapidamente a filosofia de Comte, Schopenhauer, Kant, Fichte, Scheling, Hegel e Spencer; ora citando comentadores, ora citando as obras originais desses filósofos.

Na tentativa de construir uma nova metafísica Farias Brito analisa as relações entre

ciência e filosofia, partindo do seguinte pressuposto: a ciência é o conhecimento já feito, o conhecimento organizado e verificado; a filosofia é o conhecimento em via de formação. Para explicar melhor esse ponto, assim se refere:

Sempre que qualquer conhecimento chega a ser verificado e organizado é ciência. Mas o espírito nunca se dá por satisfeito: não se contenta com o conhecimento adquirido, quer continuar na sua exploração da natureza, que aliás não fica diminuída em sua parte desconhecida porque em alguns caracteres insignificantes chegou a revelar-se à consciência humana. Nesta exploração do desconhecido é que está propriamente a função da filosofia, de modo que a filosofia não é propriamente uma ciência, nem sequer um dos ramos do conhecimento; é a inteligência em ação explorando a natureza e produzindo a ciência; em uma palavra, é o próprio espírito humano em sua atividade permanente, indefinida. (BRITO, 1957, v. 1, p. 77-78).

Temos aqui uma redefinição da filosofia mais abrangente que a definição inicial de Pitágoras. Para além de ser o simples amor à sabedoria, a filosofia é criadora da própria sabedoria, de acordo com o conceito britiano. E a filosofia não trata do conhecimento e cria a sabedoria para mero deleite intelectual, mas com a finalidade de instaurar um mundo moralmente constituído na racionalidade. Por isso dizemos que o conceito britiano de filosofia

como atividade permanente do espírito pode, assim, ser completado: para a realização de um ideal ético, pois alcançar este objetivo é o que o motiva pesquisar na filosofia regras para a

Depois de escrever várias páginas sobre a relação entre ciência e filosofia, Farias Brito procura fundamentar sua denominada metafísica naturalista. Essa metafísica não precisa de forma alguma recorrer ao sobrenatural. É uma metafísica que se fundamenta exclusivamente nas revelações da consciência, e que pode estabelecer-se sem que por modo algum seja necessário ultrapassar a esfera da natureza:

A natureza tal como se manifesta à consciência decompõem-se unicamente em duas ordens de fenômenos: fenômenos objetivos, o movimento, a matéria, a força; e fenômenos subjetivos, o sentimento, o conhecimento, a ação; mas se tanto uns como outros nos são revelados pela consciência, e o que mais é, em condições perfeitamente idênticas, pois que não se apresentam como duas coisas distintas, mas simplesmente como as duas faces opostas mas inseparáveis de uma só e mesma coisa; se assim é, como não pode ser contestado, não há razão para que somente os fenômenos objetivos sejam considerados como naturais, devendo os outros, isto é, os fenômenos subjetivos ou fenômenos de sentimento, conhecimento e ação, ser considerados como estranhos à natureza. Tal é, entretanto, o erro da antigüidade, como ainda o erro em que tem caído quase todos os filósofos modernos, sem excetuar um dos pensadores mais enérgicos da moderna geração, sem excetuar Schopenhauer. (BRITO, 1957, v. 1, p.104-105).

Para defender essa posição, Farias Brito rebate Schopenhauer e sua idéia de uma metafísica fora da natureza. Segundo Farias Brito, assim Schopenhauer cai no ponto de vista retrógrado da metafísica supernaturalista, ou seja, da teologia, cujos argumentos, segundo ele

mesmo se exprime, consistem sobretudo em ameaças de penas eternas e temporais, dirigidas contra os incrédulos (Brito, 1957, v. 1, p. 106). Enquanto em Schopenhauer a natureza é

apenas física, em Farias Brito, a natureza é física e metafísica, pois a consciência e os sentimentos humanos também são manifestações da natureza.

Farias Brito faz uma longa digressão ao tratar da relação entre filosofia e poesia. Para ele a natureza é um eterno poema e a poesia é o único consolo de que pode resultar uma compreensão eficaz contra as misérias do mundo, é um refúgio e uma regeneração, é o espírito humano, olhando além da realidade presente.

No capitulo referente à filosofia e à religião, Farias Brito diz chegar ao ponto culminante do primeiro volume de Finalidade do Mundo, afirmando que a filosofia é o começo da evolução do pensamento humano e a religião é o seu fim. Repete que o fim da filosofia é a moral e acrescenta que sem religião não há moral. Para ele, as religiões atuais estão mortas e são mantidas apenas como uma homenagem às tradições do passado, mas como a religião é uma necessidade pública muito importante, pois sem ela não pode haver ordem nem estabilidade social, há de ser criada uma nova religião para ajudar na superação da crise da sociedade contemporânea.

Farias Brito combate as idéias que pretendem substituir a religião e a filosofia pelo predomínio absoluto da ciência. Entre essas idéias, está o positivismo comteano que, no entanto, não se afasta de todo do espírito religioso, pois propõe uma religião da humanidade. Para os profetas do fim das religiões, adverte Farias Brito:

Esta solução de que as religiões serão totalmente eliminadas, sucedendo à sua completa eliminação exclusivamente a ciência, é absolutamente inadmissível. As religiões, como já disse, passam; a religião (o espírito religioso) é em si mesma imortal. Acontece a ela, como acontece à filosofia que também se desdobra em inumeráveis sistemas, cada um dos quais constitui uma filosofia particular. As diferentes filosofias vivem em luta perpétua: umas são absorvidas por outras, outras se fundem para a produção de novos sistemas e assim numa sucessão indefinida. Todavia, cada filosofia desenvolve-se e cresce, realiza o seu papel; depois é posta de lado; mas a filosofia em si mesma vai sempre crescendo. Pode-se, pois, dizer que a religião é eterna, como eterna é a filosofia. Ou por outra e mais precisamente, a religião é a própria filosofia, porquanto a religião não é senão o reconhecimento da necessidade que tem o homem de elevar-se a uma concepção do universo, de saber o que é, de onde vem e para onde vai; de formular uma explicação da finalidade das coisas. Ora, todos esses problemas só podem ser agitados na filosofia, não na ciência; e é exatamente quando os agita e agitando-os acredita poder resolvê-los e resolvendo-os deduz as leis da conduta, que a filosofia se transforma em religião, razão pela qual afirmo que a religião é a própria filosofia e em verdade a religião não é senão a filosofia realizando a moral. (BRITO, 1957, v. 1, p. 143).

Podemos concluir que, assim como a filosofia, a poesia e a ciência são atividades do espírito humano, também é a religião. Ou seja, a religião é uma necessidade individual, pela condição finita e bastante limitada do indivíduo; e uma necessidade social, ou seja, o essencial para que uma sociedade subsista, sem cair na anarquia e na desagregação completa. Farias Brito defende que uma nova religião deve se instaurar no mundo como síntese das