É importante ter em consideração alguns aspetos ao trabalhar o conto popular enquanto ponto de partida de um trabalho de projeto.
As suas dimensões estética, simbólica e cultural revelam-no enquanto objeto formativo completo e mostram-nos a importância de se ter em atenção, ao contá-lo num contexto educativo que visa explorar, a partir dele, um determinado tema, a sua integridade e autonomia.
Cerrillo (2006) critica o uso da imaginação enquanto objetivo para se atingir um fim instrutivo, reportando-se a uma tendência com origem no período Iluminista do século XVIII, apologista da razão e do pragmatismo, onde “a criatividade, a imaginação ou a sensibilidade não eram valores em si mesmos (...) mas sim um meio de que os educadores se podiam socorrer para que crianças e jovens aprendessem, de uma forma mais fácil, os segredos das ciências ou qualquer tipo de lição” (p. 34) O autor defende que o gosto, o prazer e o
enriquecimento pessoal que uma obra literária provoca são os motivos centrais para se recorrer a essa obra. Assim, qualquer abordagem que dela se origine, deverá partir desses aspetos, caso contrário, corremos o risco de que a utilização do deleite imaginativo para a instrução faça com que “a instrução se [imponha] de tal maneira que [acabe] por afogar o deleite” (p. 34).
Nesta linha de pensamento, Traça (1992) evoca as potencialidades do domínio estético dos contos, através das palavras de Villasante (1980):
A educação estética “por meio do folclore afina a sensibilidade, que é inseparável da inteligência; as crianças criadas sem canções, sem contos, sem poesia, são crianças espiritualmente mais pobres do que as outras. Os psicólogos e os professores sabem-no muito bem. Porque a educação estética começa no berço”. (p. 114)
A mesma investigadora, recorrendo às palavras de Bryant, (1981) diz-nos que a função essencial do conto é “dar alegria; na alegria e pela alegria, excitar e alimentar o espírito” (p. 114).
Bettelheim (2006) evoca, por sua vez, as potencialidades do domínio simbólico dos contos, relembrando-nos que o efeito formativo do conto se passa ao nível do inconsciente e pré-consciente da criança, palco no qual esta se sente compreendida e auxiliada, uma vez que, “depois de a história ter dado corpo [às suas angústias], ela garante à criança que o fim será bom”. (p. 243 e 244).
Traça (1992) desenvolve esta ideia, dizendo-nos que
As descobertas essenciais para a condição humana – a vida, a morte, o trabalho, a amizade, o amor, o sofrimento – são muitas vezes feitas pela criança ao nível do simbólico que lhe propõem primeiro os contos, que apreende intuitivamente para em seguida os decifrar a pouco e pouco no plano do intelecto. A distância introduzida pelo símbolo serviria em muitos casos para proporcionar forças à criança, para tornar progressivo o choque da descoberta. (p. 115)
Ora, os sentidos do conto são, em certa medida, inesgotáveis, e os efeitos psicológicos que produzem em cada criança transcendem sempre, em alguma medida, a compreensão e a intencionalidade do educador. Assim sendo, cabe a este, na sua qualidade de narrador, dar espaço para que os contos cumpram o seu papel, sem interferir de forma muito literal na interpretação do seu significado e sem os remeter para o mero utilitarismo.
Mata (2006), adianta que o momento de contar histórias a crianças representa uma oportunidade privilegiada de captação da sua atenção e do seu interesse, sempre que o adulto que as conte tenha a capacidade de estabelecer uma atitude empática e de partilha com a sua audiência.
Assim sendo, interessa explorar o papel que o educador, na sua qualidade de narrador, deve desempenhar no momento de contar uma história, para garantir que este interesse é despertado.
Os critérios de seleção da história a contar e a preparação do momento da narração revestem-se de grande importância. Cerrillo (2006) acentua que a qualidade da obra é, entre outros critérios, determinada pela sua “capacidade para nos emocionar ou para nos fazer vibrar, sentir, sonhar ou compartilhar” (p. 38). Estando de acordo com esta ideia, há que destacar, como afirma Castro (2012), a importância da procura de variedade, na medida em que “será mais interessante selecionar relatos (...) que no seu conjunto nos apresentem um mundo mais amplo e diverso do que aquele que conhecemos” (p.109).
Quanto aos imprescindíveis do mediador, são, na opinião de Cerrillo (2006), entusiasmo, compromisso, conhecimento do grupo, uma certa dose de imaginação e criatividade, a crença firme no trabalho de mediador e a capacidade para aceder a informação suficiente e renovada. Traça (1992), por sua vez, defende que este deve “ter um bom conhecimento da história que (...) quer contar, um perfeito domínio das suas estruturas narrativas a fim de se tornar possível
um certo grau de improvisação, real ou construída; ter o domínio do corpo e da voz, o que pressupõe uma preparação segura; ter um bom conhecimento do seu auditório.” (p. 124) Quanto ao modo de contar, é preciso ter-se em conta que a narração oral e a leitura provocam efeitos muito distintos. Guerreiro (1983), Traça (1992) e Castro (2012) estão de acordo quando afirmam que um conto contado possibilita uma experiência de fusão, onde narrador e audiência formam um todo, superior à do conto lido, pois não existe uma barreira física que os separe e, consequentemente, as palavras e a expressividade do narrador são informadas pelas reações que este capta, no imediato, da audiência. Para que esta experiência aconteça com sucesso, Traça (1992) e Castro (2012) dizem-nos que o narrador tem que se apropriar do conto de tal maneira que consiga vivenciar, ele próprio, cada evento que está a narrar. Nas palavras de Traça (1992) “O contador deve assimilar bem a história para poder contá-la, agarrá-la, vibrar com ela, antes de tentar transmiti-la” (p. 137) e para isso deve estar emocionalmente e esteticamente implicado.
Relativamente à discussão posterior diz-nos ainda esta autora que as crianças colocarão, tendencialmente, questões ou farão comentários acerca do conto que ouviram. De acordo com o que já foi referido anteriormente, diz-nos que é das suas questões que o educador deve partir para uma abordagem a temáticas que surjam a partir do conto e não de um discurso inteiramente pré-programado que não tenha em consideração o modo como estas o vivenciaram.