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O trajeto de um sujeito biografado pode confundir-se com a vivência de um lugar ou de uma instituição; por conta disso, a biografia tanto caminha em direção à História institucional quanto pode concentrar-se em áreas específicas; daí sua desenvoltura enquanto gênero – o que, intrinsecamente, relaciona-se com o processo de renovação metodológica dos estudos da História, fruto do entendimento de que a pesquisa biográfica pode, enquanto recurso metodológico, expandir feixes para a reconstrução de um momento histórico ou, de

modo mais particular, de determinados contextos. A biografia resgata percursos individuais, inseridos em seus respectivos contextos, a partir dos quais o presente dialoga com o passado.

Em crise, o paradigma estruturalista, até então orientador da historiografia, a partir da década de 60 do século XX, abriu caminho para a biografia. Para esses estruturalistas, o papel do historiador seria, essencialmente, “identificar as estruturas e as relações que, independentemente das percepções e das intenções dos indivíduos, comandam os mecanismos econômicos, organizam as relações sociais, engendram as formas do discurso.” (CHARTIER, 1994, p. 102). Por outro lado, os historiadores atuais “quiseram restaurar o papel dos indivíduos na construção dos laços sociais.” (p. 102). Neste cenário, ante a nova realidade metodológica, acontece um recuo da história quantitativa e serial, por um lado; por outro, o avanço dos estudos de caso e da Micro-História.

Do século XIX até meados do século XX, visando afirmar sua cientificidade, a História afastou-se da Literatura; esta, uma vez proscrita, deixou livre o caminho para que se tornasse mais viva a “tendência em negar a narratividade como modo adequado de exposição da escrita histórica.” (CEZAR, 1997, p. 26). Assim, a biografia é um movimento internacional mais ou menos recente; e, mais ainda, na historiografia brasileira.

Cezar (1997) ressalta, como favorável à historiografia, a aproximação desta com a literatura – elemento recorrente nas novas biografias produzidas por historiadores; ora, não podemos esquecer que a conversão de um sujeito em biografado faz deste agente de ações, que tanto dizem de si mesmo quanto dos outros.

Mas o historiador, ao utilizar-se do processo narrativo, na construção de uma biografia, não deve alumbrar-se pela sedução da possibilidade do devaneio, convertendo-se num ficcionista, uma vez que este habita outro território, delimitado pelos elementos orientadores das produções artísticas; é mister, portanto, que esteja, o tempo todo da empreitada, cônscio de que o seu compromisso é com sujeitos históricos, colhidos de um contexto social, econômico, político, ético, moral etc; e mais: que tais sujeitos a ele vieram por meio de fontes orais ou escritas, nunca pelas teias cerzidas pela verossimilhança, ou seja, pela lógica interna do enredo21, como, por exemplo, os atores do quadro que se segue:

21

Quanto à verossimilhança, termo colhido por Aristóteles em sua “Poética” e hoje aplicado às narrativas de ficção, o leitor deve considerar que “os fatos de uma história não precisam ser verdadeiros (no sentido de corresponderem exatamente os fatos ocorridos no universo exterior ao texto), mas devem ser verossímeis; isto quer dizer que, mesmo sendo inventados, o leitor deve acreditar no que lê. Esta credibilidade advém da organização lógica dos fatos dentro do enredo, da relação entre vários elementos da história.” (Cf. GANCHO, 2012, p. 12).

Agora Fabiano conseguia arranjar as ideias. O que o segurava era a família. Vivia preso como um novilho amarrado ao mourão, suportando ferro quente. Se não fosse isso, um soldado amarelo não lhe pisava o pé não. [...] Tinha aqueles cambões pendurados ao pescoço.

Devia continuar a arrastá-los? Sinhá Vitória dormia mal na cama de varas. Os meninos eram uns brutos, como o pai. Quando crescessem, guardariam as reses de um patrão invisível, seriam pisados, maltratados, machucados por um soldado amarelo. (RAMOS, 1969, p. 75).

Como o imaginário reside na nossa capacidade de vislumbrar o desconhecido, o “inusitado se cria a partir de um desdobramento daquilo que é familiar” (SANTOS; OLIVEIRA, 2001, p. 73); e a nova imagem resulta da deformação da anterior; assim, extraídas da realidade circundante, as personagens de ficção sofrem um processo de transfiguração, remodeladas pelo cinzel de seu criador, mais do que criaturas de carne e osso, são, em verdade, metonímia da condição humana; por isso, driblam o eixo das horas, desfigurando o tempo e o espaço de suas (des)venturas:

A diferença profunda entre a realidade e as objectualidades puramente intencionais – imaginárias ou não, de um escrito, quadro, foto, apresentação teatral etc. – reside no fato de que as últimas nunca alcançam a determinação completa da primeira. As pessoas reais, assim como todos os objetos reais, são totalmente determinadas, apresentando-se como unidades concretas, integradas de uma infinidade de predicados, dos quais somente alguns podem ser “colhidos” e “retirados” por meio de operações cognitivas especiais. Tais operações são sempre finitas, não podendo por isso nunca esgotar a multiplicidade infinita das determinações do ser real, individual, que é “inefável”. Isso se refere naturalmente em particular a seres humanos, seres piscofísicos, seres espirituais, que se desenvolvem e atuam. A nossa visão da realidade em geral, e em particular dos seres individuais, é extremamente fragmentada e limitada. (ROSENFELD, 2009, p. 32).

Já os sujeitos biografados não perdem nunca a sua marca, resultam de testemunhos, oriundos da oralidade ou dos documentos, passíveis de constatação:

São Francisco não escreveu muito. Mesmo se tivéssemos a primeira Regra, as cartas e os poemas perdidos, todas as suas riquezas caberiam num pequeno volume. A edição delas que nos deram os franciscanos de Quaracchi está dividida em três partes: I) as Admonições e as Regras; II) as cartas; III) as orações. Sob o pretexto de só publicar as obras em latim, os padres de Quaracchi mutilaram a obra escrita de São Francisco de Assis de uma obra-prima essencial, o Cântico do irmão Sol, escrito em italiano. [...] É preciso, em francês, utilizar, de hoje em diante, a edição dos padres Théofhile Desbonnets e Damien Vorreux. (LE GOFF, 2013, p. 92).

A leitura comparativa da construção desses dois excertos delimita bem as fronteiras de seus respectivos interesses: a família de Fabiano entrou na casa dos leitores porque Graciliano Ramos a concebeu; é, portanto, produto de seu gênio criador, por isso não houve coleta de provas, de documentação oficial ou não, tampouco uma metodologia científica; Le Goff, no entanto, enumera edições de obras, línguas em que estas foram escritas

e aponta o que pode ser, hoje, consultado a respeito do assunto. Ressaltamos, ainda, que, em tempos atuais, as biografias, se escritas por historiadores, não devem ser vistas como obras encerradas, definitivas, pois estarão sempre abertas a outras leituras; tão somente descortinam questões de pesquisas antes não detectadas por enfoques macroscópicos.