As realidades que compõem o trabalho são consideradas separadamente nas práticas da empresa, bem como nas das disciplinas científicas que historicamente se constituíram nesse campo. O trabalho da empresa é objeto de abordagens diferenciadas, que podem ou não estar alinhadas as estratégias da manufatura, mas que são necessárias à eficácia econômica da empresa (Quadro 3.1). Tais lógicas são parcialmente contraditórias entre si e sua intermediação resulta em negociações diretas entre os vários atores no processo de decisão. No entanto, a idéia de contradição entre os diversos fatores em jogo raramente é reconhecida na empresa. Geralmente são privilegiadas as questões de curto prazo, com predominância da lógica econômica.
Quadro 3.1 - Os pontos de vista dos diferentes atores na empresa.
Agente Social Interesses
Direção da empresa Inovação, retorno de capital Trabalhadores Conhecimento, salário, carreira
Sindicatos de trabalhadores Emprego, remuneração, condições de trabalho Segurança e Medicina do Trabalho Saúde, prevenção da força de trabalho
Recursos Humanos Qualificações, assistência social Tempos e Métodos Desempenho, produtividade
Supervisão Estoques, entrega, qualidade, custo Fonte: Adaptado de Guérin et al. (2001)
Segundo Guerin (1997), a análise de situações de colaboração, em que várias lógicas se acham confrontadas, mostra freqüentemente que as dificuldades de colaboração se relacionam ao fato de que os diferentes atores ignoram as restrições de seus interlocutores, enquanto supõem que estes conseguem levar em conta sem dificuldade os trade-offs a que estão submetidos.
Para Duraffourg (apud LIMA, 2000), os atores sociais e seus pontos de vista que reivindicam legitimidade no interior de uma organização correspondem a uma função parcial (produção, qualidade, manutenção, compras, vendas, finanças, segurança, etc.) onde o ponto de vista da atividade se apresenta como uma posição privilegiada, embora raramente reconhecido enquanto tal. Para o autor, o ponto de vista da atividade é o único com possibilidade de se universalizar, sendo capaz de estabelecer
um compromisso satisfatório entre os objetivos de produção e as lógicas conflitantes de sua realização.
Segundo Guerin (2001), a atividade de um operador, em um dado momento, é o resultado de um compromisso complexo que leva em consideração numerosos fatores externos ao operador (os objetivos determinados pela empresa e dos meios postos a sua disposição) e fatores internos compostos pelas propriedades gerais do organismo humano, as características particulares, estáveis ou do momento, das propriedades gerais do raciocínio humano, os saberes adquiridos pelo operador ao longo de sua história, a orientação particular de seu raciocínio num dado momento e da personalidade do operador e seus projetos individuais.
Para atingir os objetivos fixados, o operador, com os meios que dispõe, considerando seu estado interno e seus conhecimentos, elabora estratégias originais que são objeto de constantes ajustes e novas orientações. A análise da atividade do operador esclarece os casos em que ele encontra dificuldades para atingir tais objetivos e permite identificar os determinantes dessas atividades que se relacionam com os meios fornecidos (ferramentas e dispositivos, organização do trabalho, formação e treinamento). A análise da atividade mostra os comportamentos, condutas, processos cognitivos e interações realizadas por um operador ou uma operadora durante as observações (DANIELLOU, 1996).
A análise do trabalho permite igualmente identificar as competências mobilizadas pelos operadores. Essa identificação leva freqüentemente à localização de competências não reconhecidas pela empresa, suscetíveis de servir de base a uma evolução profissional, ou para investimentos técnicos. É também possível avaliar em que medida a situação de trabalho favorece uma evolução dessas competências ou, ao contrário, a limita.
Os fatores que explicam a adoção de estratégias de trabalho pelos operadores são (CAMAROTTO, 2005):
1. Variabilidade: está associada ao imponderável, ou aquilo que não foi previsto, manifesto dentro das situações produtivas. Significa compreender como os trabalhadores enfrentam as diversidades e as variações de situações e quais conseqüências elas acarretam para a saúde e para a produção.
2. Modos operatórios: para atingir os objetivos, levando em conta os meios de que dispõe e seu próprio estado, o operador vai elaborar modos operatórios.
3. Carga de trabalho: A noção de carga de trabalho pode ser interpretada a partir da compreensão da margem de manobra da qual dispõe um operador num dado momento para elaborar modos operatórios tendo em vista atingir os objetivos exigidos, sem efeitos desfavoráveis sobre seu próprio estado. O aumento da carga de trabalho se traduz por uma diminuição do número de modos operatórios possíveis.
4. Diferença entre tarefa e atividade (Figura 3.6)
Fonte: Adaptado de Guérin et al. (2001).
Figura 3.6 – Conceito de trabalho prescrito (tarefa) e trabalho real (atividade). O trabalhador impõe uma série de condicionantes para a realização da atividade: suas características físicas, sexo, idade; sua qualificação, experiência, competência, seu estado momentâneo e sua vida pessoal. Por outro lado, a empresa também impõe suas condicionantes: as exigências cognitivas da tarefa, as máquinas, ferramentas e o meio ambiente, os movimentos e posturas pressupostos, a divisão de tarefas, hierarquia e o regime de trabalho.
A carga de trabalho constitui-se do resultado da confrontação destes condicionantes. De um lado a empresa com a tarefa e de outro o trabalhador com a atividade. O resultado da carga de trabalho realizada, por sua vez, retorna sobre ambos. Para o trabalhador, se manifesta sobre seu estado de saúde. Para a empresa se manifesta em termos de produção e produtividade. Esse modelo integrador é apresentado na Figura 3.7, a seguir.
Fonte: Adaptado de Guérin et al. (2001). Figura 3.7 – Modelo integrador da atividade.
A atividade de trabalho é o elemento central que organiza e estrutura os componentes da situação de trabalho, permitindo uma análise das estratégias usadas pelo operador para administrar a distância entre aquilo que é prescrito pela organização e aquilo que é real (GUÉRIN et al., 2001).
Aperfeiçoamentos metodológicos (THEUREAU, 1992 E PINSKY, 1992, apud DANIELLOU, 1996) permitiram que, progressivamente, a análise da atividade pudesse ser aplicada à quase totalidade das atividades profissionais. Wilson (1997)
acrescenta que o ergonomista deve compreender as interações entre as pessoas e os artefatos, e contribuir para o projeto dos sistemas de interação.
Esse método de abordagem do trabalho permitiu progredir na compreensão do enigma do trabalho. O trabalhador, por estar presente no momento da materialização do produto, tem a chance de detectar e eliminar as ineficiências do processo, como por exemplo, as que impactam em eficiência de tempo e de qualidade.
A análise do trabalho é uma abordagem mais global, na qual se insere a ergonomia, e que se compõe da análise dos fatores econômicos, técnicos e sociais e da análise dos efeitos do funcionamento da empresa sobre a população de trabalhadores envolvida e da eficácia econômica. A análise do trabalho é um meio de confrontação, pois obriga os atores envolvidos a discutir a representação do trabalho produzida, a partir da explicitação de seus próprios pontos de vista sobre o trabalho (TERSSAC, 1990).
Segundo o autor, o dispositivo de validação de conhecimentos produzido pela análise do trabalho é duplo:
• De um lado, fundamenta-se em métodos que asseguram a congruência do modelo interpretativo e dos fatos, que constituem a construção técnica da intervenção ergonômica.
• De outro, baseia-se em formas de difusão e discussão, junto aos atores sociais, das descrições produzidas, que fundamenta a construção social da intervenção. Tal construção não se inicia após a obtenção de resultados, mas desde a entrada em cena do projetista.
Essa dupla construção, técnica e social, da intervenção, é a condição necessária para que os resultados da análise do trabalho conduzam os atores da empresa a transformar suas representações do trabalho, requisito para a transformação dos seus determinantes. Neste trabalho a análise do trabalho não foi explorada.