sociedade, conhecimentos necessários para a formação dos sujeitos que se banharam com tais saberes.
2.3.4. Geografia e História
De início juntas, a cadeira de Geografia e História do Atheneu Sergipense se dividiu
em Geografia; e História Universal, principalmente do Brasil, pelo Regulamento da Instrução Pública de 1875. Passaram a ser chamadas Geografia, Cosmografia e Corografia do Brasil; e História Antiga, Média, Moderna e do Brasil em 1877.
Pelo Estatuto de 1871, os compêndios a serem adotados na cadeira de Geografia e
História eram os seguintes: “§7o. Para o de Geographia – a Geographia de Pompeu Brasil* e a
de Gaultier – edição de 1867. Atlas de Grosselin de Lamarcho, e para Historia Universal – o
compendio de Salvador Correia”.122
Um artigo publicado na imprensa local argumentava ser de acordo com a divisão das cadeiras das Matemáticas (Aritmética, Álgebra, Geometria), assim como as de Geografia e História, por razões que pareciam óbvias para o autor do texto.
[...]materias complexas e amplisseimas [sic], em um anno, quer umas quer outras, são invenciveis, doutrinadas por um mesmo professor, que ou se occupará exclusivamente de um dos ramos das sciencias, objeto de sua cadeira, deixando incompleto o respectivo curso, ou passará por todos elles de um modo imperfeito e sem proveito procurado na respectiva instituição (Jornal de Aracaju, 14 de janeiro de 1874, sem identificação de autoria).
Manuel Luiz, preocupando-se com o andamento dos estudos realizados no Atheneu Sergipense, defendia também a divisão das cadeiras, como medida essencial para uma melhor aprendizagem dos alunos. Parecer semelhante tinha o Presidente da Província, Antonio dos Passos Miranda, em seu relatório de março de 1874. Declarava, referindo-se à divisão das cadeiras:
A divisão que proponho, evita o atropelamento do ensino dessas matérias, que transmittido promiscuamente e no pouco tempo assignado ás respectivas aulas, não pode ser completo e satisfactorio para os exames.
Creadas essas cadeiras, podem as de geometria e historia ser postas a concurso e a de rethorica apenas provida por nomeação interina, conferida a pessoa de
122
O Abade Gaultier escreveu Lições de Geografia. O cearence Thomaz Pompeu de Souza Brasil, bacharel em Direito pela faculdade do Recife, escreveu Lições de Geografia Geral; Compêndio de Geografia; Compêndio
elementar de Geografia Geral e especial do Brasil. Este último com uma 5a edição de 1869, foi adotado no Colégio de Pedro II, nos liceus e seminários do Império (Tambara, 2003, p.56).
reconhecidas habilidades e mediante a gratificação rasoavel, até que o numero de alumnos demonstrem a carencia de um maior sacrifício da parte da província.
O projeto apresentado à Assembléia Legislativa de Sergipe, em 8 de abril de 1874, tem a seguinte redação:
Art. 3o. O Presidente da Provincia melhorará e completará o serviço da instrucção secundaria dada no Atheneu Sergipense, dividirá a cadeira de geometria da de arithmetica e álgebra, a cadeira de historia da de geographia, a de religião da de pedagogia e poderá crear a de rhetorica e poética.
No entanto, pela Resolução 968, de 21 de abril de 1874, Antonio dos Passos Miranda decretava:
Art. 3o. O presidente da provincia poderá quando ache conveniente dividir a cadeira de historia da de geographia, a de geometria da de arithmetica e a de religião da de pedagogia, podendo igualmente crear a de rhetorica e poética.
O projeto de lei revelava certeza pelo verbo empregado – dividirá –, mas a Lei colocou “quando ache conveniente”. No entanto, nesse mesmo ano de 1874, foram determinados horários para as aulas de Geografia das 9h às 10h30, História das 10h30 às 12 h, Retórica e Poética das 12h à 1h 30, Religião das 10h 30 às 12h, Pedagogia das 7h às 8h 30, Aritmética e Álgebra das 7h às 8h 30, Geometria das 2h às 3h 30. Dessa forma, o elemento tempo subsidia inferir que as cadeiras foram divididas, mesmo porque tais evidências encontram-se nas Atas da Congregação do Atheneu Sergipense, incluindo os nomes dos respectivos lentes a ministrá-las. No Regulamento de 20 de abril de 1875, tal divisão tornara-se explícita. Assim ficaram as cadeiras: Geometria compreendendo o Desenho Linear; Aritmética, Álgebra e suas aplicações mais gerais; Geografia; História Universal, principalmente do Brasil.
A Figura 7 objetiva apresentar o movimento da rubrica da cadeira de História ministrada no Atheneu Sergipense no período de 1874 a 1908.
FIGURA 7 – O MOVIMENTO DA CADEIRA DE HISTÓRIA DO ATHENEU SERGIPENSE, SEGUNDO SUAS DENOMINAÇÕES, 1874 A 1908
História Universal Principalmente do Brasil
História Antiga, Média, Moderna e do Brasil
História Universal e História Especial do Brasil
História Geral História Universal e do Brasil História Universal e da Civilização História Geral e do Brasil História Geral e Corografia do Brasil História Universal e História do Brasil
1874 1877 1882 1890 1892 1897 1899 1901 1905 1908
FONTE: Elaborado a partir da série dos Planos de Estudos do Atheneu Sergipense (1871 a 1908).
História Antiga, Média, Moderna e do Brasil foi a denominação da cadeira nos anos de 1877 a 1882, modificando-se no período de 1882 a 1890 para História Universal e História Especial do Brasil. A variação do nome da cadeira movimentou-se ainda por: História Geral, de 1890 a 1892, História Universal e do Brasil, de 1892 a 1897, História Universal e da Civilização, de 1897 a 1899 e História Geral e do Brasil, de 1899 a 1901. Os estudo de Corografia entraram na cadeira durante o período de 1901 a 1905, denominando-se História Universal e História do Brasil de 1905 a 1908.
Quanto aos compêndios, são adotados no Atheneu Sergipense para a cadeira de
História Universal e do Brasil de 1892, os de Duveny e o de Mattoso Maia.123 Avalia Almeida
que a obra de Matoso Maia limitava-se “a uma árida narração cronológica dos acontecimentos”, não respondendo ao “progresso realizado em outros países acerca dos métodos do ensino da História” (Almeida, 2000, p. 163).
123
Luiz de Queiroz Matoso Maia nasceu no Rio de Janeiro, formou-se em Medicina, foi professor de Geografia do Brasil e Corografia do Colégio de Pedro II. Escreveu: Lições de História do Brasil, proferidas no Internato do Imperial Colégio de Pedro II, publicado em 1880. Este livro teve a segunda edição em 1886 e a quarta em 1895. Escreveu ainda Lições de História Universal, publicado em 1887 (Tambara, 2003, p.167).
Em 1893, no programa da Escola Normal, as cadeiras de Geografia e História
aparecem como únicas, embora subdividam-se os estudos. No 2o ano são noções de Geografia
Geral, especialmente do Brasil e de Sergipe, e no 3o ano os estudos atendem às “ligeiras
noções de historia universal, historia do Brasil, especialmente de Sergipe”. O programa de estudos do curso de Humanidades do ano de 1893 previa História Geral em estudo completo
apenas no 4o ano. No 5o ano, o estudo era de História do Brasil. Já no 6o ano, estudava-se
“História de Sergipe, desde sua colonização”, com uma carga horária de duas horas semanais. Em 1903 adotaram-se os trabalhos de Cansiglien Pedroso e Capistrano de Abreu. Regia a legislação que para os estudos de História,
mencionar-se-ão, sem jamais descer a minudencias, os acontecimentos politicos, scientificos, litterarios e artisticos de cada epocha memoravel; serão expostas as causas que determinaram o progresso ou o estacionamento da civilisação nos grandes periodos historicos, apreciados os homens que concorreram para as revoluções beneficas ou perniciosas da humanidade, mormente os da America e sobretudo os do Brazil, agrupando-se em torno delles os factos caracteristicos das phases em que dominaram o espírito publico, devendo ser principal escopo do programma e do ensino na historia patria, particularmente, instruir a historia educativa e verificadora do sentimento nacional (Art. 6, X, Decreto 556, 24 de agosto de 1908).
Possivelmente, tal organização legal dos conteúdos de História para o Atheneu Sergipense tenha relação com as defesas de Sílvio Romero, feitas, é bom lembrar, anteriormente à Reforma de Benjamim Constant. A História Universal, nos Exames Preparatórios deveriam evitar, segundo o célebre autor sergipano:
aquelle montão de factos mal contados, mal unidos, sem arte e sem systema, que por ahí anda a meter medo á gente. [Deve o estudo da História] ser bem nutrido de factos; mas todos estes devem ser relacionados com o ideial do conjuncto da evolucção humana: a cultura. Quaes os elementos da civilisação oriental antiga e moderna; quaes os factores mais poderosos da cultura occidental antiga e moderna; qual o contingente de cada povo na evolução universal, estes e outros problemas deverão ser esplanados á luz dos factos e não por theorias phantasticas (Romero, 1901, p.215).
Enfim, a finalidade do ensino de História, no Atheneu Sergipense, pode ser entendida da seguinte maneira:
Nas décadas finais do século XIX e iniciais do XX, no caminho da utilização da história para a personalização da nação, aberto também pela Terceira República Francesa, o ensino da história passa a ter uma maior intencionalidade social na formação do cidadão. O seu campo de estudos é ampliado para além da sociedade,
na medida em que a interpretação cumulativa das tradições da civilização ocidental concede legitimação à história nacional em seus diferentes momentos de construção do Estado/Nação como agente histórico e instrumento do progresso (Andrade, 1999, p.61).
Os estudos de Geografia no Atheneu Sergipense passam a denominar-se, em 1877, Geografia, Cosmografia e Corografia do Brasil. Em 1882, denominava-se Cosmografia, Geografia Geral e Geografia especial do Brasil. Em 1885, os compêndios adotados foram
Geografia das Províncias do Brasil, de Moreira Pinto, Atlas Geográfico, do Dr. Lisboa em
substituição do Atlas de Delamarche. Em 1890 passou a denominar-se Geografia e Cosmografia.
Entre as obras brasileiras para os estudos da Geografia, cita Almeida a de Joaquim Maria de Lacerda, “ótima como método, acompanhada de pequenos mapas e, em algumas edições, de gravuras explicativas”, desfrutando no período de merecida reputação (Almeida, 2000, p.162), e adotado no Atheneu Sergipense em 1892, além dos trabalhos de Moreira
Pinto, e do Atlas de Schrader & Anthoine.124 A geografia devia perder, clamava Romero em
1901, o caráter árido e
horridamente imprestavel de uma simples nomenclatura, que já perdeu ha muito nos paizes cultos depois da colossal obra de Ritter e da propaganda incansável de Arnold Guyot, Ratzel, Peschel e Penck. É preciso ver na terra um assombroso organismo com sua vida, sua dynamica, sua tatica, suas relações interessantissimas com a vida vegetal, animal e humana (Romero, 1901, p.214).
O programa para o curso de Humanidades no Atheneu Sergipense no ano de 1893
previa, para a cadeira de Geografia os seguintes estudos no 1o ano: geografia física,
especialmente do Brasil, exercícios de cartografia, noções concretas de Astronomia e no 2o
ano, corografia e cosmografia. Em 1897, a cadeira passou a denominar-se Geografia Geral e Astronomia, e em 1899, Geografia Geral e Corografia do Brasil, especialmente de Sergipe.
Vale ressaltar o interesse em se estudar a região, o local. Foi assim que pelo Decreto
231, de 9 de julho de 1897, no 2o ano do curso de Humanidades o conteúdo “geographia
politica e economica, especialmente de Sergipe” passou a ser estudado. Esse interesse pode também ser identificado nas ações governamentais. Autorizou Martinho Garcez, em 1895 a
124
Alfredo Moreira Pinto, Bacharel em Letras pelo Colégio de Pedro II, ensinou Geografia e História no curso preparatório anexo à escola militar do Rio de Janeiro. Escreveu “diversos compêndios e pequenos livros com o fim de facilitar os exames da instrução pública” (Tambara, 2003, p. 216). Avalia Almeida que as obras de Alfredo Pinto obedeciam uma regra caprichosa, arbitrária, mas em compensação, exata e suficientemente completa (Almeida, 2000, p. 163). Alfredo Moreira Pinto publicou também Geografia das Províncias do Brasil, detalhando a Geografia de cada Província e um resumo histórico. Sobre o tema consultar Almeida (2000) e Tambara (2003).
impressão na Imprensa Oficial do Estado, de 2500 exemplares de uma obra aprovada pelo Conselho Superior da Instrução e mandada adotar nas escolas públicas, Chorographia de
Sergipe, de autoria do professor Luiz Carlos da Silva Lisboa.125 Geografia e História do
Brasil, principalmente de Sergipe era uma cadeira do Curso Normal do Atheneu Sergipense em 1875.126
Corografia do Brasil passou a fazer parte da cadeira de História do Atheneu Sergipense em 1901, voltando em 1905 para a de Geografia. Os conteúdos de Cosmografia – descrição dos principais fenômenos do universo –, e da Corografia do Brasil – esboço histórico do Brasil –, cambiam por vezes entre as cadeiras de História e de Geografia.
Defendia Romero (1901) que nos estudos da Corografia Pátria devia “predominar o caracter exclusivamente scientifico”. A História Nacional, adquirindo a feição científica, firmar-se-ia em “factos escrupulosamente verificados, e dirigida no intuito de tornar salientes os factores mais energicos de nossa cultura e de nosso desenvolvimento democratico” (Romero, 1901, p. 215, 216).
O Decreto de 1908, mencionado em outros momentos deste texto, traz à cena orientações metodológicas também para os estudos da Geografia ministrados no Atheneu Sergipense, assim determinando:
o intuito fundamental será a descripção methodica e racional da superficie da terra por meio de desenho, na pedra e no papel, copiados, mas nunca traspoleados, e de memoria, das cinco partes do mundo, dos paizes da America, especialmente do Brazil, e dos da Europa, com a preocupação de evitar minucias, nomenclaturas extensas, dados estatisticos exaggerados e tudo quanto possa sobrecarregar a memoria do alumno ou não a exercitar com real proveito, quer no estudo da geographia physica, quer no da geographia política, e do ramo econômico (Art. 6, IX, Decreto 556, de 24 de agosto de 1908).
Sinalizavam-se por esse Decreto os limites que os professores não poderiam ultrapassar: nada de nomenclaturas extensas ou dados exagerados. Dividia-se o conteúdo da geografia em física, particularmente do Brasil, no primeiro ano, política e geral no segundo
ano e corografia do Brasil no terceiro ano.127 Desta feita, os estudos da Geografia e da
125
O baiano Luiz Carlos Silva Lisboa ficaria com 1000 exemplares e os outros 1500 pertenceriam ao Estado. Essa obra pode ter inspirado o sergipano Laudelino de Oliveira Freire a escrever Quadro Chorographico de
Sergipe, em 1898, obra prefaciada pelo Barão do Rio Branco (cf. Guaraná, 1925). 126
A atenção para as questões locais, portanto, são evidenciadas desde essa época e não só a partir da Proclamação da República, como acentua, por exemplo, Razzini (2000).
127
Quanto aos materiais necessários para as aulas de Geografia, encontrou-se sinais no Liceu de São Cristóvão. Solicitavam insistentemente os lentes a compra de “mappas Geographicos de grande formato e dous globos, um celeste e outro terrestre”, além de máquina planetária ou astronômica (Livro das Correspondências do Liceu Sergipense). Alertava a Congregação que com a falta desses e outros matérias, não estariam cumprindo o
História, juntos em uma só cadeira ou separados como cadeiras distintas, foram ministrados no Atheneu Sergipense, possibilitando ampliação dos conhecimentos referentes a Sergipe, ao
Brasil e ao Mundo.