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Foto 5: Primeiros anos de organização do assentamento Itapuí. Crédito: Arquivo pessoal dos/as assentados/as.

Após cinco anos, cada família recebeu 12,6 hectares de terra, optando, a partir de então, pelo trabalho individual ou coletivo. É im- portante ressaltar que nem todos os moradores assentados se dedicaram à produção agrícola. Muitos passaram a trabalhar em fábricas da região ou em outros empregos como pedreiro, professor/a ou empregado/a de serviços domésticos em geral. Entretanto, compreender essa diversi- dade na formação de um assentamento faz parte do trabalho de reletir o contexto mais concreto que a classe trabalhadora rural e popular de nosso país enfrenta para a constituição da Reforma Agrária, processo em que a terra é essencial, mas não constitui a única conquista.

Enim, o assentamento Itapuí possui extensão total de 1.177,6 hec- tares e se localiza a 12 km da sede do município de Nova Santa Rita, bem como a 35 km da capital, Porto Alegre. As 68 famílias são oriundas da Ano- ni, as quais se somam as casas de ilhos e netos de assentados/as, cons- truídas ao longo dos 24 anos de história do assentamento. Encontra-se no assentamento casos de vendas de pedaços de lotes realizados por assentados ou ilhos de assentados/as. O assentamento está constituído por duas áreas interligadas entre si por estradas de terra de jurisdição municipal e distantes 2 km uma da outra. Se considerados apenas os assentados originários, na parte de cima de Itapuí (como denominam os assentados) moram vinte e sete famílias e, na parte de baixo, vivem outras quarenta e uma famílias. Cabe lembrar que alguns pioneiros já faleceram e os ilhos dividiram as terras entre si. Há ainda os que moram sozinhos, uma vez que os ilhos mudaram para outros municípios próximos ou distantes.

Os assentados/as têm como transporte coletivo o ônibus Pi- cadão do Padre da empresa Via Nova, que liga o assentamento à

Nova Santa Rita e à Canoas.34 O ônibus tem horário que varia, nos

três turnos do dia, entre uma hora de espera, em horários de pico, até duas horas. Uma média signiicativa de assentados/as possui carros ou motos que facilitam o seu deslocamento.

O processo de entrevista na pesquisa de campo não traz a pre- cisão de datas e temporalidade das vivências relembradas. Entre- tanto, as narrativas descrevem claramente os principais processos da trajetória. Com a pesquisa de campo e o cruzamento de dados, procurei, ao máximo, resolver as contradições percebidas.

Durante os oito meses em campo, compreendi que os assentados/ as vieram da fazenda Anoni de forma diferenciada. As primeiras 15 famí- lias chegaram em outubro de 1987. Entre elas alguns homens sem suas famílias completas. Foi o caso do marido de dona Tânia. Como esta sem- -terra cuidava dos ilhos e nem todos moravam no acampamento, o ma- rido veio à frente e somente depois foi que ela conseguiu juntar todos os seis ilhos que icaram de férias. Em duas entrevistas que tive com dona Tânia, ela referiu-se a sua chegada de forma distinta. Na primeira conver- sa realizada, em 2010, logo no início da pesquisa de campo, mencionou que morou nos barracos. Em outra conversa, em 2011, airma não ter mo- rado nos barracos e já chegou ao assentamento se dirigindo aos galpões. O detalhe das diferenças nas informações revela apenas que há detalhes em campo que vão sendo contrastados. Na realidade, dona Tânia não morou nos barracos. A contradição em seu discurso só revelou sua condição de Sem-Terra que viveu pouco o acampamento e que conquistou sua ligação com o MST apenas após sua separação do esposo, fato já mencionado.

Outra questão importante em campo foi que, na primeira en- trevista que iz com dona Tânia, questionei sobre a existência de rá- dio no acampamento e assentamento, e ela ressaltou que não havia nenhum. Porém, em conversa com Margarida, a ilha mais velha de Janete, que viveu sua adolescência no acampamento, foi menciona- do o sistema de som que tanto mobilizava quanto fazia o lazer do acampamento na Anoni. Comecei, através da conversa com Marga- rida, a compreender que, a partir do acampamento, o MST montara uma estrutura de comunicação, a qual nem previa em meu projeto analisar. Na casa de dona Tânia, falei da conversa com Margarida e apenas dona Tânia disse que não icava muito no acampamento por conta de alguns ilhos que moravam fora da Anoni. Foi assim

que descobri que seu esposo foi quem permaneceu a maior parte do tempo na fazenda Anoni. Essa descoberta fazia-me observar as distintas formas com que os Sem- Terra se relacionaram no acam- pamento com o MST. No caso de dona Tânia, a relação com o MST foi sendo refeita no assentamento Itapuí. Após a separação do ma- rido, ela passou, juntamente com os ilhos mais velhos, a plantar e a trabalhar fora, fazendo faxinas; desse modo, sustentava a família. Também passou a fazer parte do movimento de mulheres do MST e conquistou o direito à fala, à criticidade, hoje vivida a seu modo. Em diversas conversas entre dona Tânia, eu e o ilho Afonso, que mora no terreno dela, na parte que ela dividiu para os ilhos, Afonso dizia mais ou menos assim, revelando a riqueza da expressão oral de sua mãe: “a mãe fala mais que eu e não adianta negar que ela fala segura” (AFONSO, conversas informais em campo).

A história do Itapuí não está sendo contada para ressaltar o mo- delo de luta do MST. Ao longo da investigação e durante a permanên- cia com parte desse grupo, compreendia que o valor das tentativas era o maior legado dessa gente. Revelavam-se as diiculdades que o MST encontrou diante da luta pela terra ao ter que assessorar os assenta- mentos que conquistava no Brasil em busca da Reforma Agrária.

Entre as conquistas dos assentados/as, a escola Nova Socieda- de e a produção orgânica, que não é um exemplo-modelo nem faz parte da rotina de todos os assentados/as, foram conquistas que têm importância por representar as tentativas de constituição do pequeno agricultor sem terra. O aprendizado com a produção orgânica foi sendo observado no decorrer da pesquisa. No Itapuí, as famílias que tinham uma cultura de cultivar grãos chegaram à fazenda Meridio- nal, uma terra apropriada mais a verduras, embora uma parte das terras no Itapuí de cima fosse propícia a plantar arroz. O aprendizado com a terra e a descoberta do uso da mesma veio com o cotidiano.

E quando nós cheguemo aqui, nós viemo da região das missões e do alto Uruguai, que é o grupo mais forte, é da região do Alto Uruguai. E a gente tinha um sistema completamente diferente

do modo de trabalhar. Nós trabalhava com monocultura e aqui a gente chegou numa terra diferente de produzir que é mais a hortigranjeira e frutas né. A região produz muito é berinjela, pimentão, a melancia, a moranga, o pepino e o melão. Mas quando nós chegamo aqui, nós custemo a se adaptar por causa da origem e da cultura. Que nem eu, a minha família é de Re- dentora, um município praticamente isolado que é entre Argen- tina, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. [...] Mais, na verdade, nós tentemo até trigo aqui. E a onde produziu, chegou a 15 sacas por hectare, então quer dizer que o que plantar aqui dá. Só que não é uma terra própria pra isso (ELIAS, entrevista, 2011).

No decorrer da pesquisa, para dizer com clareza, ao narrar essa trajetória, percebo que é importante contar as tentativas como parte da história do MST. Não tomar esse movimento apenas como acertos e experiências-modelo, pois seus aprendizados e tentativas se consti- tuem no processo de conquistas vividas pelos agricultores brasileiros na luta pela terra. Entretanto, penso que o aprendizado dos assenta- dos/as faz parte do aprendizado e da luta do MST que foi vivida no Itapuí e nos bastidores da trajetória de muitos outros assentamentos. É dessa experiência que se constitui parte das memórias que levam assentados/as a se identiicarem ou não com o movimento:

E aí a gente foi se adaptando, mas tivemo muita diiculdade, primeiro porque reviremo toda a terra e ai enfraqueceu a terra. E a gente tá anos recuperando a terra. É uma terra muito pobre em matéria orgânica. Mas a gente conseguiu com que essa terra voltasse a nossa realidade de produção. Por que hoje é praticamente o forte dos produtores que estão ativos aqui é a verdura (ELIAS, entrevista, 2011).

Não, não, nós comecemo, nós viemo de uma região, que a gente produzia lá, feijão, milho e soja, Cheguemo aqui numa região diferente. Então, nos primeiros anos, nós comecemo plantando milho e feijão ainda. A gente até começou produzindo num grupo. Nós era em nove família, num grupo e produzia tudo junto assim. Mas não conseguimo viabilizar a produção. Aí foi quando a gente começou a partir mais pro hortigranjeiro. na re- gião nossa ali, tu produzir grão, ela se torna inviável. Aí a gente começou com a horta (GILBERTO, entrevista, 2011).

Foto 6: Estufa de assentados/as do Itapuí.