Os procedimentos de coleta de dados com a família foram divididos em três fases: avaliação inicial, intervenção e avaliação final.
Avaliação inicial: contato inicial e entrevista com base em formulário.
A avaliação inicial compreendeu o desenvolvimento de duas etapas: contato inicial e entrevista com base em formulário. O objetivo do contato inicial foi esclarecer os pais sobre a pesquisa, as metas programadas, os compromissos éticos da pesquisadora com as alunas, família e escola. Inteirá-los da formação e experiência da P, das atividades a serem implementadas no decorrer do ano letivo e obter a autorização por escrito dos pais. A família 9I já conhecia o trabalho da pesquisadora, enquanto a outra família obteve o primeiro contato durante a realização da pesquisa.
A segunda etapa da avaliação inicial consistiu na realização de entrevista com base em formulário (Apêndice A). Durante esta etapa buscou-se ouvir os pais, encorajando-os a discorrer sobre suas filhas. O objetivo foi conhecer as singularidades de cada família em relação a identificação pessoal, condição econômica, social e cultural, caracterização da relação afetiva vivenciada com a filha surdocega, depoimentos em relação às experiências na época da descoberta da surdocegueira, principais redes de apoio (igreja, parentes, amigos, outros), modalidade de comunicação estabelecida com a filha SC e, principalmente, relacionar as expectativas da família em relação à participação na pesquisa.
Para a obtenção das informações foram necessárias três sessões, duas na escola e uma na residência. Muitos itens foram obtidos na secretaria da escola, outros por observação direta. Para os demais itens, organizou-se um roteiro com os principais tópicos do formulário, os quais foram colocados para os pais informalmente. As sessões transcorreram em um clima de confiança, descontração, informalidade e de aceitação mútua, possibilitando um fluxo natural das informações. Os dados foram registrados logo após as sessões.
Intervenção
Durante a fase de intervenção buscou-se desenvolver atividades com a família de acordo com as seguintes formas de atuação: a) reuniões convencionais; b) aulas abertas; c) troca de informações pelo telefone; d) visita domiciliar; e) intervisitação dos pais. Para cada forma de atuação elaboraram-se materiais, objetivos e procedimentos específicos.
desenvolvido junto as suas filhas, bem como informá-los sobre a natureza da deficiência; 2) possibilitar informações e alternativas de comunicação entre pais, filhas e escola; 3) motivar e incrementar as freqüências das respostas das alunas ao ambiente ajudando os pais a reconhecerem as condutas e os comportamentos apresentados pelas filhas; e 4) possibilitar uma adaptação mútua das condutas (pais / filhas).
O procedimento assumido consistiu na organização de espaços para trocas de experiências entre as famílias, orientação dos pais em relação aos métodos e técnicas de comunicação alternativa capacitando-os a apoiar e facilitar o desenvolvimento de suas filhas.
Em todo o trabalho com a família considerou-se que os pais podem às vezes cometer alguns enganos no processo de educação de seus filhos deficientes em função da falta de habilidade ou de poucas informações relacionadas ao desenvolvimento em circunstâncias excepcionais. Mas, mesmo assim possuem um efeito global sobre seus filhos, desde que o espaço familiar seja saudável e apresente afeição parental (TELFORD e SAWREY, 1988).
a) Reuniões convencionais
Estavam previstas no calendário oficial da escola cinco reuniões a serem realizadas a cada dois meses. O objetivo destas reuniões foi mostrar aos pais o progresso de suas filhas, evidenciando os aspectos mais importantes a serem reforçados no lar de cada um; e, demonstrar como deveriam fazer.
Planejou-se assistir e discutir com os pais dois filmes clássicos: O milagre de Anne Sullivan e Os transformadores (também conhecido como: Borboletas de Zargosk). Nestes encontros os pais eram convidados a manifestarem suas opiniões a respeito do desenvolvimento de suas filhas. Todos os relatos foram registrados no diário de campo, após as reuniões. Somente uma reunião foi gravada em fita de vídeo, mas sem imagem, respeitando a solicitação dos pais.
Durante as reuniões convencionais ou nos encontros informais dos participantes, a pesquisadora orientava os pais sobre os setores de atendimento público no que se refere a locais de: a) inscrição para aquisição de AASI; b) realização de exames audiológicos; c) treino de fala; d) serviço de orientação para o trabalho, uma vez que um pai encontrava-se desempregado na época da coleta de dados; e) leitura e explicação dos laudos médicos; f) participação em associação de pais; g) distribuição de colírio de alto custo; e, h) indicação de outros serviços públicos que poderiam beneficiar a aluna e sua família.
b) Aulas abertas
Consideraram-se como aulas abertas todas as atividades de sala de aula que contaram com a participação ativa dos acompanhantes (mãe, pai, prima). O objetivo desta etapa foi dar oportunidade à família de participar e conhecer os êxitos das filhas, bem como aprender as técnicas que as alunas usavam para conhecer os objetos, a situação de ensino, as pessoas, as regras, as distintas formas de registro escrito (Braille, dactilologia, alfabético). Estavam previstas 55 participações das famílias nas aulas abertas. Para tanto, através de atividades educacionais realizadas em sala de aula, proporcionaram-se aos pais experiências para que vissem suas filhas como pessoas capazes, triunfantes e valiosas.
As atividades propostas nas aulas abertas, onde era requisitada a presença de um acompanhante por vez, consistiam em jogos de agrupamento em diferentes bases (uso de dados adaptados, canudinhos e liguinhas de borracha), calendário adaptado, AVD (envolvendo preparação de receitas), escrita, leitura e treino oro-tátil da fala. O procedimento adotado nas aulas abertas consistiu em:
a) convidar os acompanhantes (pai, mãe, prima) para participar de uma atividade na sala de aula e fora dela;
b) explicar para as alunas a participação do acompanhante na atividade, estimulando e valorizando a presença deles em sala;
c) demonstrar a dinâmica da atividade para os pais através de exemplos concretos. No caso da atividade de agrupamento, jogar o dado, quantificar e representar os pontos com canudinhos, ao completar cinco unidades realizava-se o agrupamento;
d) determinar a seqüência da participação de cada um. Geralmente, os acompanhantes eram os últimos a participarem, possibilitando assim um tempo maior de observação;
e) quantificar e comparar o resultado de cada participante;
f) comemorar a vitória com muito entusiasmo por meio de aplausos, beijos, abraços, aperto de mão, fala, entre outros gestos. No caso do último lugar as reações consistiram no gesto do dedo polegar para baixo, simulação de choro, movimento horizontal da cabeça, etc.; g) entregar para as alunas material semelhante ao utilizado em sala, para que pudessem
brincar com sua família em casa.
A participação dos acompanhantes em sala de aula ofereceu condições concretas de aprendizagem das técnicas de comunicação alternativa. Viabilizou-se, também, oportunidades para os próprios pais conhecerem e avaliarem o aproveitamento dos filhos nas atividades programadas, capacitando-os a reforçarem e a darem continuidade em casa às atividades desenvolvidas em cooperação com a família. Buscou-se, desta forma, alterar o lugar ocupado
pela aluna, no sistema de relações sociais vivenciadas no ambiente familiar.
c)Troca de informações por telefone
Visando acompanhar e conhecer as manifestações das alunas em suas casas, a P telefonava para os pais uma vez por semana, caso não tivesse contato com eles na escola. Muitas vezes os próprios pais ligavam para a casa da P, relatando os últimos acontecimentos envolvendo as filhas. Todas as informações obtidas por esta via foram registradas em folhas avulsas, devidamente arquivadas de acordo com a data.
d) Visita às residências
Foram previstas cinco visitas às residências das alunas 9I e 7G com um intervalo de dois meses, tendo por objetivos: a) observar a relação dos membros da família com a aluna SC; b) envolver os membros da família no processo de aprendizagem e desenvolvimento das alunas; c) orientar os pais em atividades necessárias ao desenvolvimento de sua filha SC; d) esclarecer dúvidas da família em relação à filha surdocega; e) orientar e ensinar aos membros da família sistemas alternativos de comunicação, de acordo com a opção realizada. No caso da família 9I os pais se interessaram, na época da pesquisa, pelo Tadoma e no caso de 7G gestos naturais e alfabeto dactilológico.
Planejou-se realizar durante as visitas atividades lúdicas envolvendo todos os membros da família. Para isto, selecionaram-se jogos, brinquedos pedagógicos, fichas com o nome dos móveis e das pessoas da casa. Em geral, a atividade de rotular espaços e móveis consistia em realizar a decodificação da palavra através da soletração digital, do gesto funcional e do sinal. Outro procedimento foi a identificação dos membros da família através da ficha com o nome de cada um. Os nomes foram escritos com fita adesiva colorida (preta, vermelha, azul, verde). Outra atividade consistiu na orientação da família quanto ao uso do calendário adaptado (escrita ampliada, sinal e objeto de referência).
Os dados obtidos nas visitas foram registrados no diário de campo logo após cada encontro. Algumas visitas foram gravadas em fita de vídeo e outras foram fotografadas.
e) Intervisitação dos pais
Nesta forma de trabalho, a P propôs e viabilizou as condições apropriadas (transporte) para que as famílias se visitassem mutuamente. Estava prevista a realização de uma visita organizada pela P. O objetivo deste trabalho foi aumentar a proximidade das famílias,
possibilitando trocas de informações a respeito de suas experiências de vida.
Avaliação final
A avaliação final foi a terceira fase do estudo com a família e teve por objetivo ouvir os depoimentos dos pais em relação ao desenvolvimento de suas filhas, bem como conhecer a avaliação deles em relação à participação na pesquisa. Para tanto, realizou-se uma entrevista semi-estruturada, tendo as anotações sido realizadas logo após o depoimento de cada família.