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As experiências com os projetos SITIM/SIG e, principalmente, com o SPRING, entre os anos 1980 e 1990, deram à DPI a capacidade de compreender diversos aspectos-chave da tecnologia da geoinformação, que permitiriam o grupo se manter no rumo da inovação. Os reveses enfrentados no período do desenvolvimento do SPRING atestaram a capacidade de articulação do grupo na construção de alianças cujos significados estariam para além das necessidades de natureza científico-tecnológica.

Apesar das tentativas “fracassadas” de fortalecer os desenvolvimentos da DPI, nos anos 1990, das dificuldades impostas pela política-econômica neoliberal e suas variantes no campo da cultura política e da política científica, foi possível suplantar as adversidades e definir meios que levassem o grupo a continuar a produzir a sua tecnociência. A resistência teve, em grande medida, suporte dos atributos conquistados pelo grupo ao longo de sua trajetória e pelas estratégias tecnológicas e políticas traçadas por suas lideranças (os poucos “abnegados”, termo utilizado por um dos entrevistados).

Sempre houve a busca do consenso no estabelecimento das metas, o que não quer dizer que não houvesse divergências, mas estas não rompiam a união do grupo, nem o sentido de comprometimento com os objetivos estipulados. Havia espaço para discussão e os objetivos poderiam mudar, como ocorreu em algumas situações quando um determinado padrão tecnológico adotado nos produtos da DPI não se firmava como tendência de mercado.

No final dos anos 1990, o SPRING já havia passado por um processo de disseminação, consolidando-se como produto, particularmente bastante procurado pelo meio acadêmico, principalmente como um softer de treinamento para quem começava a trabalhar e operar SIGs. Nessa época, frente a um cenário tecnológico que já se alterava, com o advento de novos avanços na área da informática e antevendo o término de um ciclo de vida do SPRING como produto, as lideranças da DPI começaram a se movimentar para desenhar um novo projeto.

Havia a necessidade de o novo software ser multi-usuário, o que já era possível naquele momento, início dos anos 2000. Outro aspecto também levado em conta foi o surgimento de Sistemas Gerenciadores de Bancos De Dados (SGBDs), que permitiriam não somente o armazenamento de dados geográficos, mas a manipulação dos mesmos em seu interior. Este novo patamar tecnológico possibilitou a transição dos sistemas monolíticos (com centenas de funções), como o SPRING, para uma geração de aplicativos geográficos,

operados a partir de pequenos sistemas voltados para atender necessidades específicas, que se integrariam facilmente a bancos de dados de usuários já existentes.

A partir de tais evoluções tecnológicas, o INPE iniciou então, em 2001, junto com a Pontifícia Universidade Católica, do Rio de Janeiro, o desenvolvimento da TerraLib, que abrigaria grande parte das tecnologias já desenvolvida pela DPI, mas sob o conceito de biblioteca de funcionalidades, um ambiente capaz de suportar aplicações em geoprocessamento, com grande flexibilidade para operar diversos formatos de dados geográficos.

Outro aspecto importante deste novo software era o fato de ter sido desenvolvido com o código fonte aberto. Ele não seria, portanto, dirigido diretamente ao usuário final de SIGs, mas a desenvolvedores de SIGs113. Tal opção contemplava a potencialidade dos softwares de código fonte aberto, que surgiam naquele momento, como uma forma de utilizar a capacidade criava de especialistas em TI para o desenvolvimento e aperfeiçoamento de SIGs. A licença de uso da TerraLib é portanto do tipo “open source” (licença GNU, de uso livre) e o softer está disponível no site www.terralib.org. 114

A opção por um software livre e por uma biblioteca de funcionalidades representou não somente a possibilidade de desenvolvimento de aplicativos específicos em GIS, mas pressupunha que grupos de TI de empresas e no serviço público procurariam desenvolver soluções criativas com seu uso. Em alguns governos estaduais e municipais, como o do Rio Grande do Sul e a cidade de Recife, os softwares livres vêm ganhando a preferência por uma série de vantagens, uma delas é a diminuição no custo de manutenção e atualização.

A primeira versão da Terralib foi liberada em 2002, para sistemas operacionais Windows e Linux, comportando diversas alternativas de programação e ambientes gráficos. Em novembro de 2009, foram registrados mais de 8,3 mil cadastros de usuários da TerraLib (Tabela 3). Várias aplicações desenvolvidas a partir da tecnologia TerraLib estão operacionais, como o TerraView, desenvolvido pelo próprio INPE, inicialmente criado como um protótipo de um visualizador e disseminador de dados geográficos, mas que acabou se consolidando como um SIG, já utilizado para gerar o Banco de Dados da Amazônia LEGAL, sob a responsabilidade do Ministério do Meio Ambiente. Também está sendo utilizado no Programa de Assistência aos Cortiços de São Paulo, pela Fundação SEADE, como Banco de

113 O artigo “CÂMARA, G; FONSECA, FREDERICO. Information Policies and Open Source Sofware in Developing Countries. Journal of The American Society for Information Science and Technology, v. 58, n 1, p 121-132, 2007” apresenta os motivos que levaram o grupo a desenvolver a TerraLib como um open source 114 O crescimento contínuo dos downloads do SPRING fez com que a DPI tomasse a decisão de desenvolve-lo também com código fonte aberto, o que ainda está em curso.

Dados dos Setores Censitários de São Paulo, pelo Centro de Estudos da Metrópole (CEM), entre outros aplicativos. O número de usuários cadastrados do TerraView vem crescendo gradativamente desde 2006, totalizando quase 24 mil usuários em novembro de 2009, enquanto o número de downloads é de quase 43 mil (Tabela 4).

A Fundação de Ciência Aplicações e Tecnologia Espaciais (FUNCATE) está aplicando a TerraLib no desenvolvimento de aplicativos orientados para a Gestão Municipal, como o Sistema de Informação Geográfico Municipal (SIGMUN), implantado nas cidades de São Sebastião, Caraguatatuba, São José dos Campos, São Bernardo do Campo, Santos e Mirasol (SP), Cachoeiro de Itapemirim, Vitória (ES) e em trinta municípios do Estado da Bahia.

O TECGRAF, laboratório de Computação Gráfica associado à PUC-RIO, que participou do desenvolvimento do núcleo da TerraLib, desenvolve aplicativos para a indústria petrolífera, em projetos para a Petrobrás. Seu principal produto é o InfoPAE, sistema de planos de ação de emergência, para refinarias e oleodutos. Com o LESTE, Laboratório de Estatística Espacial da UFMG, a DPI desenvolveu aplicações para a área de segurança pública, contando ainda com o apoio financeiro do Ministério da Justiça. Fruto desta parceria foi o TerraCrime, que visa a análise dos dados da criminalidade.

A FIOCRUZ, em conjunto com o INPE, LESTE/UFMG e Universidade Federal do Paraná (UFPR), está concebendo e desenvolvendo um sistema de vigilância epidemiológica baseado na TerraLib, com recursos do CT-INFO.

Em termos de retorno de investimento, considerando apenas as aplicações de cadastro urbano desenvolvidas pela FUNCATE, a DPI faz um balanço favorável. O investimento direto feito pelo INPE foi de US$ 1 milhão em três anos. Como o custo de uma solução proprietária, um software de mercado, equivale a US$ 100 mil, preço de mercado, a economia de recursos públicos com a instalação do SIGMUN em 40 cidades teria sido de US$ 4 milhões.

Tabela 3 – Número de Usuários cadastrados do TerraLib e TerraView

2004 2005 2006 2007 2008 Nov/2009 Total

Terra Lib 142 1541 1795 1902 1589 1335 8304

TerraView 51 3517 4619 4561 5265 5760 23773

Tabela 4 – Número de downloads do TerraLib e TerraView

2004 2005 2006 2007 2008 Nov/2009 Total

Terra Lib 0 7944 9747 8935 9195 6552 42373

TerraView 0 0 7636 9726 12591 13042 42995

Fonte: DPI/INPE – novembro de 2009

A TerraLib tem, portanto, gerado uma série de sub-produtos de GIS. Sua estrutura de pessoal no INPE é enxuta, com cerca de seis pesquisadores, mas uma empresa contratada pelo INPE faz o suporte ao usuário e manutenção do softerware. Ao contrário do SPRING, conta com pouco material de suporte ao usuário. Por outro lado, o TerraView, criado sem nenhuma pretensão, inicialmente para testar as potencialidades da TerraLib, vem se tornando um GIS bastante utilizado em aplicações, por exemplo, de análise de uso e ocupação do solo.