A compreensão dos meios de comunicação como elementos im- portantes das ações políticas foi fortalecida durante a resistência popular à Ditadura Militar (1964-1985). Várias publicações foram editadas; rádios populares, produzidas. Por meio de boletins e jornais das Comunidades Eclesiais de Base, da Comissão Pastoral da Terra e de outras organiza- ções, a imprensa chegou ao campo. Um desses periódicos era o Sem Terra
COMUNICAÇÃO DA TERRA: vivências e práticas comunicacionais do MST no Brasil 53 – Boletim Informativo da Campanha de Solidariedade aos Agricultores Sem Terra, órgão de comunicação do que viria a ser o MST. Em 1984,
ano da fundação do movimento, o boletim foi transformado no Jornal
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (JST), periódico considerado “[...]
base da organização da comunicação do MST”, de acordo com o coorde- nador do Setor de Comunicação do MST, Miguel Stédile.4
Como vemos, o desenvolvimento de meios de comunicação pró- prios acompanha o movimento desde seu nascedouro. Contudo, é a partir de meados da década de 90, quando o MST foi alçado a sujeito político nacional (COMPARATO, 2001), que essa prática ganhou destaque. As re- lações sociais, então, passaram a ser ainda mais marcadas pela mediação dos meios de comunicação e, consequentemente, pela transformação da pauta de interesses, a configuração de uma cultura política centrada no consumo de imagens, a organização dos discursos de acordo com a gra- mática dos meios e a realização de ações voltadas aos meios de comu- nicação, o que verificamos também ao analisar o 5o
Congresso do MST.
De sua parte, o Movimento Sem Terra percebeu o lugar da co- municação e buscou se organizar, constituindo, para isso, o Setor de Comunicação. A partir do Setorial, foram suscitados debates sobre a mídia, culminando nos seguintes posicionamentos políticos: a compre- ensão da comunicação como estratégia política, elemento organizado, mobilizador e capaz de conferir unidade ideológica; a contraposição à mídia hegemônica e, por outro lado, a valorização e estímulo à pro- dução por parte dos trabalhadores.5
Entre a década de 90 e os anos 2000, os desafios para os movi- mentos e demais organizações localizadas à esquerda do espectro po- lítico ganharam novos contornos. O triunfo do neoliberalismo, forma capitalista que operou grande desregulamentação, inclusive no setor das comunicações, além de profunda reestruturação produtiva, modificou
4 STÉDILE, M. 2010. Entrevista concedida à autora.
5 Analisamos as discussões do MST sobre comunicação, a partir de documentos do movi-
mento, no texto: “Das ideias que se fazem gestos: sensibilização, formação e produção de novas ações comunicativas”, de Helena do R. Barreto e Márcia Nunes Vidal. O trabalho foi apresentado ao XX Encontro da Compós, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2011. Disponível em: <http://compos.org.br>.
formas e postos de trabalho. Conforme Chico de Oliveira (2006, p. 38), tal fato gerou uma mudança na população: “Há uma internalização da reestruturação produtiva que produz uma nova subjetividade, inculcando os valores da competição, colocando situações objetivas nos processos de trabalho que corroem a percepção de classe virtualmente proporcio- nada pelo precário fordismo periférico”.
No Brasil, em 2002, contraditoriamente, deu-se a chegada de Lula, um líder operário, fundador do Partido dos Trabalhadores, à Presidência da República. O fato ocorreu quando “[...] sua classe mer- gulha numa avassaladora desorganização” (OLIVEIRA, 2006, p. 37). A ascensão do PT ao governo trouxe contradições não apenas ao inte- rior do próprio partido, mas também aos movimentos sociais, dentre os quais o MST. Além da delicada relação entre movimentos e Estado, materializada, por exemplo, na participação de lideranças populares em cargos do governo, outro fator deve ser agregado à análise da ação do Movimento Sem Terra frente à tal conjuntura: o destaque adquirido pelo agronegócio na nova arquitetura do poder no país.
As políticas públicas voltadas ao campo revelam as opções feitas pelo Governo Federal. Desde o início do governo Lula, aliás, vieram à tona dificuldades para a realização da Reforma Agrária. O geógrafo e professor da Universidade de São Paulo, Ariovaldo Umbelino de Oliveira, no texto “Não Reforma Agrária e Contra Reforma Agrária no Brasil do governo LULA” (2011), elenca cinco questões que logo levaram ao desenvolvimento do que considera uma “contrarreforma agrária” durante o primeiro e segundo mandatos petistas: 1. a derrota, no interior do governo, da concepção de reforma agrária como desen- volvimento para a de reforma agrária como política social compensa- tória; 2. a saída dos movimentos socioterritoriais da equipe que ela- borou o II Plano Nacional de Reforma Agrária, desde o início de sua formulação, e o favorecimento de setores ligados ao sindicalismo rural; 3. a derrota da meta de um milhão de famílias assentadas; 4. o sucatea- mento do Incra, a falta de funcionários e de recursos do instituto, bem como o crescimento da grilagem de terras na Amazônia e a estratégia de compra da terra nas regiões Sul e Sudeste; 5. o apoio, considerado por ele integral, do governo ao agronegócio.
COMUNICAÇÃO DA TERRA: vivências e práticas comunicacionais do MST no Brasil 55
Paralelo a isso, houve o crescimento da participação do setor do agronegócio na economia brasileira, chegando a ser responsável, em média, por um terço do Produto Interno Bruto (PIB) do país, de acordo com dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Universidade de São Paulo,6 cujo estudo destaca o fato de o setor mo-
vimentar diversas fases da cadeia produtiva, dos insumos à distribuição dos produtos; da agropecuária à indústria. Até mesmo o então Ministro da Agricultura no primeiro mandato de Lula, Roberto Rodrigues, era ligado ao agronegócio, tendo sido presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), da Sociedade Rural Brasileira (SRB) e da Associação Brasileira de Agribusiness (Abag). Hoje é um dos en- tusiastas do “Movimento Sou Agro”, lançado em 2011.7 Já a “bancada
ruralista” no Congresso Nacional, na legislatura de 2007-2010, durante a qual ocorreu o encontro que analisamos, possuía 117 representantes do setor empresarial rural.8
O 5o
Congresso do MST apontou como principal oponente do mo-
vimento exatamente o setor do agronegócio. No decorrer do encontro, também foi propagado o novo “Programa Agrário do Movimento Sem Terra”, documento que trouxe análise das mudanças que atingiram o campo nos anos que antecederam o encontro, como a ampliação da in- serção das empresas multinacionais e do capital financeiro. Levando em conta esse cenário em sua reflexão sobre a ação do MST, Egas (2008, p. 154) conclui “[...] que a luta para derrotar o agronegócio não é apenas a luta pela terra e reforma agrária, mas se insere na perspectiva da luta por soberania, seja ela econômica, alimentar ou territorial. Assim, o combate ao agronegócio seria, em última análise, parte do enfrentamento ao pró- prio modelo hegemônico”, avaliação com a qual concordamos.
6 Números da participação do agronegócio no PIB brasileiro, entre os anos de 1994 e 2010,
estão disponíveis em: <http://www.cepea.esalq.usp.br/pib/>. Acesso: 15 fev. 2012.
7 Trecho da apresentação do “Movimento Sou Agro”. Disponível em: <http://souagro.
com.br/sou-agro/movimento>. Acesso: 15 fev. 2012.
8 Dados do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar: <http://www.diap.org.
br/index.php/eleicoes-2010/bancadas-suprapartidarias/ruralista>. Acesso: 15 fev. 2012. A força dessa bancada foi fundamental para a instalação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investigou o repasse de verbas federais para o MST.
Como este trabalho detém-se na disputa de hegemonia, pensada desde o campo da comunicação, voltamos nossa atenção para a batalha de ideias necessária à concretização das mudanças propostas. Buscando ir além da análise dos veículos, localizamos a comunicação como com- ponente de uma construção social que perpassa o aspecto ideológico, a luta pela construção de novas categorias e significados, e que objetiva provocar deslocamentos na correlação de forças.