Figura 4 – Texto Editorial
O “Editorial” do Folha 2, publicado na primeira página ou na capa do jornal, foi produzido
pelas seguintes alunas do 2º ano C do ensino médio: Eva Almeida Martins e Maria Luíza Barbosa Gonçalves.
Este editorial deveria focalizar, comentar e analisar um dos acontecimentos históricos mais marcantes da Escola em sua festa de 40 anos - a criação do jornal Folha Conexão Santa Clara - o que implica o mundo social e sua história e cultura. Para isso, as autoras deveriam trazer a opinião dos editores do Folha sobre a criação desse suporte. Assim se ouviria a voz dos editores pelas vozes das alunas Martins e Gonçalves, cuja tarefa seria persuadir os leitores a pressionarem os poderes públicos; nesse caso, a direção da Escola, a manter o jornal em funcionamento como projeto institucional. Para isso, trabalhariam seguindo os padrões do gênero, de estrutura predominantemente argumentativa e funcional persuasiva, apresentando ideias, justificativas, sustentações, negociações e conclusão.
Mas, uma primeira visada no editorial do Folha 2 já justifica o descrédito com que o texto pode ser visto. De início, apresenta uma sequência de falhas: não tem título que o encabece, que o anuncie, que o abra para o leitor; no lugar deste surge a imprópria indicação do gênero. As autoras garantem a impessoalidade da linguagem objetiva, mas a condensalidade (delimitação do tema e redução de argumentos) é desrespeitada.
Quanto à infraestrutura geral, segundo Bronckart (2012 [1999]), textos como o editorial pertencem ao mundo do expor autônomo e do discurso teórico. Neste editorial, a descrição dá sustentação à sequência argumentativa, representativa da função social que o editorial precisa assumir, ou seja, convencer e persuadir.
Com relação aos mecanismos de textualização, verifica-se que os quatro parágrafos do texto organizam-se sem conexão marcada por elementos linguísticos, mesmo assim, a progressão temática e a coerência se dão a partir da organização textual fundada em duas teses, em que a primeira domina e engloba a segunda.
A coesão nominal é garantida pelo trabalho de pronominalização, e a coesão verbal, pela predominância dos verbos no presente do indicativo com uso discreto do pretérito perfeito.
Dentre as dificuldades deste editorial, há que se considerarem alguns desvios da norma padrão da língua: (i) um dos itens do substantivo próprio “Folha conexão Santa Clara” em minúscula; (ii) a ausência de vírgulas para separar termos coordenados (adjuntos adverbiais) em: “[...]
Rocha iniciada em 16 de junho com o lançamento do Jornal Folha Conexão Santa Clara, teve
[...]” e 4. O uso indevido do acento indicativo de crase antes do pronome indefinido “toda” em “[...] apresentar a história deste Educandário à toda comunidade escolar.”.
Nos primeiros períodos - do primeiro parágrafo, de mais de quinze linhas, aspecto que depõe contra a plasticidade e dinamicidade do texto -, após breve contextualização, as autoras focalizam o tema e deixam parcialmente implícita a primeira tese que afirma sobre o lançamento do Folha “E deu certo!”, dita em outras palavras, a tese seria “O Folha deu
certo!”. Com essa tese, assumem o ponto de vista que defendem, ao apresentarem um juízo de
valor.
Sem mudarem de parágrafo, entram na fase da argumentação, apresentando um argumento
com um único suporte ou explicação “O empreendimento foi bem-sucedido ao garantir o contato dos alunos com o texto jornalístico”. Explicações sobre o jornal, comentários ou
análise das mudanças trazidas pelo suporte que poderiam ser apresentadas com argumentos e justificativas não o foram, por isso a expectativa do leitor é quebrada: o tema focalizado inicialmente parece desaparecer do texto.
As autoras focalizam outro tema - “a apresentação dos eventos e participações na festa dos 40
anos da Escola” -, como se houvessem esquecido o tema base do editorial. A quantidade de
texto com que dão prosseguimento a este novo assunto é pelo menos duas vezes maior que a do tema inicial. Nesse ponto, o discurso argumentativo é substituído pelo discurso descritivo, cuja maior qualidade é induzir o leitor à composição de uma grande tela em que se veem eventos da festa dos quarenta 40 anos da Escola.
O primeiro parágrafo se encerra, trazendo o objetivo da festa “apresentar a história deste
Educandário à toda comunidade escolar”.
A comemoração dos 40 anos da E. E. Dr. Waldemar Neves da Rocha iniciada em 16 de junho com o lançamento do Jornal Folha Conexão Santa Clara, teve culminância no dia 30 de setembro. O Jornal Folha conexão Santa Clara, nasceu de uma parceria oferecida pelo SESC-TO à E. E. Dr Waldemar Neves da Rocha. E deu certo! O empreendimento foi bem-sucedido ao garantir o contato dos alunos com o texto jornalístico. A abertura do evento de comemoração contou com a execução do Hino Nacional Brasileiro pela Banda de Música do 19° Batalhão da PM; e, posteriormente, o Hino da Escola Estadual Dr. Waldemar Neves da Rocha foi cantado pela comunidade. A vice-diretora, Jacqueline Guimarães Gonçalves fez uma oração de ação de graças pelo aniversário da Escola. A diretora Vilma Leão da Silva abriu os trabalhos daquela tarde. A cerimônia contou com a presença de cidadão ilustres como autoridades políticas, militares, ex-alunos, ex-professores, ex-
diretores, ex-funcionários. Familiares do Dr. Waldemar prestigiaram a festa que teve por objetivo apresentar a história deste Educandário à toda comunidade escolar.
O segundo parágrafo abre-se com a segunda tese “Esse evento foi um momento excepcional
de trabalho e de força desta Escola”, em que também se vê expresso um juízo de valor, que
obriga as autoras às justificativas subsequentes.
Esse evento foi um momento excepcional de trabalho e de força desta Escola. As atividades desenvolvidas por alunos e professores contaram com diversas apresentações culturais, visando levar conhecimento e entretenimento à comunidade.
O último parágrafo retoma a tese inicial, criando, com o discurso descritivo, uma nova tela, a da festa ainda, mas agora, em que surgem os alunos atuando ativamente como jornalistas. Assim, mostrar a utilidade do jornal é a técnica persuasiva utilizada pelas redatoras Martins e Gonçalves. Para elas, discutir a utilidade do projeto, não pode ser mais importante do que mostrá-lo em seu processo de execução, transformá-lo em imagem. A nova tela parece ter o objetivo de mostrar como o jornal mobiliza os alunos à realização de trabalhos importantes como a cobertura total de um evento, relativamente grande, em que esses alunos são apresentados como aqueles que têm a tarefa e o compromisso de apresentarem aquele evento, na segunda edição do Folha Conexão Santa Clara.
Os alunos do ensino médio, vespertino, foram a campo registrar os acontecimentos em fotos, artigos, notas e entrevistas à direção, aos professores que mais dominam o contexto histórico dessa comunidade escolar. Registraram homenagens, história, arte, literatura, crenças, princípios que são a filosofia viva desta Escola. Tudo isso para compor esta segunda edição. A edição: Aniversário do Waldemar.
Talvez agora seja importante ouvir Beltrão (1980): “Um jornal sem voz nem voto é como um
homem sem juízo. Jornalismo que não se sente capaz ou não pode dar orientação nem formular critérios é um jornalismo sem uso da razão”. Tal afirmação, neste ponto da análise, leva-nos a reforçar que este editorial, à sua maneira, está intrinsecamente relacionado a um tempo, a um espaço e a um público que valoriza imagens e por isso pode ser considerado um evento de comunicação dinâmico e uma realidade histórica.
O Folha número 2 é mais próximo do que se espera de um jornal dos alunos da escola. Embora os textos dos profissionais da Escola ocupem grandes espaços em suas páginas, os alunos têm um espaço para a sua mídia, o que os motiva. Mas as reportagens, por exemplo, ainda são produto de transcrições de vozes de autoridades, sem que haja crítica a essas vozes e, por isso, não parecem representar os autores. As entrevistas são menos tímidas, mais
criativas, vibrantes e inteligentes. Textos mais densos, como o editorial e o artigo de opinião, permitem entrever escolhas, autoria e interação.
A maioria dos outros textos são relatos muito curtos, um tanto repetitivos e, às vezes, incompletos. Isso pode parecer um ponto muito negativo, mas não para nós que vemos esses textos como parte de um processo de conquista de espaço e de autoria, como uma oportunidade para os alunos, como a “chance de dizer, mostrar, conhecer, divertir, ou seja, lá
o que for, outra atividade a que possa atribuir um valor e um empenho pessoal”. (PÉCORA,
1980, p. 69)
Nesse número, a realidade sócio-histórica parece muito mais próxima, o leitor se sente dentro dos muros da Escola, vendo-a, sentindo a filosofia, o processo educacional, é isso que os redatores têm a dizer. As outras produções dos alunos, excluindo-se o editorial e o artigo de opinião estão ainda muito centradas no autor que não tem muita noção do processo de interação de que participa - é o que deixam transparecer os textos -, mas o leitor é capturado por esse espaço alegre e festivo que é o Folha 2, um espaço de muito maior liberdade que o Folha 1, de muito maior responsabilidade e autonomia dos alunos, como se leu no editorial.