Até aqui percebemos que, quando o MST propõe uma organização coletiva a partir de interesses comuns, como no caso do acampamento, observamos que há pontos importantes quanto à prática de uma vivência emancipadora: vimos emergir possibilidades de construção de uma autonomia social, política e econômica, como a tentativa de estruturar um assentamento ‘diferente’, a mobilização dos moradores por espaços para o teatro, a música e, principalmente, por escolas, através de roçadas, caminhadas e outras formas de protesto. Contudo, questionamo-nos se as conquistas obtidas 12 anos após a ocupação da área e posterior assentamento, gerou alguma alteração na sua situação econômica, social e política.
Quando, a partir de 1997, são distribuídos os lotes às famílias, ocorre um processo de dispersão e a estrutura organizacional perde a força característica do processo de ocupação e acampamento. Esse fato é importante para compreendermos dois momentos: primeiro, um período em que o MST se estabelece como articulador das mediações entre indivíduos e coletividade que se reúnem a partir de necessidades coletivas; depois, com o objetivo concretizado, que é a posse da terra, vem, em conseqüência, a dispersão das famílias e as relações coletivas são então diluídas, ou pelo menos não ocorrem com tanta expressividade como no período de acampamento.
“As pessoas no acampamento, antes dali não têm aquela convivência, consciência política do coletivo. O pessoal ta ansioso pra pegar seu pedaço de terra e desenvolver suas atividades já tradicional. A gente no assentamento fez bastante reunião, discutiu, insistiu, mas a maioria depois que pegou seu pedacinho de terra começa a cruzar os braços e daí o assentamento muito grande e foi perdendo um pouco daquele controle” (Entrevistado A. 12/04/2007).
“[...] com a construção do assentamento, ocorre, por vezes, o fortalecimento das experiências de lutas e situações vividas no acampamento, e por vezes, é algo diverso do que existiu no acampamento. Porém, o que há em comum nas duas situações, seja qual for a direção tomada em termos de identificação, é o fato de que a conquista do assentamento é uma condição necessária à incorporação do território na luta; o assentamento é uma marca e um reflexo na disputa pela conquista da terra, e muitas vezes, é um batizado com lágrimas de sangue” (COSTA, 2002, p. 113).
Para Schereiner (2002, p. 174), o processo de ocupação e acampamento reúne pessoas a partir do objetivo comum que é a terra, isso alcançado, os assentados procuram reproduzir o modo já conhecido de reprodução social pautada na apropriação
individual, pois segundo o autor, a posse particular da terra é uma forma de proteger sua conquista e não arriscá-la em iniciativas em que não se tem controle da situação mas que precisam partilhar de suas decisões.
Fabrini (2002, p. 209), coloca que a dificuldade de se manter a organização no assentamento decorre das diferenças sócio históricas dos sujeitos e aponta tal situação especificamente nos assentamentos Ireno Alves dos Santos e Marcos Freire também por nós abordados. Em seu trabalho, Fabrini (2002) afirma que “a diversidade de trajetória de vida existente nos Assentamentos Marcos Freire e Ireno Alves, é apontada por parte dos assentados como a principal causa da dificuldade de realização de um trabalho coletivo”. O autor explicita que um estudo realizado pelo INCRA, logo após a ocupação que originou esses assentamentos, indicava que 43,3% das famílias acampadas eram de bóias–frias, 11,3% trabalhadores urbanos, 8,6% desempregados urbanos, 9,0% arrendatários, 6,7% mão de obra familiar, 4,2% meeiros, 2,8% empregados rurais permanentes, 1,4% desempregados rurais, 1,0% proprietários, 0,2% posseiros e 6,6% não especificaram. (FABRINI, 2002, p. 213).
Também, em nossa pesquisa um dos entrevistados que foi, na época de formação do acampamento, responsável pela organização das famílias cita que, no início do assentamento realizou-se um levantamento segundo o qual as famílias vinham de 62 Municípios, havia 16 religiões entre eles, além da diversidade de costumes e concepções.
Ainda, quanto à dificuldade de se manter a estrutura organizacional no assentamento, nossa pesquisa aponta a questão da troca de lotes entre assentados de uma mesma região ou regiões vizinhas sendo que, atualmente, de acordo com relatos, cerca de 40% das famílias que residem no assentamento já não são aquelas que o originaram.
“Nosso trabalho dificulta porque o pessoal começa a vender a terra daí entra outras pessoa que são ate da lavora, mas que não conhecia nada da luta, não participo, não sabe como que foi a luta então daí dificulta porque daí eles, assim, ah, mas eu não tenho nada com isso. Muitas vez eles tão no assentamento mas como não tem a trajetória não quer ser sem terra [...] tem bastante, olha eu acho que já tem uns 40% que são comprador” (Entrevistado J. em 12-09-2007).
Questionado sobre isso, um dos entrevistados dirigente do MST no assentamento coloca que
“Está sendo muito difícil uma organização aqui, porque antes quando a gente tinha os grupos de famílias, antes das Associações Comunitárias, a gente trabalhava super bem com os assentados de origem, depois daí começou essas permuta de lote e venda e começou vir pessoas de outras regiões e simplesmente chega ali e ele não tem o histórico, não conhece, não tem o sofrimento, não passou pela lona preta, então é muito difícil explica [...] não conhece a organização, aquela origem” (Entrevistado A. em 13-04-2007).
Quanto às tentativas de soluções efetivadas pelo Movimento a esse respeito, o entrevistado ressalta também o papel da escola: “a gente tenta mostrar, trabalhar, mas eu acho que é fazendo um trabalho de base nas próprias escolas, fazer debates e a gente tem tentado fazer isso [...] pelo menos acho que tem que começar trabalhar a educação nas escolas com os filhos desses assentados” (Entrevistado B. em 13-04-2007).
Apesar das dificuldades apontadas, citando em seu trabalho a organização do Assentamento Ireno Alves e Marcos Freire, Fabrini (2002, p. 210-1) coloca que:
“Todas as discussões feitas no sentido de organização dos assentados, inclusive aquelas feitas para implementar uma produção coletiva, ficaram comprometidas com a fragmentação dos grupos e divisão dos assentados [...] Ireno Alves e Marcos Freire verifica-se que os Grupos de Assentados remanescestes do acampamento continuam existindo independente dos problemas da Coagri. São nestes Assentamentos que a organização em grupos estão mais presentes e consolidados. A partir destes grupos organizam-se diferentes subgrupos ou núcleos de produção com vínculos variados a comunidade externa, ou seja, aqueles mais próximos ao MST/Coagri ou de grãos (INCRA / Emater) e poder local municipal. Os grupos nos Assentamentos Ireno Alves e Marcos Freire são originários dos grupos do acampamento e foram transferidos para o Assentamento. Como não foram assentadas todas as famílias acampadas os grupos foram parcialmente fragmentados formando os 56 grupos de assentados. [...] os Assentamentos Ireno Alves e Marcos Freire, no Município de Rio Bonito do Iguaçu, são exemplos na formação de grupos de Assentados. Praticamente toda organização dos Assentamentos referidos é feita a partir desses grupos”.
Os grupos remanescentes da época do acampamento transformaram-se em Associações de Moradores. Assim, as famílias que compõem a área do Assentamento Ireno Alves dos Santos dividem-se em dezesseis Associações Comunitárias de Moradores que, juntas, formam a CACIA – Central de Associações do Assentamento Ireno Alves dos Santos e, aquelas famílias residentes assentadas na área denominada Assentamento Marcos Freire, dividem-se em onze Associações de Moradores que juntas formam a ACAMF – Associação Central do Assentamento Marcos Freire.
É através da organização de grupos que o MST tenta mobilizar os Assentamentos. Num grupo de assentados podem existir núcleos de produção ou Associações e podem existir, num assentamento, vários grupos e núcleos de produção.
“Este é o caso do Assentamento Ireno Alves dos Santos que possui 41 grupos, formando 1 ou mais núcleos de produção em cada grupo [...] os grupos de assentados e núcleos de produção são uma referência para aglutinação de assentados para possíveis mobilizações ou desenvolvimento de atividades de produção agrícola. O objetivo da formação de núcleos, entre outros, foi o da organização dos assentados para estabelecer uma relação orgânica entre o MST que mediados pela COAGRI centralizou atenção na dimensão produtiva, ou seja, a compreensão foi de que a organização da produção na forma de núcleos permitiria a organização dos
assentados em outras dimensões. Embora os núcleos fossem organizados pela COAGRI para viabilizar a produção, eles se destacaram mais nas atividades de militância, mobilizações e luta [...] os assentados organizados nos núcleos vão construindo formas de participação política mesmo num contexto adverso” (FABRINI, 2002, p. 204-5).
Fabrini (2002), em seu trabalho, expõe que apesar de existir uma determinada organização entre os assentados, a
“[...]unidade existente entre as famílias dos núcleos não tem sido mediada pela produção agrícola necessariamente, mais pela identidade e afinidades políticas construídas no processo de luta.O núcleo não é um espaço de produção agrícola apenas, mas espaço de socialização constituído pelas afinidades políticas que oferece resistência á subordinação capitalista. Não é a produção, mas a identidade política e social construída na trajetória de lutas dos assentados que forma a coesão nos núcleos e grupos” (FABRINI, 2002, p. 204-5).
“[...] nos Assentamentos Ireno Alves e Marcos Freire não existe nenhuma iniciativa de coletivização da terra, do trabalho, ferramentas / instrumentos e gestão que tenha expressão política e econômica, embora, esses assentamentos se constituíssem num grande potencial para ampliação das lutas do MST [...] as atividades dos núcleos e grupos que mais se destacam são aquelas de repasse de informação de mobilização como protestos e planejamento, discussões de atividades desenvolvidas em cada lote pelas famílias assentadas [...] essas atividades viabilizam a resistência no assentamento” (Fabrini, 2002, p. 205- 10).
Nesse âmbito, nossa pesquisa também demonstrou que os assentados mobilizam-se motivados por questões políticas estratégicas e não em termos de produção.
“[...] a gente vai fica uma semana até fora é seminário, explicação mas daí dentro do assentamento quando a gente tenta passa pra eles não adianta, dão risada da gente, cassoam a da gente, fazem critica [...] a gente fala pra não passa o veneno e tem gente que até fica bravo, a gente fala da água, das nascente, de faze reflorestamento eles não querem sabe de nada disso [...] tem pessoal que vem ate compra alface no mercado [...] não tem jeito, não querem sabe de nada, não querem trabalha junto [...] não querem nem os técnico dentro do assentamento [...] teve semana que tinha dois até três dando apoio lá mas tinha gente que não queria técnico na casa dele no terreno dele de jeito nenhum” (Entrevistado J. em 12-09-2007).
Aqui, para o autor, apesar de não haver um processo de produção coletivizado, mesmo assim essa organização é instrumento de resistência social e política, pela conscientização desse grupo obtido no processo de ocupação e acampamento.
Conforme mencionamos anteriormente, atualmente existe no Assentamento Ireno Alves dos Santos a CACIA - Central das Associações de Comunidade do Ireno Alves dos Santos, formada a partir de 16 comunidades que já existiam e foram reestruturadas após a desmobilização na Vila Velha e, no Assentamento Marcos Freire, há a ACAMF - Associação Central do Assentamento Marcos Freire, estruturada da mesma forma, a partir de onze comunidades. Então, cada comunidade possui seus representantes e tem sua própria associação comunitária. A CACIA e a ACAMF representam as Associações Comunitárias menores e são geridas por 4 representantes de cada uma dessas comunidades. ‘Esse representante da comunidade, ele é eleito pela comunidade e daí ele tem a tarefa de compor esse núcleo central que formaliza a Central das Associações [...] a eleição que define os representantes da Central é feita a cada dois anos, quem tem direito a votar e ser votado é os membros dessas comunidades que representam, num processo democrático, aberto, todo mundo tem direito a votar e ser votado’ (Entrevistado E. em 12-04-2007).
A pesquisa apontou que apesar das dificuldades há uma tentativa do MST através de seus dirigentes/coordenadores, também assentados, de reestruturar o assentamento de acordo com a proposta organizativa do Movimento.
“Então agora estamos tentando reorganizar novamente fazendo toda a discussão política junto com o MST [...] nós tentamos seguir todos os passos do MST [...] o MST tem se envolvido tem trabalhado em todos os setores do Assentamento e a gente tem procurado trazer a linha do MST pra dentro do Assentamento” (Entrevistado A. em 13-04-2007).
“[...] a maioria são associados das cooperativas tradicionais [...] então o pessoal é livre [...] mas tem grupos que trabalham com o orgânico [...] algumas coisas a gente ta tentando, a gente tenta trabalhar de outro jeito mas ainda é muito disperso” (Entrevistado E. em 12-04-2007).
Referente às formas de trabalho, os entrevistados colocam, assim como percebemos no trabalho de (Fabrini, 2002) que, atualmente, as famílias são livres para escolher sua atividade e comercialização da produção, dessa forma os produtores são associados no sindicato rural municipal, em cooperativas da região ou na própria secretaria municipal de agricultura com a finalidade de obter créditos para a produção.
Nessa tentativa de reorganização do assentamento, a pesquisa apontou que há uma equipe técnica juntamente com a Coordenação do Movimento que vem desenvolvendo trabalhos desde 2005, que visam a diversificação da produção na propriedade e organização dos produtores com Núcleos de Base e Setores de Produção Social e
Econômica, com trabalhos voltados para agroecologia como Reflorestamento, Preservação de nascentes, Controle Alternativos para pragas e doenças na área vegetal e animal, adubação alternativa e introdução de novas pastagens e sementes, além de iniciativas com produção orgânica em hortas comunitárias.
Quando questionados a respeito da efetivação de um trabalho coletivo no assentamento, os entrevistados, dirigentes do MST no assentamento ressaltam que é um longo processo e que precisa formar a consciência das famílias:
“[...] eu acredito que se nós conseguisse trabalhar a consciência assim de manter a organização, como em sistemas de comunidade e buscar parcerias em conjunto, facilita um monte [...] é um processo lento e que tem que formar a consciência primeiro que isso é importante [...] vai demora um certo tempo ainda pra voltar. Existe assim um trabalho organizativo em algumas comunidades, alguns exemplos que a gente tentou trazer de hortas comunitárias tentou trazer equipamento [...] é um trabalho ainda pra ser criado [...] aqui nós discutimos mas até agora nada” (Entrevistado E. em 12-04-2007).
Nesse processo de discussão e reformulação da organização do assentamento, um dos entrevistados ressalta a importância que terá a questão da implantação de um núcleo educacional na Vila Velha, conforme mencionamos anteriormente, em que a idéia é a construção de um colégio agrícola baseado na proposta educativa do MST: ‘pra nós agora está sendo um grande avanço a questão da Universidade na Vila Velha onde vamos estar discutindo a questão do Movimento Sem Terra [....] a questão da educação voltada aos interesses do assentamento e da região toda’ (Entrevistado B. em 13-04-2007).
Contudo, apontamos a idéia de um terceiro assentado também dirigente do Movimento no assentamento que, segundo ele, essa reestruturação a partir de princípios organizacionais do MST será a longo prazo, uma vez que muitos assentados não se identificam com o MST e ressalta a importância de uma liderança:
“[...] os pessoal que compraram os lotes, eles dizem que se não fosse o MST não tava ali o coitado, só que só apóia assim e na hora que precisam não vão não participam, só que agora daí melhoro um pouquinho, porque o MST dentro do assentamento ele ta bem fraco [...] sempre tem que ter um líder, senão não tem jeito” (Entrevistado J. em 12-09-2007).