O agente discriminador nos processos de seleção, ora é a área de recursos humanos, ora o gestor ou dono da empresa. Os trechos a seguir são relacionados a esta sub categoria:
(...) Na minha opinião quem barra mais é o RH... Porque o RH vende o candidato pro gestor (R1).
(...) o consultor me falou claramente: ‒ “Ah, não dá! Essa vaga é para alguém com até 35 anos!”. Eu questionei: ‒ “35?”. E ele disse que nem adiantava, que o cliente dele não ia querer nem ver (R2).
(...) Ah, por que as contratações sempre tinham que passar pela mulher do dono. Eu às vezes separava um currículo para ela ver e ela dizia: “Ah, não! Esse já tem mais de 40 anos! Não serve!” (R3).
(...) Já me falaram duas vezes que o processo é para profissionais até 40 anos... Nem sei se pode falar um negócio desses, mas já me falaram.. e foram duas pessoas diferentes.. um era consultor de uma empresa grande até, que faz vaga gerencial de monte por aí. E a outra foi um colega que soube de uma vaga numa empresa de tecnologia, mas ele disse que lá o CEO tem menos de 40! (R4).
(...) Um colega meu disse que na empresa dele tinha uma vaga de Consultor. Uma empresa pequena, familiar. Só que lá o dono queria alguém mais novo, na faixa dos trinta e poucos, trinta e cinco, estourando! Não teve jeito, ele levou meu currículo, mas o cara não quis nem ver! (R5).
A entrevista de seleção, por não seguir um padrão definido, traz às vezes componentes que não parecem lógicos a quem se submete a ela. Alguns relatos mostram que a entrevista resvala para assuntos mais íntimos, que não são pertinentes num contexto profissional, levantando dúvidas sobre até que ponto esta estratégia não seria proposital para eliminação de um candidato, como é o caso da situação relatada por R10:
(...) A sua idade... se você tem carro, se mora perto, se é casada (...). Toda vez que eu falo que sou divorciada tenho que ficar explicando! (...). Teve uma entrevista que eu fiquei meia hora explicando porque o meu casamento não deu certo. Saí de lá meio mal, sabe? (...) não tem a ver com a minha competência! Acho estranho. Fiquei pensando depois, naquela entrevista quase não falei da minha experiência. Com que critério a pessoa me reprovou? (R18).
O peso da idade se revela neste momento, especialmente quando o selecionador pergunta por isso e encerra a entrevista, sem maiores explicações. Em boa parte dos depoimentos a idade de 40 anos aparece repetidamente. Nos Estados Unidos, a legislação protege trabalhadores a partir dessa faixa etária, que, de acordo com o Age Discrimination in Employment Act (2005) é a idade na qual a discriminação etária começa nas organizações estadunidenses.
A proibição legal relacionada à discriminação etária nas organizações no Brasil faz com que o tema não seja abordado diretamente nas entrevistas de emprego, sendo esta uma
possível explicação para a falta de retorno para os candidatos, estratégia usual por parte dos selecionadores.
Os trechos que seguem trazem depoimentos que ilustram esta questão:
(...) outro dia uma head hunter me ligou (...) prá fechar, me fala a sua data de nascimento. Aí eu passei, ela ficou muda (...) Ela achou que eu tinha 38... eu tenho 48! Aí, em seguida, ela não me ligou mais! (R1).
(...) Ninguém te dá retorno! (R6).
(...) No final, pediu para que eu enviasse um currículo detalhado e perguntou a minha idade. Pronto, foi só falar, a mulher ficou muda! Eu notei claramente que ela mudou o tom da conversa, terminou logo, agradeceu e sumiu! Pergunta se eu ouvi falar dela de novo?! Uma falta de respeito! (R7).
(...) Foi em Seleção. Logo que eu fiquei desempregado (...) “Ih, a vaga é mais Junior!” (...) Você já viu uma vaga de Gerente de Suprimentos Junior ...? Ela certamente tinha uma restrição de idade no perfil, mas não podia falar, né? (R9). (...) ela perguntou a minha idade, e aí não deu prá disfarçar (...) Ela ficou muda! Mas ela não falou nada!!! Aí eu perguntei, isso é um problema pra você? E ela, não, imagine, nossa empresa valoriza muito a diversidade: nunca mais falou comigo (...) Nunca mais, nem deu feedback! (R10).
(...) aí eu falei, “então, se você acha que o meu perfil atende, pode me indicar para o seu cliente! (...) aí desconversei, mas ela voltou no assunto, acredita?! (IDADE) E, claro, nunca mais deu as caras depois! (R13).
(...) Já tô perto dos 50... um fantasma isso, né? Eu mando meu currículo, sou chamada pra algumas entrevistas... mas a coisa não anda! Deve ser por isso! (R18).
Nota-se uma recorrência de situações nas quais o entrevistador “fica mudo” ao saber a idade real do entrevistado. Nos depoimentos colhidos, o sentimento é de que a aparência do entrevistado não condiz com a sua idade real, sendo mais velho do que aparenta, o que causa espanto no entrevistador, pois o fato o coloca diante dos estereótipos negativos que a idade pode trazer e as normas de idade para o cargo que está selecionando. As normas de idade referem-se às percepções que as pessoas têm à respeito da idade ideal para o desempenho de determinado cargo ou função (LAWRENCE, 2004).
Ademais, mesmo que tenha um critério etário descrito no perfil profissional da vaga, o entrevistador não pode legalmente discriminar alguém por este motivo. Isto pode gerar um sentimento de dissonância cognitiva em alguns entrevistadores, traduzido pelo entrevistado pela expressão “ficou mudo/a”, quando há, por parte do entrevistador, uma lentidão na capacidade de reação frente a esta dinâmica.
A falta de retorno, outro aspecto relatado em grande parte das entrevistas, sugere ser um mecanismo de defesa do selecionador, usado como artifício para encobrir o real motivo da reprovação, que seria a idade avançada destes candidatos. De acordo com Lawrence (2004), as pessoas usam a idade para classificar os membros de um sistema social em categorias e
combiná-los com papéis e status e, estas crenças compartilhadas produziriam as chamadas normas de idade, que definiriam a faixa de idade certa para cada posição dentro da organização. Os relatos acima sugerem que os selecionadores, sejam eles gestores ou profissionais de recursos humanos, seguem estas normas de idade, procurando para suas vagas profissionais dentro das faixas etárias consideradas compatíveis.