- Aqui é a casa de purgar. E o açúcar fica limpando até chegar no ponto. Ele fica nos vasilhames apurando. É que você chegou bem cedo, mas daqui a uns dias isso aqui vai ficar cheio de açúcar, açúcar pra apurar. A gente pega aqui o vasilhame e tapa aquele buraquinho com um pouco de lama. A lama vai chupando a sujeira do açúcar até ele ficar bem limpo. O vasilhame a gente chama de pão. Cinco vasilhames, cinco pães. Dez vasilhames, dez pães... e assim por diante.
Em seguida, os três, Tio Juca, Carlinhos e Ricardo, aparecem em uma área externa da fábrica de moagem.
TIO JUCA
- E aqui é o bagaço. A bagaceira. O resto da cana que vai ser usado pro fogo no engenho. A cana vem, dá o caldo e depois volta pra esquentar as caldeiras pra fazer o açúcar.
Tio Juca apanha do chão um dos bagaços e pede que Carlinhos pegue.
TIO JUCA
- Olhe! Tá vendo? Sequinha!
A cena encerra com Carlinhos e mais dois meninos correndo entre os bagaços dando cambalhotas (MENINO DE ENGENHO, 1966).
Note-se, na sequência destacada, o detalhamento e a preocupação de tio Juca em apresentar todo o processo da cana a Carlinhos, ressaltando cada etapa, isto é, como se o visse como um adulto que deveria conhecer a realidade que agora faz parte de seu mundo. No filme, a ideia de proteção e fragilidade não se faz muito presente nas relações de Carlinhos com os adultos. Eles não o viam dessa forma. Era como um homem em tamanho menor. E isso se constata no fato de apresentarem-no o engenho, todo o processo da cana, os limites da terra, como se o preparassem para o mundo adulto, isto é, o “mundo” que ele passara a viver desde agora, porém isso não parece incomodar Carlinhos que a cada dia se encantava com toda aquela riqueza de descobertas.
A ideia de proteção e fragilidade, que vê a criança como diferente do adulto, que precisa de cuidados necessários, está relacionada à concepção de infância ligada à inocência. Para Dornelles (2011),
O entendimento de inocência possibilita que se efetivem dois tipos de discursos sobre as crianças: por um lado o de proteção da
sexualidade adulta ou de certos conhecimentos acerca do sexo. Com isto, sobre o sexo da criança, instala-se uma ortopedia discursiva, ou seja, um discurso marcado pelos cânones religiosos e baseado apenas no discurso dos adultos (DORNELLES, 2011, p. 21)
Essa concepção se contrapõe à concepção de adultilização da infância, mas ambas se complementam em Menino de Engenho (1966). Como se tais concepções fizessem parte de polos distintos que ao mesmo tempo se repelem e se atraem. Na película em questão, os adultos, embora tratem Carlinhos como um adulto em miniatura, eles também tentam protegê-lo da descoberta da sexualidade manifestada por Carlinhos o que se evidencia quando, em dado momento do filme, percebem o interesse de Carlinhos por vivências sexuais e anunciam sua ida para o colégio – lugar capaz de dominar tais impulsos, compreendidos como vícios, erros, fraquezas. Havia certa preocupação em proteger Carlinhos dos conhecimentos acerca do sexo. Ou seja, por ele ser ainda uma criança, não poderia ter esse tipo de vivência. Ressalta-se neste caso a visão dual, citada no início deste capítulo, em relação ao lugar da infância na contemporaneidade – em um ponto de convergência de polos distintos, entre os interstícios do que é paradoxal.
Em Capitães da areia (2011), a concepção de infância como preparação para o mundo adulto, também é a que se destaca. E uma das dimensões dessa característica é a sexualidade. No entanto, a sexualidade não é vista na mesma perspectiva citada acima, ao contrário, ela aparece como um afirmação de que não se é mais criança por já ter vivências sexuais. E isso fica bem evidente nas aventuras amorosas de Gato com Dalva, a prostituta, com quem Gato conseguia dinheiro como cafetão, além de trapacear na jogatina com seu baralho marcado.
Outra característica que reforça a ideia da adultilização dos capitães da areia, assemelhando-os aos adultos, é a forma como se organizam em grupo, criando suas próprias regras e, ao mesmo tempo, valorizando a liberdade na luta pela sobrevivência através dos furtos. Uma das maiores regras do bando era a de que não podia haver roubo entre eles, e diziam sempre “– somos ladrões lá fora, aqui dentro não!”. Não que as crianças não possam se organizar em grupos e ditar regras, mesmo em suas brincadeiras, mas neste caso, essa seria uma característica de adultos na concepção tratada no filme em tela, visão esta construída pelos adultos e seguida pelos capitães da areia.
No Brasil, foi entre pais, mestres, senhores e patrões, que pequenos corpos tanto dobraram-se à violência, às humilhações, à força, quanto foram amparados pela ternura dos sentimentos familiares mais afetuosos. Instituições como as escolas, a igreja, os asilos e as posteriores Febens e Funabens, a legislação ou o próprio sistema econômico, fizeram com que milhares de crianças se transformassem precocemente em gente grande (DEL PRIORE, 2013, p. 14)
Nas sequências a seguir, na fala de Gonzales (na primeira sequência) e do Soldado (na segunda sequência), é possível a visão construída pelos adultos dos meninos do bando. Na primeira sequência, também é possível perceber a corrupção da infância gerada pelos próprios adultos quando demonstram “lucrar” ao encomendar assaltos aos capitães da areia.
SEQ. – NO BAR – Int. – Noite
Estão no bar, em jogatina Pedro Bala, João Grande, Gato, Querido- de-Deus. Chega Gonzales, um intermediário que havia contratado Querido-de-Deus para um assalto e que o mesmo passou aos capitães da areia a missão. A reunião no bar era pra ver como ia a organização do assalto à mansão.
QUERIDO-DE-DEUS (depois de cumprimentar Gonzales)
- Então, Bala. Tu sabes que eu me comprometi com o camarada aqui, ne? Mas dessa vez não vamos deixar ele na mão.
GATO
- Tem preocupação não, seu Gonzales PEDRO BALA (interrompendo Gato)
- Peraí! Peraí! Peraí! (e dirigindo-se a Gonzales) Sem-perna já tá lá na casa da velha. Essa semana a gente resolve isso aí!
(e dirigindo-se a João Grande que olhava os marinheiros) PEDRO BALA
- E aí, Grande? JOÃO GRANDE
- Tá espiando de vez em vez? GONZALES
- Isso aqui não é um joguinho de criança!
PEDRO BALA (jogando as cartas de forma agressiva sobre a mesa e se levanta em direção de Gonzales, e com voz áspera retruca segurando seu órgão genital)
- Espera mais um pipi e eu te mostrar o tamanho da criança!
QUERIDO-DE-DEUS (entre os dois, impedido que se agredissem fisicamente, acalmando-os)
- Ei!!! Peraí, peraí! Senta aí, senta aí! Senta! Olha a calma Pedro Bala, pô! Segure essa língua e afasta dos dentes, paizinho!!!
- Você tá parecendo que não conhece os capitães da areia, tão mais longe de ser criança que o mercado de Caixa Prego.
(Joaõ Grande ri sarcasticamente)
GONZALES (com ar duro e tom ameaçador) - Até quinta-feira!
QUERIDO-DE-DEUS (Gonzales levanta e se retira)
- Eu dou minha palavra. (risos) Ele tá arretado!!! (referindo-se ao sujeito)
(CAPITÃES DA AREIA, 2011)
SEQ. – EM FRENTE À IGREJA NA PRAÇA – Ext. – Dia
Capitães em frente à igreja conversam e esperam uma nova vítima a ser abatida. Professor desenha um senhor com piteira na mão e roupas bem alinhadas. Ao ser levado por um dos meninos e ver a pintura que Professor fez o homem indaga:
SENHOR (depois de observar a pintura) - Foi você que fez?
PROFESSOR - Foi
SENHOR
- Aprendeu a desenhar onde? PROFESSOR
- Não aprendi em lugar nem um não. Dá vontade, pego e desenho. PEDRO BALA
- Esse aí desenha até os pensamentos dos outros, se tivesse andado pela escola já estava rico...
SENHOR