Sabe-se que, para desenvolver Atividades Intensivas em Conhecimento, como o próprio nome sugere, o conhecimento sobre a atividade é fator indispensável, uma vez que será ele que determinará todas as decisões tomadas e que terá forte influência sobre elas. Para conhecer mais, é preciso aprender mais, portanto, são atividades que exigem um contínuo processo de aprendizagem dos envolvidos que, no caso da produção do material didático para EAD compreende toda a equipe multidisciplinar. Entretanto, conforme exposto na fundamentação teórica, aprender em conjunto não é uma tarefa de simples implementação especialmente pelo fato de que desenvolver habilidades em grupo é mais difícil que individualmente, e mesmo que a equipe possua indivíduos dispostos a aprender, isso não significará que em grupo essa será uma equipe que aprende (SENGE, 2009). Nesse âmbito, abre-se uma lacuna para a inserção das abordagens adotadas nessa pesquisa que consideram a interação e a colaboração como algo obrigatório para a que as pessoas possam aprender em conjunto.
Em um primeiro momento, é possível fazer uma aproximação com os pressupostos da Teoria da Cognição Situada e das Comunidades de Práticas (Quadro 4.1) e relacioná-los às possibilidades de aprendizagem para as equipes multidisciplinares de produção de material didático. Na verdade, poder-se-ia pensar nas equipes de produção de material didático para EAD como verdadeiras Comunidades de Prática nas quais a troca e a aprendizagem entre os membros das equipes seriam constantes e crescentes. Tanto isso se justifica que entre os pressupostos descritos no Quadro 4.1 estão a consideração de que "a aprendizagem é uma atividade inerentemente social" (P3) e que "é por meio da interação que os participantes experimentam similaridades e diferenças entre vários pontos de vista estabelecendo relações a respeito do domínio estudado e de sua prática" (P5). De modo complementar, também pode-se relacionar as dimensões básicas de uma COP (comunidade, domínio e prática) às características desse tipo de equipe, conforme mostra a Figura 4.2 (adaptada da Figura 2.4) que configura uma equipe multidisciplinar de produção de material didático para EAD como uma COP, estabelecendo para a dimensão
"comunidade", a própria equipe multidisciplinar; para a dimensão "domínio", a produção dos materiais didáticos; e para a dimensão da "prática", os projetos desenvolvidos, os processos de produção e as formas de desenvolvimento dos recursos.
Figura 4.4 - Dimensões das COPs adaptadas às equipes multidisciplinares de produção de materiais didáticos para EAD
Fonte: Adaptado de Grunewald et al. (2013).
Soma-se ao citado, os resultados do questionário aplicado no qual a maioria dos respondentes (78%) enxerga sua equipe como uma COP e reconhece um alto (76%) ou médio (24%) impacto dessas características na qualidade do material didático. Dentre aqueles (22%) que não consideram suas equipes como COPs, ainda assim, a maioria (72%) acredita que isso representaria um ganho na qualidade do material didático (resultados das questões 14 e 15). Além disso, o questionário também revelou (resultado da questão 13) que quando os especialistas das equipes de produção de materiais didáticos para EAD necessitam aprender, a maioria (66%) recorre aos colegas da equipe. Pode-se, portanto, inferir que os pressupostos das COPs e da TCS podem trazer vantagens à esse tipo de equipe, colaborando especialmente com as questões relativas à interação e colaboração entre os especialistas que a compõe. Do exposto, desenvolveu-se a primeira das recomendações proposta, que não fez uso do termo COP para evitar a necessidade de explicar o conceito embora sua definição esteja implícita na recomendação:
1. Para favorecer a interação, a colaboração e o desenvolvimento de processos contínuos de aprendizagem, uma equipe multidisciplinar de produção de material didático para EAD deve organizar-se internamente como um grupo colaborativo de aprendizagem, ou seja, como um grupo que, para interagir e aprender em conjunto fará interações regulares, compartilhando e disseminando informações com o objetivo de buscar consolidar meios para melhorar continuadamente sua prática.
A partir dessa primeira recomendação, as seguintes (de 2 até 7) mostram-se complementares e tratam de conceitos inerentes à formação desses grupos colaborativos de aprendizagem. Assim sendo, convém retornar à fundamentação teórica e também ao questionário aplicado, nos quais foram expostas as vantagens de se desenvolver COPs online, ou seja, COPs em que a prática pode ser realizada por meio de uma experimentação em um mundo virtual, com toda a liberdade de que esse universo permite, ou seja, com diferentes ritmos para a ação de cada um, com ações que podem ser revertidas, desfeitas ou refeitas, na qual qualquer componente pode ser isolado e a complexidade, simplificada (SENGE, 2009). Também se pode acrescentar um dos resultados do questionário (resultado da questão 8) que indica que o formato comum da maioria (72%) das equipes multidisciplinares de produção de materiais didáticos para EAD é o trabalho de forma híbrida (na qual ou o colaborador tem horas presenciais e horas a distância, ou parte da equipe trabalha presencialmente e parte, a distância). Identifica-se, nesse resultado, a existência de trabalhos remotos na maioria das equipes e, portanto, mais uma justificativa para que as atividades colaborativas e de interação online sejam exploradas. Considerando especialmente esses argumentos e com o objetivo de facilitar o desenvolvimento de campos de prática por esse tipo de equipe, tem-se a segunda recomendação:
2. As interações do grupo colaborativo de aprendizagem formado pela equipe multidisciplinar de produção de material didático para EAD devem efetivar-se, preferencialmente, por meio de ambientes virtuais, uma vez que esse tipo de recurso permite a colaboração constante a qualquer tempo e em qualquer local. Tal consideração justifica-se especialmente para aquelas equipes com bom letramento digital e para aquelas que
mantêm especialistas que trabalham, ou têm a tendência de trabalhar, em momentos e locais distintos.
Considerando a citada recomendação e a fundamentação teórica apresentada nessa pesquisa, observa-se ainda, nesse tipo de equipe, certa fragmentação nas atividades e na atuação de cada envolvido, o que implica em interrogar como seria possível fomentar a interação e a colaboração online sugeridos na segunda recomendação.
Com o objetivo de esclarecer essa questão, buscaram-se respostas novamente na fundamentação teórica e também nos resultados encontrados a partir da RSL. De acordo com Wenger et al. (2009) e segundo os estudos de Baxter e Haycock et al. (2014), os níveis de interação e colaboração de uma COP, ou de um grupo de aprendizagem, dependerão da identidade criada nessa comunidade e, como consequência, do sentimento de pertença que existir entre seus participantes. Trata-se, nesse caso, de aspectos de uma das dimensões da COPs, ou seja, da dimensão da "comunidade", na qual estabelecer conexões entre os participantes mostra-se tão importante quando construir a própria comunidade de prática.
Para o caso estudado, o desenvolvimento dessa identidade, ou seja, desse sentimento de pertença, entre os especialistas das equipes multidisciplinares ao se organizarem como uma COP deve surgir a partir do compromisso com o "domínio". Em outras palavras, o que unirá os especialistas dessa equipe multidisciplinar, pelo menos em um primeiro momento, será o interesse pelo tema da sua prática: "a produção de materiais didáticos", que representa a dimensão "domínio" nessa COP (ver Figura 4.2). A produção de materiais didáticos é o universo de atuação das equipes multidisciplinares e, portanto, pode ser o interesse comum entre os especialistas que, por meio da interação e colaboração, poderão melhorar a sua atuação na prática. O compartilhamento desse conhecimento, que é comum para os integrantes da equipe atuará, em primeira instância, como ferramenta- chave para uma sensação de confiança entre os especialistas e para a criação da identidade da comunidade.
Conforme afirma Wenger et al. (2009) será a expectativa daquilo que será compartilhado que provocará uma identificação com a experiência de cada participante e que fará com que a aprendizagem seja ao mesmo tempo individual e coletiva. Os pressupostos da COPs, conforme apresentado na fundamentação teórica e também no Quadro 4.1, destacam a importância de determinar com clareza seu o domínio
(P1 e P2). Além disso, para a TCS, aprende-se mais e melhor quando o conhecimento é apresentado e aprendido em contexto autêntico, com elementos e aplicações que naturalmente envolveriam esse conhecimento (P6). Assim sendo, a Comunidade de Prática a ser desenvolvida deve promover a interação e a colaboração a partir do próprio campo de atuação da equipe multidisciplinar, considerando que o mundo real, como contexto, é o ambiente mais adequado para o aprendizado (P7 e P8). Deve-se, por conseguinte, favorecer atividades, tarefas e discussões que envolvam a prática da comunidade. Para o caso das equipes multidisciplinares em questão, têm-se como exemplo: os projetos desenvolvidos, os processos de produção, as formas de desenvolvimento de materiais didáticos ou ainda questões que necessitam ser respondidas em um determinado momento do processo de produção dos materiais didáticos. Do exposto, tem a terceira recomendação proposta:
3. Os níveis de interação e, por conseguinte, a colaboração em um grupo de indivíduos, geralmente depende do sentimento de pertencimento dos participantes no grupo. Tal sentimento normalmente é desenvolvido por meio de um interesse comum. Assim, para que o grupo colaborativo de aprendizagem formado pela equipe multidisciplinar de produção de material didático para EAD mantenha-se interativo, deve-se promover a colaboração entre os participantes a partir de temáticas que abordem o campo de atuação dos envolvidos, favorecendo discussões que envolvam projetos em desenvolvimento, dúvidas e necessidades inerentes às suas práticas, buscando manter um interesse comum que desperte o referido sentimento de pertença.
Na sequência da terceira recomendação e ainda em relação ao sentimento de identidade, Wenger et al. (2009) complementam que a identidade de um membro de uma COP provém da forma como ele pertence a essa COP. Assim, e conforme citado na fundamentação teórica dessa pesquisa, a aprendizagem na COP dependerá da habilidade de alguns de tomarem a liderança e desempenharem diferentes papéis com objetivo de avançar e aprofundar o conhecimento compartilhado. Também se considera que não é necessário que todos participem da mesma forma, podem haver participantes ativos e também passivos (ou seja, que tenham a chamada participação legítima periférica - P4).